Artigo do Dr Leonardo Palmeira publicado no Jornal do Brasil: "O Desafio da Família"

Jornal do Brasil – Sociedade Aberta – O desafio da família

O desafio da família

Leonardo Palmeira *, Jornal do Brasil

RIO – A novela ‘Caminho das Índias’ traz para debate na sociedade o tema da esquizofrenia, doença mental que acomete cerca de 2 milhões de brasileiros e envolve outros 8 milhões direta ou indiretamente, entre familiares, amigos e cuidadores. Apesar dos números expressivos, a esquizofrenia é desconhecida pela sociedade e estigmatizada como loucura ou como o que de pior poderia acontecer à saúde de uma pessoa. A novela vem abordando o assunto de forma clara e educativa, expondo os preconceitos que doentes e familiares sofrem com o diagnóstico. Um aspecto central é o papel da família, da identificação do problema até o tratamento e a recuperação da pessoa assunto que merece maior reflexão, pois estudos têm apontado a família como agente fundamental de todo o processo de cuidado na esquizofrenia.

O período inicial da doença é de difícil compreensão e percepção. Os sintomas mais precoces são inespecíficos, confundidos com depressão, ansiedade, crise existencial ou natural da adolescência. O isolamento, a apatia, a interrupção de atividades como trabalho e estudo e os problemas de relacionamento indicam a necessidade de apoio, mas a família se sente perdida em relação a quem recorrer. Acrescenta-se a isso a dificuldade de enxergar o quadro como um problema de saúde, quiçá psiquiátrico, diante da angústia de imaginar alguém querido acometido por uma doença psiquiátrica desconhecida e, por isso mesmo, temida como algo que pode selar negativamente o futuro da pessoa. A negação da doença cega e protela a procura pelo tratamento adequado. Todavia, o quanto antes o diagnóstico e o tratamento, maiores e mais rápidas as chances de recuperação. Como a esquizofrenia atinge a capacidade de autocrítica e determinação da pessoa, este é um desafio crucial para a família, de quem se espera uma atitude.

Com o primeiro surto, os delírios, as alucinações e as alterações de comportamento escancaram aquilo que já não se pode mais negar. É comum, neste momento, que os pais assumam culpas ou culpem um ao outro equivocadamente, querendo assumir ou dirimir responsabilidades que eles não têm. A esquizofrenia é uma doença hereditária que surge de uma relação complexa entre fatores biológicos e ambientais, sobre os quais a família não pode ter controle. Por isso, o sentimento de culpa não deve ser nutrido sob nenhuma hipótese. Traumas de infância, problemas da criação ou descuidos do passado provavelmente não foram determinantes para o adoecimento. A pessoa já trazia consigo uma predisposição.

É fundamental que a família conheça a fundo a doença para compreender as atitudes de seu familiar. Estudos demonstram que pacientes cujas famílias são bem informadas e capazes de solucionar os conflitos com menor grau de estresse têm até 70% menos recaídas do que aqueles que não contam com um ambiente familiar acolhedor e compreensivo. Alguns padrões emocionais são mais comuns nas famílias, como atitude mais crítica, superprotetora ou permissiva. Identificar e melhorar essas atitudes são cruciais. Nesses anos pude perceber o quanto o conhecimento e a reflexão da família são capazes de imprimir mudanças em seus pacientes que antes pareciam impossíveis.

A esquizofrenia é uma doença complexa e, como tal, exige um enfrentamento pluridimensional. A família deve se aliar à equipe terapêutica, acreditando que com o envolvimento de todos a recuperação seja possível. Apesar de não se conhecer uma cura, a pessoa que sofre de esquizofrenia pode ter uma vida normal e produtiva com o tratamento e este deve ser o objetivo comum de pacientes, terapeutas e familiares.

* Leonardo Palmeira é psiquiatra e membro da Associação Brasileira de Psiquiatria e da Sociedade Internacional de Pesquisa em Esquizofrenia

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Autor: Dr. Leonardo Palmeira

Psiquiatra pela faculdade de medicina da UFRJ com especialização e pós-graduação em Psiquiatria pelo Instituto Philippe Pinel, Rio de Janeiro. Membro Titular da Associação Brasileira de Psiquiatria e Membro da Sociedade Internacional de Pesquisa em Esquizofrenia (Schizophrenia International Research Society) desde 2005. Autor do livro "Entendendo a Esquizofrenia.

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3 Comentários

  1. >Dr, sou usuario de maconha. Uso praticamente todos os dias. Agora estou tomando um remédio chamado Eutonis e outro chamado Stavigile.
    Gostaria de saber se o uso da maconha compromete o desenvolvimento do meu tratamento.
    Dr Leonardo, mais uma pergunta.
    O senhor faz tratamentos psicoterapicos também?pois preciso começar. Moro proximo a Barra da Tijuca e gostaria de lhe contactar.
    Muito Obrigado

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  2. Olá Dr Leonardo!
    Primeiramente gostaria de agradecer pelo esclarecimento a respeito da esquizofrenia. Seu livro tem sido muito útil para mim e minha família. Fui diagnosticado com esquizofrenia em 2013, aos 31 anos, e minha vida virou de cabeça. Sem saber nada sobre a doença, fui fazendo pesquisas e acabei te encontrando. Gostaria de agradecer pela sua proposta de ajudar as familias, que como a minha, parece que só descobrimos a ponta do iceberg. Jeová abençoe o senhor e sua família em nome de Jesus. Amém.

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    • Obrigado Anderson! Espero que os conhecimentos que vocês vem adquirindo os ajudem a avançar cada vez mais no caminho da recuperação e do bem-estar.

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