Especial Maconha e Psicose: Epidemiologia.

Parte I: Epidemiologia

A partir desse mês iniciaremos uma série de artigos especiais sobre a relação entre a maconha e a psicose. Hoje vamos abordar questões epidemiológicas a respeito do uso de maconha, particularmente nos EUA, onde temos dados estatísticos mais robustos, mas que ao meu ver podem ser perfeitamente extrapolados para a nossa realidade aqui no Brasil.

A maconha é uma planta e tem duas espécies: a cannabis sativa e a cannabis indica. Ela possui mais de 400 compostos, sendo 80 canabinóides, substâncias que agem no SNC, precisamente no sistema endocanabinoide.

A cannabis sativa, a planta que dá origem à maconha mais utilizada, possui centenas de cepas diferentes com distintos “blends” de canabinóides, com efeitos psicoativos diversos.

O delta-9-tetrahidrocanabinol, conhecido pela sigla THC, é o canabinóide que possui o maior efeito psicoativo da maconha, responsável pelas manifestações psíquicas e comportamentais da droga. Já o Canabidiol, conhecido pela sigla CBD, é um canabinoide que exerce um efeito protetor ao cérebro frente ao THC, minimizando os riscos e os efeitos psicoativos do mesmo.

Diferentes proporções de THC vs CBD existem nos diferentes tipos de maconha. O haxixe, p.ex., possui 5% de THC e 4% de CBD, enquanto o Skunk, um tipo mais forte da droga, possui 15% de THC e 0,1% de CBD. A relação de THC para CBD na maconha vem aumentando nas duas últimas décadas de maneira preocupante, saltando de 14:1 em 1994 para 80:1 em 2018, segundo as apreensões da droga nos EUA. Outro fator preocupante é o aumento do consumo de maconha de forma consistente desde 1970 nas Américas.

Nos EUA a maconha já é a droga ilícita mais usada, ultrapassando inclusive o tabaco em 2014. A concentração de THC na maconha mais do que dobrou desde 2002, saltando de 6 para 13% em 2014.

Um dos maiores estudos epidemiológicos sobre drogas nos EUA (NSDUH), realizado pela Secretaria de Saúde Mental e Abuso de Substâncias do Ministério da Saúde de lá (SAHMSA), mostrou que o uso da maconha subiu de 10 para 13% em 12 anos, entre 2002 e 2014, sendo que o número de usuários frequentes (diário ou quase diário) da droga quase dobrou, de 1,9% para 3,5%. Estima-se que nos EUA haja 32 milhões de usuários e 8,4 milhões de usuários frequentes, que usam a maconha diária ou quase diariamente, segundo os dados da pesquisa em 2014.

Uma das explicações para este aumento é que a liberação da maconha nos EUA para uso medicinal possa ter influenciado a percepção do risco da droga, uma vez que a percepção de não-risco saltou de 5,6% em 2002 para 15,1% em 2014 na população geral e de 17,4 para 47,4% entre os usuários de maconha.

A média de dias de uso de maconha subiu de 10 para 16 dias por ano, sendo que entre os usuários cresceu de 98 para 125 dias por ano, um aumento de 30%.

O perfil do usuário de maconha americano, segundo o estudo do SAHMSA é ser homem, jovem, solteiro, sem diploma de ensino médio, desempregado ou licenciado ou empregado em meio turno, usuário de outras drogas e portador de transtorno depressivo maior.

A pesquisa aponta que o uso de maconha é maior no grupo de pessoas que não percebem o risco, têm facilidade de obtenção ou, no caso dos jovens, cujos pais não reprovam o uso. O uso também foi maior entre jovens deprimidos, entre aqueles que iniciaram o uso aos 15 anos e no grupo que fuma cigarro.

Um dado positivo da pesquisa foi que, entre jovens de 12 a 17 anos, ocorreu uma redução do uso de maconha entre 2002 e 2014, caindo de 15,8% para 13,1% e o fator que mais se associou a isso foi a queda no uso de tabaco.

A importância desse estudo é mostrar o tamanho do problema para a saúde pública e a necessidade de agir preventivamente, principalmente na população mais jovem. Campanhas contra o cigarro refletiram positivamente entre os mais jovens, reduzindo o uso de maconha e comprovando a teoria do portão (gateway theory), ou seja, que o cigarro possa ser uma porta de entrada para o uso de maconha. O que preocupa é a baixa percepção do risco, tanto em usuários como em pais de jovens que podem iniciar o uso de maconha. Maior informação e campanhas educativas, mostrando o papel do THC e do CBD podem desfazer a impressão de que a maconha seja uma droga inócua, uma vez que tem sido utilizada de forma medicinal.

No próximo artigo vamos explicar mais sobre o sistema endocanabinoide e sua importância para o nosso funcionamento na sociedade e falar mais de alguns efeitos da maconha no cérebro. Não percam!

Postagens relacionadas:



Autor: Dr. Leonardo Palmeira

Psiquiatra pela faculdade de medicina da UFRJ com especialização e pós-graduação em Psiquiatria pelo Instituto Philippe Pinel, Rio de Janeiro. Membro Titular da Associação Brasileira de Psiquiatria e Membro da Sociedade Internacional de Pesquisa em Esquizofrenia (Schizophrenia International Research Society) desde 2005. Autor do livro "Entendendo a Esquizofrenia.

Compartilhar →

1 Comentário

  1. Achei muito importante ter consciência desse conhecimento Científico sobre a maconha ,porque o conhecimento do senso Comum diz que por ser uma eva (planta)é Natural (natureza) logo faz bem.

    Post a Reply

Enviar Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *


*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Receba as postagens por eMail

Receba as postagens por eMail

Insira o seu Email abaixo para receber as postagens, notícias e comunicados do Web Site do Dr. Leonardo Palmeira.

Sua inscrição foi realizada!!

Área do Paciente – Dr. Leonardo Palmeira

Entrar







Perdeu a senha?