Especial Maconha e Psicose: O Sistema Endocanabinóide.

Parte 2 – O Sistema Endocanabinóide

No último artigo fizemos uma introdução mostrando o grande problema de saúde pública que é a maconha, revelando o aumento no consumo da droga nos EUA desde 1970. Hoje vamos compreender melhor a importância do sistema endocanabinóide no cérebro e na nossa vida e porque a maconha pode ter um efeito negativo para algumas pessoas suscetíveis, prejudicando seu funcionamento na sociedade.

O sistema endocanabinoide é um dos sistemas neurotransmissores mais complexos que possuímos. Para vocês terem uma ideia, nós possuímos substâncias análogas às da maconha, como o THC e o CBD, produzidas pelo próprio cérebro e que estimulam o sistema de forma fisiológica. Ou seja, mesmo a pessoa que nunca usou a maconha tem o sistema endocanabinóide estimulado por canabinóides endógenos (produzidos pelo próprio corpo). Os dois endocanabinóides mais conhecidos são o 2-AG e a anandamida.

Esse sistema não armazena os neurotransmissores (diferente p.ex. do sistema da serotonina), que são produzidos “on demand”, de acordo com a necessidade do cérebro. Depois da ação dos endocanabinóides nos receptores, eles são internalizados e degradados pelos neurônios. Os neurotransmissores podem também se espalhar e modular outros alvos, através da ação em neurônios vizinhos. Esse sistema também é um sistema de resposta lenta, que se regula ou desregula gradativamente.

A anandamida é o endocanabinóide mais ativo nas fases do desenvolvimento do Sistema Nervoso Central (SNC), responsável pela regulação da migração de neurônios e a formação de novas sinapses, fundamentais para as conexões entre diferentes áreas cerebrais. Na vida adulta a anandamida tem um papel na adaptação ao estresse e o 2-AG um papel modulador da homeostase cerebral, ou seja, do equilíbrio químico do cérebro. Perceberam a importância do sistema endocanabinoide na nossa vida?

Esse sistema está presente e tem importância em diferentes áreas do cérebro e regulando diferentes funções, desde o movimento, a coordenação, a sensação e a visão, até a memória, o juízo e a sensação de recompensa.

O sistema endocanabinóide tem uma relação estreita com os sistemas de dopamina, glutamato e GABA, exercendo um papel modulador desses sistemas. Através do glutamato, o sistema endocanabinóide estimula o sistema dopaminérgico e, através do GABA, ele o inibe. Essa é a principal via pela qual o sistema endocanabinóide está relacionado à psicose e, particularmente, à esquizofrenia, mas a isso retornaremos mais adiante.

O sistema endocanabinóide também tem um papel central em processos inflamatórios do SNC. Existem receptores canabinóides em células do sistema imunológico que podem ativá-las a exercer um papel de defesa aos neurônios agredidos pelo estresse crônico.

Existem receptores canabinóides também no hipocampo, região cerebral responsável pela formação de novas memórias, em receptores que tem um papel central nas convulsões, por isso a ação anticonvulsivante do canabidiol (CBD), através da qual ele se tornou mais conhecido e liberado por órgãos de saúde de diferentes países, dentre eles o Brasil.

A essa altura você pode estar pensando: se o sistema endocanabinóide é tão importante para funções tão fisiológicas, então a maconha, por estimulá-lo, deve ser benéfica. Não é bem assim! A maconha tem uma concentração maior de THC do que de CBD e o THC desregula a ação fisiológica desse sistema, tanto a curto como a longo prazo, comprometendo essas importantes funções.

A maconha altera, p.ex., a percepção do tempo (o tempo passa mais lentamente), a percepção de cores e de experiências subjetivas, salientando estímulos, que passam a ter uma importância peculiar, muitas vezes não compartilhadas pelas outras pessoas. A exemplo disso estão amizades sociais aumentadas em função da droga e “valores” como o contentamento ou conformismo com o ostracismo e o isolamento social. Essa passividade pode inclusive ser explicada pela ação da própria droga no sistema de recompensa do cérebro, diminuindo o reforço positivo e a motivação para atividades que podem gerar prazer ou satisfação, à exceção do uso da própria droga.

A maconha também pode provocar alterações da memória, criando falsas associações que passam a ter o mesmo peso das reais, gerando uma dificuldade de diferenciar a realidade da fantasia. Essa é uma das explicações para a psicose causada pela maconha, que veremos em maior detalhe no próximo artigo.

Isto ocorre porque uma das funções do sistema endocanabinóide no hipocampo é coordenar os múltiplos inputs que chegam ao cérebro e fazer a checagem de erros para a formação de novas associações. Associações mais fluidas permitem a criatividade, porém associações com erros de checagem levam a falsas memórias, que serão evocadas pelos mesmos circuitos da memória normal, sem distinção, gerando delírios, pelo fato da pessoa não ser capaz de distinguí-las das memórias reais.

Exames de imagem cerebral comprovaram essas teses. Alguns usuários de maconha tiveram menor volume da substância cinzenta do hipocampo, encurtamento de dendritos e menor densidade de neurônios, mesmo após meses de abstinência, corroborando a tese de que os efeitos negativos da maconha podem persistir mesmo depois de cessado seu uso.

No próximo artigo veremos mais a fundo as razões para a psicose induzida pela maconha.

Leia o primeiro artigo da série!

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Autor: Dr. Leonardo Palmeira

Psiquiatra pela faculdade de medicina da UFRJ com especialização e pós-graduação em Psiquiatria pelo Instituto Philippe Pinel, Rio de Janeiro. Membro Titular da Associação Brasileira de Psiquiatria e Membro da Sociedade Internacional de Pesquisa em Esquizofrenia (Schizophrenia International Research Society) desde 2005. Autor do livro "Entendendo a Esquizofrenia.

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2 Comentários

  1. Olá. Fumei maconha por cerca de 5 anos e sou completamente abstêmia há 18 anos. No entanto ainda me identifico muito com o texto, principalmente quando você fala sobre a dificuldade de gerenciar realidade e fantasia. Claro que hoje sinto de maneira bem mais leve. Minha memória também nunca mais foi a mesma… Há algo que possa ser feito?
    Obrigada.

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    • Loli, sim, procure um psiquiatra. É possível fazer uma testagem neuropsicológica para ver suas dificuldades e tratar.

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