Novos avanços para controlar alucinações auditivas na esquizofrenia.

Pacientes com alucinações auditivas verbais (AAV) que não responderam ao tratamento podem apresentar melhora com duas novas técnicas, mostram novas pesquisas.

Um estudo realizado pelo Dr. Alexandre Dumais, do Institute Philippe Pinel de Montreal (Canadá), incluiu mais de 50 pacientes com esquizofrenia com AAV refratárias ao tratamento. Os pacientes foram aleatoriamente designados para serem submetidos a uma terapia computadorizada na qual criaram um avatar de seus algozes antes de enfrentá-los, ou a terapia cognitivo-comportamental (TCC) padrão.

Os pacientes que realizaram a terapia com avatar não apenas tiveram melhorias significativas nas alucinações auditivas verbais, mas também nos níveis de sintomas de ansiedade e esquizofrenia, e na qualidade de vida. Ambos grupos de pacientes demonstraram uma melhoria nos escores de depressão.

Os pesquisadores observam que, embora o estudo envolva um pequeno número de pacientes, os resultados, no entanto, embasam a superioridade da terapia com avatar nas alucinações auditivas verbais.

“O presente estudo contribuirá para a validação de uma nova abordagem inovadora, respondendo a uma necessidade clínica fundamental”, escrevem eles.

Em um segundo estudo, o Dr. Jean-Pierre Lindenmayer, professor clínico do Departamento de Psiquiatria da NYU Langone Health, Nova York (EUA), designou aleatoriamente quase 30 pacientes para receber estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC) ativa ou simulada, uma técnica de neuroestimulação não invasiva.

Com o tratamento ativo, os pacientes apresentaram melhoras significativas nos escores em uma medida que avalia alucinações auditivas. As melhoras incluíram reduções no número e na frequência das vozes ouvidas, bem como um aumento da memória de trabalho.

Os pesquisadores observam que seus resultados “indicam que pacientes antes ultrarresistentes a tratamentos antipsicóticos, e que receberam tratamento prolongado com ETCC, apresentaram diminuição significativa das alucinações auditivas e da psicopatologia como um todo”.

Os dois estudos foram apresentados no Encontro Bienal da Schizophrenia International Research Society (SIRS) 2018.

Terapia com avatar

Até 70% dos pacientes com esquizofrenia apresentam alucinações auditivas verbais. Embora a terapia farmacológica reduza tais alucinações na maioria dos pacientes, aproximadamente um terço deles segue ouvindo vozes, o que pode ser extremamente angustiante.

A terapia cognitivo-comportamental obteve sucesso moderado na redução das alucinações auditivas verbais. Técnicas baseadas em computador têm se mostrado promissoras para pacientes com esquizofrenia, permitindo-lhes entrar em diálogo com as próprias “vozes”.

Depois de realizar um estudo-piloto bem-sucedido de uma terapia com avatar em 15 pacientes com AAV refratária, Dr. Dumais e colaboradores iniciaram um estudo randomizado maior de pacientes adultos com esquizofrenia resistente ao tratamento ou transtorno esquizoafetivo que estavam ouvindo vozes persecutórias. Os pacientes não responderam a ≥ 2 ensaios com medicamentos antipsicóticos.

Os pacientes foram aleatoriamente designados com cegamento simples para receber terapia com avatar ou TCC.

A terapia com avatar consistiu em nove sessões semanais. Na primeira sessão os pacientes criaram um avatar. Nas oito sessões terapêuticas seguintes, os pacientes foram confrontados com uma reprodução da própria experiência alucinatória, e foram encorajados a entrar em diálogo com seu algoz virtual.

A TCC envolveu nove sessões semanais, consistindo em módulos de aprendizagem e designação de tarefas que eram focadas na normalização das alucinações e nos mecanismos de enfrentamento.

No início e no pós-tratamento, os pacientes foram submetidos à avaliação das alucinações auditivas verbais com a Escala de Graduação de Sintomas Psicóticos (EGSP; Psychotic Symptoms Rating Scale). Os desfechos secundários incluíram mudanças nos escores de ansiedade, sintomas, depressão e escalas de qualidade de vida.

O Dr. Dumais apresentou resultados preliminares para 52 pacientes, dos quais 30 receberam terapia com avatar e 22 TCC. Oitenta e três por cento dos pacientes tinham diagnóstico de esquizofrenia. O restante tinha transtorno esquizoafetivo.

A maioria (67%) dos participantes era do sexo masculino, e a média de idade foi de 41 anos. Os pacientes eram tipicamente brancos (85%), solteiros (75%), e desempregados (77%).

Melhora significativa

Os pacientes submetidos à terapia com avatar apresentaram melhora significativa nos escores das subescalas total (P = 0,001), angústia (P < 0,001) e frequência (P < 0,029) da EGSP.

Além disso, os pacientes que receberam terapia com avatar tiveram melhorias significativas nas pontuações de estado (P = 0,046) e de traço (P < 0,001) na Avaliação do Estado e Traço de Ansiedade, bem como melhorias nas pontuações total (P = 0,002), positiva (P = 0,001) e geral (P = 0,003) na Escala de Síndromes Positiva e Negativa.

Os pacientes que receberam terapia com avatar também mostraram melhora significativa nos escores de qualidade de vida total (P = 0,002) no Questionário de Satisfação e Qualidade de Vida.

Pacientes nos grupos de terapia com avatar e TCC mostraram melhoras significativas nos escores total e cognitivo na Escala de Depressão de Beck.

O Dr. Dumais disse ao Medscape que as melhoras observadas com a terapia com avatar em comparação com a TCC podem ser devidas ao fato de que o avatar se aproxima mais de uma "experiência real".

Ele observou que, com a TCC, o paciente precisa descobrir estratégias de enfrentamento avançadas e executá-las. Por outro lado, a terapia com avatar é interativa, de forma que os pacientes experimentam imediatamente a voz em tempo real, disse o Dr. Dumais.

Ele explicou que a técnica é, em essência, um desenvolvimento da técnica da "cadeira vazia", na qual o paciente é encorajado a imaginar que seu algoz está sentado em uma cadeira vazia na frente dele.

O Dr. Dumais observou que a terapia com avatar é particularmente popular entre os pacientes mais jovens.

"Muitos deles realmente não queriam fazer nenhuma psicoterapia porque a acham chata, porque estão vendo um terapeuta, mas isso é uma coisa de alta tecnologia, então eles querem vir; eles acham divertido", disse ele.

Estimulação cerebral

No segundo estudo, Dr. Lindemayer e colaboradores inscreveram 28 pacientes internados com esquizofrenia que tinham alucinações auditivas verbais refratárias que persistiram por mais de cinco anos. Os pacientes foram aleatoriamente designados para receber ETCC ativa ou simulada.

O tratamento com ETCC foi administrado em sessões de 20 minutos duas vezes ao dia por cinco dias consecutivos usando o estimulador de dois canais CHA-1335 (Chattanooga). A duração do tratamento foi de quatro semanas e os pacientes completaram uma bateria de avaliações no início e após o tratamento.

Os dois grupos de tratamento foram comparáveis em termos de características iniciais. Vinte e um pacientes completaram o estudo; três pacientes abandonaram o grupo de tratamento ativo com ETCC e quatro do grupo controle abandonaram o estudo após receberem alta hospitalar.

O tempo de internação psiquiátrica variou de um a 25 meses (média de 2,9 meses), e os pacientes estavam recebendo vários medicamentos antipsicóticos.

Os que receberam ETCC ativa apresentaram reduções significativas nas pontuações totais na Escala de Graduação de Alucinações Auditivas (Auditory Hallucinations Rating Scale) em comparação com os pacientes que receberam tratamento simulado (P = 0,025), bem como reduções significativas nas pontuações nas subescalas de frequência de alucinação auditiva (P = 0,044) e duração da alucinação (P = 0,033).

A ETCC ativa foi associada a melhoras significativas na memória de trabalho em comparação com o tratamento simulado (P = 0,046). Nenhuma outra alteração significativa foi observada.

A equipe concluiu que “a ETCC pode ser eficaz não apenas para pacientes ambulatoriais com maior funcionalidade, mas também pode ser adaptada e usada para pacientes com esquizofrenia crônica e muito menos funcionais, e que tenham alucinações auditivas verbais refratárias a medicamentos”.

Não foi declarado financiamento para os estudos. Os pesquisadores não declararam conflitos de interesses relevantes.

Encontro Bienal da Schizophrenia International Research Society (SIRS) 2018. Pôster S58, apresentado em 7 de abril de 2018; e pôster T43, apresentado em 5 de abril de 2018.

Fonte: Medscape.com

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Autor: Dr. Leonardo Palmeira

Psiquiatra pela faculdade de medicina da UFRJ com especialização e pós-graduação em Psiquiatria pelo Instituto Philippe Pinel, Rio de Janeiro. Membro Titular da Associação Brasileira de Psiquiatria e Membro da Sociedade Internacional de Pesquisa em Esquizofrenia (Schizophrenia International Research Society) desde 2005. Autor do livro "Entendendo a Esquizofrenia.

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