O caso de Realengo: assassino em massa tipo pseudocomando – Parte I


Descobri um artigo publicado em 2010 no Journal of The American Academy of Psychiatry and Law que traz muitas informações pertinentes ao caso da chacina de Realengo e das possíveis motivações do assassino. Confesso que fico um pouco incomodado com a rápida conclusão de que o assassino era esquizofrênico (que vem sendo veiculado pela mídia e por alguns psiquiatras). Na minha opinião existem algumas evidências que apontam para este diagnóstico, mas existem outras que não fecham. Reduzir um ato desta monstruosidade à doença mental seria leviano, pois a imensa maioria dos pacientes não são violentos e jamais seriam capazes disso. A sociedade já teme a doença mental naturalmente, o estigma da violência é um dos mais comuns. Temo que conclusões precipitadas possam contribuir ainda mais para o preconceito.
Decidi então colaborar com algumas informações da literatura médica que transcrevo abaixo e deixo que cada um possa tirar suas conclusões.
Assassinos em Massa “Pseudocomando”: A psicologia da vingança e da obliteração, Parte I
O termo pseudocomando foi utilizado por Dietz em 1986 para descrever um tipo de assassino em massa que planeja sua ação após longo período de deliberação. O assassino tipo pseudocomando mata em público, de forma indiscriminada e à luz do dia, mas também pode matar familiares ou uma “pseudocomunidade” que ele acredita tê-lo maltratado. Ele chega ao local fortemente armado, geralmente com roupa camuflada ou de guerra e não possui um plano de fuga, suicidando-se ou sendo alvejado pela polícia (algumas vezes provocam a reação da polícia, também conhecido por suicídio através de policiais).
Mullen descreveu sua avaliação pessoal de cinco assassinos em massa do tipo pseudocomando que foram capturados antes de conseguirem se matar ou serem mortos pela polícia. Ele notou que os massacres eram sempre bem planejados e tinham uma motivação pessoal de vingança contra a “indiferença e a rejeição da sociedade”, caracterizando os assassinos como pessoas rancorosas, desconfiadas (paranóicas) e com forte atração por armas de fogo.
O fenômeno homicídio-suicídio é quando um indivíduo comete homicídio seguido de suicídio em não mais do que 24 horas de intervalo. É um evento raro, que ocorre anualmente em 0,2 a 0,38 casos por 100 mil pessoas. A maior parte dos homicídios-suicídios são cuidadosamente planejados como atos seqüenciais e podem ter diferentes vítimas e motivações. O homicídio-suicídio do tipo adverso (extra-familiar) envolve ex-empregados, estudantes vítimas de bullying ou uma pessoa ressentida e paranóica. Ela culpa os outros e se sente prejudicada de alguma forma, geralmente tem depressão e traços paranóides e/ou narcisistas, podendo eventualmente apresentar delírios persecutórios.
Os assassinos em massa do tipo pseudocomando, descritos por Dietz e Mullen, enquadram-se melhor nesta categoria de homicídio-suicídio. É considerado assassino tipo pseudocomando o criminoso que faz ao menos quatro vítimas num único evento e depois se mata ou é morto. A literatura médica não encontrou ainda uma ligação forte entre assassinatos em massa e doença mental grave, exceto para doenças como depressão, mas psicose parece ser rara.
Mullen descreveu alguns traços de personalidade e alguns fatores da história que essas pessoas possuem em comum:
• quando crianças eram isolados ou sofriam bullying, tornando-se solitários e desesperados de serem excluídos socialmente;
• geralmente são desconfiados, guardam ressentimentos e rancores e têm traços obsessivos, rígidos, narcisistas e de grandiosidade;
• vêem os outros como rejeitadores e indiferentes, em função disso passam grande parte do tempo ressentidos e ruminando humilhações passadas;
• essas ruminações invariavelmente levam a fantasias sobre vinganças violentas. Mullen observou que os assassinos atingiam um estado em que sentiam a morte como bem-vinda, percebendo que ela traria fama e uma aura de poder que não tinham.
Parte II – http://leonardopalmeira.com.br/?p=122

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