Antipsicóticos surgem como alternativas eficazes no tratamento dos transtornos de humor

Os antipiscóticos de segunda geração acumulam evidências crescentes de sua eficácia no tratamento dos transtornos de humor, bipolar e unipolar (depressão maior), através de inúmeras pesquisas na última década. Farmacologicamente este fenômeno pode ser explicado pela atuação desses medicamentos em receptores serotoninérgicos (estimulando a produção de serotonina), o que os diferencia dos antipsicóticos mais antigos, conhecidos como típicos ou de primeira geração, cujo protótipo mais conhecido é o haloperidol, que age somente em receptores de dopamina. O efeito in vivo dessas substâncias, entretanto, pode ser bem mais abrangente, atuando inclusive em outros sistemas de neurotransmissão, como glutamato (sistema menos conhecido, mas de grande importância para a psiquiatria).

Tanto o Congresso da Associação Americana de Psiquiatria (APA – Hawaii) como o Congresso da Associação Mundial de Psiquiatria (WPA – Buenos Aires) neste ano deram destaque ao tema em diferentes mesas redondas. A ideia é que os antipsicóticos de segunda geração sejam uma alternativa aos antidepressivos e estabilizadores de humor quando o paciente não responde ao primeiro medicamento. Alguns estudos têm demonstrado que um dos fatores que compromete a resposta terapêutica a longo prazo e deixa o paciente em risco de uma recaída é a presença de sintomas residuais, ou seja, sintomas depressivos, ansiosos, hipomaníacos ou mistos, mesmo com o uso do estabilizador de humor ou do antidepressivo.

O tempo de resposta também parece ser importante, sendo a demora na resposta terapêutica um fator preditivo de pior recuperação do episódio. Assim sendo, a alternativa de um antipsicótico de segunda geração deve ser considerada tão logo se observe que a resposta ao primeiro medicamento é inadequada.

Essas evidências têm encontrado respaldo de órgãos regulatórios, como o FDA (EUA) e o Ministério da Saúde (Brasil), que já autorizaram alguns medicamentos antipsicóticos de segunda geração a incluírem em bula as indicações para o tratamento dos transtornos de humor, por ora ainda restritos ao Transtorno Bipolar, em fases distintas como mania e depressão. Porém existe a expectativa de que em breve já conste a indicação do tratamento combinado para depressão maior na bula de algumas substâncias.

O efeito que essas medicações possuem na estabilização do humor e no controle da ansiedade pode ser um adicional interessante para pacientes que não conseguem atingir a estabilidade com o uso de antidepressivos ou estabilizadores de humor isoladamente.

Um problema na prática clínica é que muitos pacientes são resistentes ao uso dessas medicações por sua associação com o tratamento da esquizofrenia (primeira indicação em bula e patologia para a qual esses medicamentos foram inicialmente desenvolvidos ou estudados).

Um problema comum na psiquiatria e ao qual já fiz algumas referências aqui no blog é que o nome das classes medicamentosas dos psicofármacos é inadequada e confunde mais o paciente. Um exemplo clássico é o da classe dos antidepressivos: reúne substâncias com diferentes mecanismos de ação e com várias indicações que não somente a depressão, pois são muito utilizados no tratamento do pânico, da ansiedade, do TOC, do estresse pós-traumático, etc. Então deveriam ser chamadas também de anti-pânico, anti-obsessivos e assim por diante. O mesmo em relação aos estabilizadores de humor e antipsicóticos, cujo uso hoje extrapola os limites dos diagnósticos para os quais foram desenvolvidos ou estudados.

O que parece um mero detalhe traz um obstáculo para a prática dos consultórios, pois muitos pacientes acabam fantasiando, acreditando que possam ter um problema psiquiátrico mais grave, ou pensando que podem ficar com alguma sequela do tratamento. Poucos compreendem que sequelas ocorrerão se não tratarem adequadamente o transtorno de humor no presente, pois estudos já têm demonstrado a associação de depressão e transtorno bipolar ao longo da vida com demência na terceira idade, principalmente quando o controle destes transtornos não é adequado.

Os antipsicóticos de segunda geração são seguros, bem tolerados, causam bem menos sintomas extrapiramidais (conhecidos como impregnação) do que os de primeira geração e pacientes em uso deles conseguem manter suas atividades ou retomá-las sem prejuízos, não se justificando o temor que muitos pacientes têm de ficarem inutilizados pelos seus efeitos adversos.

Abaixo está a lista dos antipsicóticos de segunda geração que podem ser úteis no tratamento dos transtornos de humor e seus respectivos nomes comerciais:

  • Quetiapina (Seroquel, Kitapen, Quetiapina genérica)
  • Olanzapina (Zyprexa, Zopix e Olanzapina genérica)
  • Aripiprazol (Abilify)
  • Ziprazidona (Geodon)
  • Clozapina (Leponex)
  • Amisulprida (Socian)
  • Paliperidona (Invega)
  • Risperidona (Risperdal, Riss, Respidon, Risperidon, Zargus, Esquidon, outros, inclusive genéricos)

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Autor: Dr. Leonardo Palmeira

Psiquiatra pela faculdade de medicina da UFRJ com especialização e pós-graduação em Psiquiatria pelo Instituto Philippe Pinel, Rio de Janeiro. Membro Titular da Associação Brasileira de Psiquiatria e Membro da Sociedade Internacional de Pesquisa em Esquizofrenia (Schizophrenia International Research Society) desde 2005. Autor do livro "Entendendo a Esquizofrenia.

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25 Comentários

  1. >Bom dia Dr.,
    Tive um problema de aneurisma e passei por uma cirurgia de embolização.
    Recentemente o médico solicitou um exame de Tomografia de Crânio e o diagnóstico foi o seguinte:

    Encefalomalácia/gliose na coroa radiada frontoperietal esquerda, retraindo o ventrículo lateral ipsilateral.

    Há leve ectasia do sistema ventricular supra-tentorial, denotando certo grau de hidrocefalia.

    Correlacionar com exames anteriores.

    Restante do parênquima cerebral com valores de atenuação dentro dos padrões normais.

    Núcleos da base, tálamos e regiões capsulares sem alterações.

    Tronco cerebral e hemisférios cerebelares de aspecto anatômico.

    Sulcos corticais, fissuras e cisternas da base preservadas.

    Não se observam coleções extra-axiais.

    O sr. poderia me esclarecer o que isso quer dizer?

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  2. >POSSO TOMAR MEDICAÇÃO SIBUTRAMIJA EM DIAS ALTERNADOS?

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  3. >Olá Doutor,

    tem uma pessoa em minha família que faz tratamento para a depressão há 16 anos. Mesmo com medicação, ela tem recaídas. Ela fica boa por um tempo e do nada as crises voltam e depois vão embora. Porém ela teve uma crise mais forte agora e passou a tomar o remédio Olanzapina (Zyprexa)e também toma rivotril. Já faz 1 Mês que ela toma essa medicação e a melhora está muito lenta. Ela anda muito ansiosa e preocupada demais com tudo. O Doutor pode me dizer em quanto tempo será que ela terá uma resposta positiva?
    Agradeço muito se puder me responder, obrigado….

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  4. >Dr. Leonardo Figueiredo Palmeira,

    Em quanto tempo pode-se notar melhora com o uso do medicamento Zyprexa. Tenho uma amiga que toma esse remédio há um mês e também faz uso do rivotril e ainda não conseguiu estabilizar sua ansiedade (depressão).

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  5. >Estou a tomar Seroquel SR 200 mg à noite e 50 mg de manhã. Tenho sentido um aceleramento da pulsação e aumento da tensão arterial. Esta manhã quando sai senti-me acelerada e um pouco descordenada. Devo preocupar-me com o coração, dado o aumento da pulsação para cerca de 80/90 ?

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  6. >Espera-se que um antipsicotico faça efeito em ate 8 semanas. Um abraço!

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  7. >Dr.Leonardo
    Por favor me ajude , pois tenho uma pessoa na familia que foi diagnosticado como bipolar ,mas na familia tem varios casos de esquizofrenia.
    Agora ele esta tomando,
    Haldol+ carbolitium + diazepam, mas esses medicamentos os deixa dopado, porém esse é o interesse da familia para que ele fpaase o dia todo dormindo.
    A alimentação dele é exagerada, toma muito café, e fuma cigarro, Esses medicamentos + alimentação errada+ fumo,poderá resultar numa bomba e ele ter por exemplo um enfarto ou um problema renal, pois acho que ele estáum pouco inchado.
    Aguardo anciosa, uma resposta,
    atenciosamente,
    Kátia

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  8. Kátia,
    certamente que esses medicamentos devem ser utilizados com acompanhamento médico. O lítio (carbolitium) requer exames de sangue periódicos para ver a dosagem de lítio no sangue e a função renal. Se ele está inchado deve relatar este problema ao seu médico. O objetivo do tratamento psiquiátrico é que o paciente possa levar uma vida normal tomando os medicamentos. O tratamento é para somar e não para subtrair. Um abraço!

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  9. Dr. Leonardo,
    Todo paciente precisa de um acompanhamento e receituário médico. Não basta fornecer medicamento se o Governo não coloca médicos para atender doentes em domicílio pois a própria doença os deixam sem coragem e se recusam a sair de casa. Sou irmão de um esquizofrenico e tenho que procurar médicos para conseguir comprar os medicmentos que ele necessita. É possível conseguir na justiça uma consulta periódica de médico do SUS (psiquiatra e clinico para uma verificação geral) ou de Plano de Saúde no ambiente familiar?

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    • Eu penso que os CAPS deveriam contemplar visitas domiciliares a pacientes que não podem se locomover até o serviço, de forma a garantir a eles o tratamento. Da mesma forma planos de saúde deveriam cobrir atendimentos domiciliares para esses casos. Não sei se já existe uma jurisprudência neste sentido, mas me parece lógico pensar que este é um direito do cidadão. Um abraço!

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  10. Boa Tarde Dr. tenho também anorexia e bulimia nervosa, meu medo é que a medicação zopix 10mg engorde, pode? Quais os efeitos colaterais mais frequentes?

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    • Jaqueline, converse com seu psiquiatra a respeito, ele é a melhor pessoa para responder às suas dúvidas. Não quero e nem posso influenciá-la, espero que compreenda. Um abraço!

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  11. Dr. o Zyprexa tbm é usado para os transtornos de ansiedade em doses baixas?

    Obrigada!

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  12. Dr° Gostaria de saber, quando um paciente se recusa a tomar as medicações, ( no caso minha mãe), se é possível diluir o Clorpromazina no Café puro. Já tentei em água, mas ela sentiu o gosto amargo.

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    • Não se deve diluir medicamentos em alimentos ou bebidas, ainda mais quentes, pois isso altera a propriedade e a absorção do medicamento. Aliás isso em nada contribui no tratamento do paciente, onde se espera que com ele a pessoa possa também elevar seu nível de consciência. Hoje existem medicações injetáveis de longa ação que podem ser utilizadas até a pessoa ter maior consciência e aceitar o tratamento. Um abraço!

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  13. Consultei uma psiquiatra que me receitou o eutonis e o reconter. Ela sempre dizia que iria um dia provavelmente depois de seis meses de tratamento trocar o eutonis por ser de taja preta por outro. Me sentia muito bem com eutonis e reconter só que ela trocou o eutonis por outro que não deu certo e agora pelo valdoxam que também não tem me ajudado muito. Ela diz quando pergunto porque não posso tomá-lo porque nem nos Estados Unidos estão usando mais remédios de taja preta.
    Gostaria de saber realmente porque ela insiste em trocar eutonis por qualquer outro remédio se me sentia tão bem com ele. Não queria trocar de médico e recomessar a contar toda minha estória traumática além do TOC que descobri que também tenho.
    Grato! Por favor me ajudem.

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  14. Consultei uma psiquiatra que me receitou o eutonis e o reconter. Ela sempre dizia que iria um dia provavelmente depois de seis meses de tratamento trocar o eutonis por ser de taja preta por outro. Me sentia muito bem com eutonis e reconter só que ela trocou o eutonis por outro que não deu certo e agora pelo valdoxam que também não tem me ajudado muito. Ela diz quando pergunto porque não posso tomá-lo porque nem nos Estados Unidos estão usando mais remédios de taja preta.
    Gostaria de saber realmente porque ela insiste em trocar eutonis por qualquer outro remédio se me sentia tão bem com ele. Não queria trocar de médico e recomessar a contar toda minha estória traumática além do TOC que descobri que também tenho.
    Grato! Por favor me ajudem. Esqueci de comentar que tive depressão na adolecência mas me curei e a 10 meses perdi minha esposa num terível acidente de carro e além do toc que já tinha perdi a vontade de viver e só procurei ajuda a um psiquiatra por meus filhos.

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    • Saint Clair, realmente evitamos os tranquilizantes de tarja preta pelo potencial de criar dependência, ainda mais em se tratando de paciente jovem. Os tranquilizantes da classe dos benzodiazepínicos também podem trazer problemas cognitivos, como de memória e concentração. Existem opções até mais eficazes, mas somente sua psiquiatra, através do exame, pode lhe recomendar a melhor opção. Um abraço!

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  15. Estou em tratamento psiquiátrico no combate ao TBH com a seguinte medicação: ZAP ; TORVAL ; EXODUS e RIVOTRIL. Estou me sentindo muio bem. Durmo bem e tenho bom apetide. Voltando o prazer de voltar a viver bem.

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  16. Sou portador também da SPI, mas desconheço sua origem. No entanto, fiz uso por um longo período do medicamento RISPERIDONA. Qual a sua opinião a respeito. Será por isso que adquiri tal síndrome?

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    • Vicente, é preciso ser avaliado por um psiquiatra, pois a risperidona, como outros antipsicóticos, podem causar acatisia, uma das manifestações seria pernas inquietas, mas raramente ela persiste após a suspensão do medicamento. Um abraço!

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  17. doutor respidon serve para transtorno obsessivo-compulsivo

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    • Felipe, o Respidon é a risperidona, um antipsicótico de segunda geração. Sua indicação principal é para psicose, mas ele possui também ação no humor, podendo ser utilizado no tratamento combinado com outros medicamentos para outros transtornos psiquiátricos. Um abraço!

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  18. Tenho um filho de 13 anos que apresentou sintoma extrapiramidal com uso da respiridona, o médico agora mudou a medicação para Invega. Qual a diferença entre o Invega e a Resperidona?

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    • Maria, o Invega é a paliperidona, um metabólito ativo da risperidona, que portanto, tem menos efeitos extrapiramidais do que a própria risperidona.

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