Excesso de calmantes camufla doenças mentais graves e crônicas.

O uso crônico, por conta própria e em doses crescentes de calmantes (benzodiazepinas, como Rivotril, Lexotan, Valium, Frontal, dentre outros) é frequente entre pessoas da terceira idade e pode esconder sintomas e um passado de doença mental não tratada adequadamente, representando um risco para essa população, que além de não ter o tratamento adequado, possui risco maior de declínio cognitivo (memória e atenção), crises de abstinência (como tremores e confusão mental) e quedas (gerando fraturas).

Sra X, 70 anos, chega ao consultório muito ansiosa, trêmula e um pouco confusa, sem conseguir precisar a temporalidade de seus relatos. Visivelmente angustiada e deprimida, conta ter tido dois episódios depressivos ao longo de sua vida, tratados pontualmente com antidepressivos, mas que foram interrompidos por conta própria. O único medicamento que manteve desde aquela época (já fazem 20 anos) foi o Rivotril. Foi precisando aumentar a dose com o tempo e o fez por conta própria, tentando buscar alívio para a ansiedade. Chegou a usar 4 comps ao dia de 2mg e hoje vem usando em média 2 comps ao dia, embora às vezes use mais ou passe alguns dias sem usar. Além das queixas emocionais, a paciente referia sentir muitos tremores de extremidades, dificuldade de equilíbrio, algumas quedas sem gravidade e muitas alterações de memória. Indagada como conseguia as receitas de Rivotril, dizia pedir a médicos de pessoas da família ou que conseguia comprar algumas vezes na farmácia sem receita.

O relato acima é real, embora tenhamos preservado a identidade da paciente. A frequência que esses pacientes comparecem ao consultório é assustadoramente frequente. Estamos aqui nos referindo a faixa-etária mais idosa, que tem menor resistência a esse tipo de medicamento, mas isso se aplica a faixa-etárias mais jovens, como 4a e 5a décadas de vida. O problema sempre envolve três questões fundamentais: (1) o uso crônico de calmantes por conta própria adia a procura pelo tratamento adequado, camuflando os sintomas, sem tratá-los; (2) como os calmantes geram dependência, o paciente vai sentindo necessidade de doses maiores e aumentando por conta própria, quase sempre variando dosagens e fazendo interrupções de uso que podem provocar síndrome de abstinência, geralmente com tremores, ansiedade, insônia e confusão mental; (3) o uso prolongado dos calmantes provoca alterações cognitivas, deixando a pessoa mais esquecida e desatenta, menos capaz para realizar as atividades do dia-a-dia.

O desafio no tratamento desses pacientes é múltiplo. Convencê-los sobre o tratamento da doença mental em questão, muitas vezes depressão, ansiedade ou bipolaridade, o que envolve usar medicamentos mais estigmatizados, como antidepressivos, estabilizadores de humor e antipsicóticos (os pacientes leigamente entendem que os calmantes são menos prejudiciais do que os outros medicamentos e, por isso, relutam muitas vezes em aceitar o tratamento). Tratar a dependência dos calmantes, que requer um desmame lento e progressivo ao tempo em que se introduz medicamentos mais específicos e eficazes para o caso. Isso exige organização, disciplina e aliança do paciente com o médico. Avaliar a capacidade cognitiva do paciente, que pode demorar a se reestabelecer depois da suspensão do calmante ou mesmo permanecer deficitária, uma vez que o uso crônico desses remédios aliado ao não tratamento das doenças mentais constituem fatores de risco para o desenvolvimento de déficits cognitivos permanentes ou progressivos, como a demência.

Esses pacientes precisam também com muita frequência do auxílio da família ou de cuidadores, para que o tratamento possa ser supervisionado cotidianamente, bem como de um acompanhamento psicoterápico, para lidar com conflitos que possam estar por trás do uso abusivo de calmantes.

Portanto, as lições de casa deste artigo são: se você conhece alguém (ou se você é a pessoa) que usa calmantes (ou tranquilizantes ou benzodiazepínicos ou remédios de tarja preta) sem prescrição e supervisão médica, alerte-o e sugira que ele procure um psiquiatra. Provavelmente ele (ou no caso você) possui uma doença mental não diagnosticada e não tratada! Caso persista nesse uso, informe-se sobre os riscos de não estar fazendo o tratamento adequado, como risco de déficit cognitivos e demência a longo prazo (que talvez não seja tão longo assim!), de sofrer acidentes ou quedas ou de síndromes de abstinência. Procure um psiquiatra para uma avaliação.

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Autor: Dr. Leonardo Palmeira

Psiquiatra pela faculdade de medicina da UFRJ com especialização e pós-graduação em Psiquiatria pelo Instituto Philippe Pinel, Rio de Janeiro. Membro Titular da Associação Brasileira de Psiquiatria e Membro da Sociedade Internacional de Pesquisa em Esquizofrenia (Schizophrenia International Research Society) desde 2005. Autor do livro "Entendendo a Esquizofrenia.

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