Especial Maconha e Psicose: Tratamento das psicoses induzidas pela maconha.

Parte 5 – Tratamento das psicoses induzidas pela maconha

No último artigo da série abordaremos os tratamentos utilizados para quem desenvolveu psicose pelo uso de maconha.

A maconha é um dos fatores ambientais de risco para psicose mais fáceis de se prevenir, pois a interrupção do uso da droga e a prevenção do seu uso em populações de risco reduzem casos de psicose e de conversão para a esquizofrenia.

Como comentamos em artigos anteriores, não são todas as pessoas que desenvolvem psicose com a maconha, mas o risco para psicose é até 5x maior entre as pessoas que utilizam versus as que não utilizam a droga. Existem mutações genéticas que causam essa predisposição para a psicose, mas elas não são mapeáveis ainda e o único sinal de alerta acaba sendo o desenvolvimento de sintomas psicóticos quando o indivíduo se expõe ao THC. Portanto, estar atento a esses sintomas é fundamental, já que a insistência pelo uso aumenta muito o risco de psicoses mais duradouras e também de esquizofrenia. Como também já mencionamos em artigo anterior, até metade das pessoas que utilizam maconha pode apresentar algum sintoma psicótico e 40% das psicoses pela droga evoluem para a esquizofrenia.

O uso de maconha em populações mais suscetíveis à psicose também deve ser evitado, como quando há casos de esquizofrenia na família, história de psicose induzida por maconha em algum parente ou casos de dependência grave de maconha na família.

No artigo de hoje abordaremos os tratamentos hoje disponíveis para a psicose induzida pela maconha, bem como falaremos mais detalhadamente do Canabidiol (conhecido pela sigla CBD), composto da planta que tem se mostrado benéfico em diferentes patologias, como a epilepsia, a espasticidade, doença de Parkinson, depressão e esquizofrenia.

Entre as abordagens utilizadas no tratamento estão a entrevista motivacional (EM), as terapias de família, como a psicoeducação, a psicoterapia individual (como a cognitivo-comportamental – TCC), os grupos de auto-ajuda (como o NA e grupos de pares com psicose), e tratamentos mais integrados como gerenciamento de caso.

Estudos combinados de EM, psicoeducação e TCC não mostraram eficácia no curto prazo, entretanto, estudos com duração de 6 a 12 meses mostraram resultados quanto à redução do uso de maconha, melhora da saúde mental e do funcionamento psicossocial, demonstrando que tratamentos integrados utilizando essas técnicas têm eficácia superior ao tratamento usual, feito somente com medicamentos.

Os grupos de pares, quando pessoas com a mesma realidade se reúnem para compartilhar as experiências e a expertise no enfrentamento dos problemas, são espaços importantes para reflexão e busca de solução dos problemas, produzindo um efeito positivo no par na medida em que pares recuperados e com boa evolução tendem a transmitir um exemplo a ser seguido, gerando esperança, empoderamento, estimulando o auto-monitoramento e combatendo o estigma. Além do grupo de NA, estão sendo formados grupos de apoio para pessoas com transtornos mentais severos, dentre eles pessoas com esquizofrenia que usam ou usaram maconha.

Em relação ao tratamento farmacológico, o medicamento de escolha é o antipsicótico. Existem evidências de que ele pode também reduzir os efeitos prazerosos da maconha, além de tratar os sintomas psicóticos. A preferência deve ser dada a antipsicóticos de segunda geração (atípicos), pois, como causam menos efeitos extrapiramodais (de impregnação), têm um risco menor de aumentar o consumo de maconha como efeito colateral, pois esses efeitos podem levar o paciente a aumentar o uso da droga para alívio dos sintomas. Existem algumas evidências favoráveis à clozapina, quetiapina, aripiprazol e risperidona injetável, porém mais estudos são necessários para demonstrar o efeito dessas substâncias sobre o uso de maconha.

O Canabidiol (CBD) possui evidências que se contrapõe a efeitos negativos do THC. Existem estudos, p.ex., que demonstraram que o CBD impediu o prejuízo de memória e a ocorrência de paranoia em pacientes que usaram o THC, mostrando que o CBD possa ter um papel preventivo em pacientes considerados usuários pesados de maconha, principalmente para aqueles que possuem sintomas psicóticos com a droga.

O CBD ainda não possui suas propriedades faracodinamicas totalmente conhecidas, mas acredita-se que ele aja facilitando a liberação de glutamato, prevenindo o efeito prejudicial do estresse crônico na formação de novos neurônios e na remodelagem sináptica, prevenindo a reação astrocitária e ativação da micróglia – mecanismos de defesa do cérebro (ação anti-inflamatória) e agindo como agonista parcial em receptores de dopamina de alta afinidade (pela qual teria uma ação antipsicótica) e receptores de serotonina (pelo qual teria uma ação de melhora nos sintomas negativos, cognitivos e depressivos).

Ainda existem poucos estudos randomizados controlados com CBD para esquizofrenia, mas alguns demonstrando resultados positivos em sintomas psicóticos, como melhora dos sintomas cognitivos, positivos e do funcionamento geral. Mas ainda são necessárias evidências mais robustas para que o CBD possa ser indicado para o tratamento da esquizofrenia.

Existem evidências também na neurologia, com eficácia do CBD em alguns tipos de epilepsia, doença de Parkinson, distonias, espasticidade, entre outras desordens neurológicas.

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Autor: Dr. Leonardo Palmeira

Psiquiatra pela faculdade de medicina da UFRJ com especialização e pós-graduação em Psiquiatria pelo Instituto Philippe Pinel, Rio de Janeiro. Membro Titular da Associação Brasileira de Psiquiatria e Membro da Sociedade Internacional de Pesquisa em Esquizofrenia (Schizophrenia International Research Society) desde 2005. Autor do livro "Entendendo a Esquizofrenia.

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