‘Mapa genético’ da depressão abre caminho para novos tratamentos.

Equipe internacional de cientistas identifica 44 variantes genéticas relacionadas com a doença que afeta 300 milhões de pessoas no mundo.

Mesmo com vivências parecidas, duas pessoas podem ter respostas diferentes em relação à depressão. Para os cientistas, parte da resposta para essa questão está na genética. Por esse motivo, uma equipe internacional formada por mais de 200 pesquisadores conduziu um estudo sem precedentes para identificar genes relacionados ao distúrbio mental. Os resultados, publicados na revista “Nature Genetics” revelam 44 variantes genéticas, ou loci, com associação estatisticamente significativa com a doença.

— Nós mostramos que todos nós carregamos variantes genéticas para a depressão, mas aqueles com uma carga maior são mais suscetíveis — explicou a colíder do estudo Naomi Wray, pesquisadora na Universidade de Queensland, na Austrália. — Nós sabemos que muitas experiências de vida também contribuem para o risco de depressão, mas identificar os fatores genéticos abre novas portas para pesquisas dos fatores biológicos.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, existem mais de 300 milhões de pessoas que sofrem de depressão, sendo a principal causa de problemas de saúde e incapacidade para o trabalho no mundo. Em casos extremos, a condição pode levar ao suicídio, que mata 800 mil pessoas todos os anos. Mesmo com esses números, o tratamento não é oferecido a todos. Em muitos países, menos de 10% dos pacientes são atendidos. Com a identificação das variantes genéticas para a doença, novos tratamentos podem ser desenvolvidos.

— Este estudo é um divisor de águas — afirmou Patrick Sullivan, professor da Universidade da Carolina do Norte, nos EUA, que também esteve à frente das pesquisas. — Descobrir a base genética da depressão foi muito difícil. Um número imenso de pesquisadores em todo o mundo colaborou para fazer este artigo, e agora nós temos uma visão mais profunda sobre a base dessa doença terrível. Com mais trabalho, seremos capazes de desenvolver ferramentas importantes para o tratamento e até mesmo a prevenção deste mal.

GENES ASSOCIADOS COM A ESQUIZOFRENIA

Os cientistas revisaram estudos já realizados no campo, com a análise de dados de 135 mil pacientes com depressão e 344 mil controles. Das 44 variantes genéticas encontradas, 14 já haviam sido identificadas em artigos científicos, mas as outras 30 foram identificadas pela primeira vez. Além disso, foram identificados 153 genes significativos, e descoberto que a depressão compartilha seis variantes genéticas associadas com a esquizofrenia.

Os resultados também indicam que algumas variantes se relacionam com outras desordens mentais, como ansiedade e desordem bipolar. Mas a parte do DNA que predispõe para a obesidade também eleva o risco para depressão. Como esperado, muitos dos genes identificados agem sobre o crescimento e o funcionamento dos neurônios, sobretudo no córtex pré-frontal e no cingulado anterior. De acordo com Gerome Breen, algumas das variantes genéticas identificadas estão relacionadas a neurotransmissores como a serotonina, onde os atuais medicamentos atuam, mas outras apontam para novos mecanismos biológicos que podem ser alvo de novas drogas.

— A esperança é que nos novos dados nós identifiquemos novos processos que possam ser alvo de novos tipos de drogas, com mecanismos de ação diferentes das medicações existentes — afirmou Breen, ao “Guardian”, destacando que os tratamentos existentes são ineficazes para metade dos pacientes.

Um trabalho anterior com gêmeos sugere que a genética responde por cerca de 40% da depressão, com o resto sendo influenciado por outros fatores biológicos e experiências de vida. Se as pessoas forem ranqueadas de acordo com o número de fatores genéticos de risco que carregam, os primeiros 10% têm duas vezes e meia mais chances de desenvolver a depressão que os últimos 10%.

Segundo Cathryn Lewis, professora de estatística na universidade King’s College, em Londres, mesmo triplicando o número de variantes genéticas associadas à depressão, é possível que a ciência tenha descoberto apenas uma pequena fração dos loci envolvidos com a doença.

— Nós sabemos que milhares de genes estão relacionados com a depressão, com cada um contribuindo com um efeito muito modesto sobre o risco de uma pessoa — explicou Cathryn, ao “Guardian”. — Certamente não existe um gene único para a depressão.

Fonte: O Globo

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Autor: Dr. Leonardo Palmeira

Psiquiatra pela faculdade de medicina da UFRJ com especialização e pós-graduação em Psiquiatria pelo Instituto Philippe Pinel, Rio de Janeiro. Membro Titular da Associação Brasileira de Psiquiatria e Membro da Sociedade Internacional de Pesquisa em Esquizofrenia (Schizophrenia International Research Society) desde 2005. Autor do livro "Entendendo a Esquizofrenia.

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