Eleições 2010 – Entrevista com os candidatos – Plínio Sampaio

O Portal Entendendo a Esquizofrenia enviou aos candidatos a Presidente da República uma carta com perguntas sobre as suas propostas para a área de Saúde Mental.

Segue a entrevista com o candidato do PSOL, Plínio Arruda Sampaio:

Portal: O Brasil enfrenta uma crise na rede hospitalar especializada (hospitais psiquiátricos), com redução de leitos que possam atender à população nos casos de urgência. Os hospitais gerais estão longe de suprir esta carência, pois a grande maioria não conta com alas psiquiátricas. Qual a sua proposta quanto aos leitos psiquiátricos?

Plínio: A situação da falta de leitos está diretamente ligada com o descompromisso das prefeituras, estados e do governo federal que com a criação dos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) passaram a desativar os hospitais psiquiátricos sem, no entanto, abrir vagas suficientes nos CAPS para atender a esta demanda. Resultado disso é que hoje temos muitas pessoas que não tem acesso a um tratamento adequado por descompromisso público.

Neste sentido pretendo promover a construção de CAPS como política mais humana para aqueles que sofrem de doenças mentais, reservando os hospitais públicos para aqueles casos mais graves, onde o paciente corre o risco de se automutilar, cometer suicídio ou matar outras pessoas.

Entendo que se constituem como uma alternativa ao modelo centrado no hospital psiquiátrico, caracterizado por internações de longa permanência e regime asilar. Os Centros de Atenção, ao contrário, permitem que os usuários permaneçam junto às suas famílias e comunidades.

Portal: Os CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) estão sobrecarregados e muitos perderam sua característica inicial de espaço para reabilitação psicossocial de pacientes com transtornos mentais graves, funcionando como grandes ambulatórios. Qual a sua proposta para os CAPS e para os ambulatórios especializados

Plínio: A criação dos CAPS foi um avanço na legislação brasileira, fruto de muita luta do movimento da luta anti-manicomial. No entanto, como já citei na resposta anterior, nenhuma das esferas do poder público criaram CAPS suficientes. É claro que o CAPS também tem suas contradições, por isso também pretendo junto com os movimentos e intelectuais da área avançar sempre em uma política de saúde mental que trate o doente como pessoa que não precisa ser privada do convívio social.

Portal: Sabemos que o tratamento da esquizofrenia e de outros transtornos mentais graves muitas vezes requer medicamentos modernos e de alto custo. O governo federal desenvolveu um programa de dispensação de medicamentos especiais, mas sabemos que a sua abrangência ainda está longe da ideal, poucas pessoas têm acesso e em alguns estados existe uma burocracia imensa para consegui-los. Qual a sua proposta no que diz respeito aos medicamentos de alto custo?

Plínio: Minha proposta no que diz respeito ao acesso a medicamentos é a mesma com relação a todo o sistema de saúde. O que acontece hoje é que a maioria dos remédios é muito caro e o estado não provem esses medicamentos para quem não pode pagar. Cria-se então um muro que por muitas vezes determina quem morre e quem vive.

Para acabar com essa divisão defendo um sistema socializado de medicina, onde tanto o pobre quanto o rico tenham acesso a mesma medicina e aos mesmos medicamentos providos pelo Estado e isso vale para os medicamentos de transtornos mentais graves, independente do preço. Saúde é um direito de todos e não pode servir para obtenção de lucro.

Portal: Sabemos que a recuperação de uma pessoa com transtorno mental grave depende também do combate ao estigma e ao preconceito na sociedade, para que eles possam ter maior oportunidade em sua comunidade, como trabalho e vida social. Outros países têm uma participação mais ativa no sentido de promover campanhas sociais antiestigma, informando a população e combatendo os muros do preconceito. Qual a sua proposta no combate ao estigma e ao preconceito da doença mental?

Plínio: O manicômio é expressão de uma estrutura, presente nos diversos mecanismos de opressão desse tipo de sociedade. A opressão nas fábricas, nas instituições de adolescentes, nos cárceres, a discriminação contra negros, homossexuais, índios, mulheres. Lutar pelos direitos de cidadania dos doentes mentais significa incorporar-se à luta de todos os trabalhadores por seus direitos mínimos à saúde, justiça e melhores condições de vida.

Portal: Por fim, como o senhor avalia a atual situação da assistência psiquiátrica no Brasil?

Plínio: Como já expressei em minhas repostas anteriores a assistência psiquiátrica é muito precária no Brasil, precisamos evoluir muito nessa área e pretendo junto com conselhos da área, o movimento de luta anti-manicomial travar um luta contra e exclusão dessa população, promovendo a inclusão desses cidadãos na sociedade.

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Autor: Dr. Leonardo Palmeira

Psiquiatra pela faculdade de medicina da UFRJ com especialização e pós-graduação em Psiquiatria pelo Instituto Philippe Pinel, Rio de Janeiro. Membro Titular da Associação Brasileira de Psiquiatria e Membro da Sociedade Internacional de Pesquisa em Esquizofrenia (Schizophrenia International Research Society) desde 2005. Autor do livro "Entendendo a Esquizofrenia.

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2 Comentários

  1. >Olá Dr. Leonardo. Quero parabenizá-lo pelo excelente blog e trabalho.
    Há uma semana fui diagnosticada com transtorno bipolar. Confesso que fui surpreendida com essa notícia e após buscar muita informação pela internet,não consigo me encaixar nos sintomas de euforia/mania.
    Minha médica me disse que tenho o tipo misto e que não necessariamente preciso ter todos os sintomas, mas não vejo nenhum bipolar relatando que não tem o sintoma de euforia, como é o meu caso. O que acontece comigo é que eu vario entre depressão, irritação e me sentir bem durante o mesmo dia. Porém esse me "sentir bem" eu considero normal pq não fico euforica e não tenho uma sensação boa fora do normal, só não me sinto mais deprimida/triste e só. Me sinto muito ansiosa e com uma espécie de aceleração interna. Parece que minha ansiedade é tão grande que é como se um "bichinho" estivesse percorrendo o meu corpo. Na infância tive muito tempo TOC e uma tentativa de suícidio com cerca de 12 anos. Porém o TOC nunca mais se manifestou. O que eu gostaria de saber e se esses sintomas, SEM A EUFORIA que de fato eu NÃO TENHO. Caracterizam transtorno bipolar? Eu sei que tenho que conversar com a minha médica, mas ela é nova e não estou conseguindo confiar nesse diagnóstico porque não apresento sintoma de euforia. Se o senhor puder me dar uma opinião, agradeço demais porque estou há dias procurando na internet algum bipolar que não tenha sintomas de euforia e n~~ao acho ninguém. Obrigada.

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  2. >Jacqueline,

    leia meu artigo sobre Estados Mistos, acho que pode ajudá-la nesses esclarecimentos. Realmente é difícil a aceitação da bipolaridade para quem não apresenta mania ou hipomania, mas o entendimento mais amplo do espectro bipolar é importante, pois a maneira de tratar influencia muito o prognóstico. Acho o conceito de estado misto muito importante, pois a depressão bipolar é em geral mista, com muita ansiedade e irritabilidade, além de risco muito maior de suicidio do que as depressões ditas unipolares. Um abraço!

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