O que venho observando na minha clínica ao longo da pandemia da COVID-19: Distúrbios do sono.


Essa é a principal queixa de saúde mental desta pandemia. São muitos os pacientes que vem apresentando agravamento do seu sono, sem que medicamentos que faziam uso no passado sejam suficientes neste momento, como também pacientes que não tinham problemas de sono e passaram a apresentar insônia, pesadelos, sonhos vívidos, dentre outras manifestações.

Existem muitas explicações para isso. A principal delas são as preocupações que essa pandemia trouxe. Medo de se contaminar ou de contaminar pessoas da família, receio de que alguém da família que faça parte do grupo de risco apresente uma forma grave da doença, medo de precisar ser hospitalizado, dentre outras preocupações.

A mudança da rotina é outro fator ligado diretamente às queixas de sono. Muitos passaram a trabalhar em esquema de home-office, a maioria está com os filhos em idade escolar em casa, muitos dispensaram funcionários que ajudavam na organização da casa. Houve um acúmulo de tarefas e obrigações, sem que houvesse válvulas de escape. Muitos deixaram de fazer atividades físicas, isso sem falar da falta de uma vida social. A simples ida ao trabalho também era para muitos um momento para colocar em dia leituras ou refletir sobre as obrigações daquele dia. É comum que as pessoas se queixem da falta de tempo, apesar do maior tempo em casa. A mudança da rotina ou a falta dela pode ser um agravante para o sono. Não ter um horário fixo para dormir ou acordar ou extrapolar em reuniões de trabalho além do horário comercial pode atrapalhar os ritmos circadianos.

Isso sem mencionar aqueles que tiveram seu trabalho/salário reduzido ou perderam o emprego, com consequências para a saúde financeira da família. A preocupação financeira tem sido a grande companheira da preocupação com a contaminação pelo vírus. A falta de perspectiva quanto ao tempo de quarentena, o desencontro de informações do poder público, a falta de transparência nos dados da pandemia, a demora no auxílio financeiro do governo aos trabalhadores e empresas, a expectativa de recessão da economia, todos esses fatores contribuem para a piora do padrão do sono.

Alguns problemas ficarão após a pandemia. Houve um aumento substancial da venda de hipnóticos e sedativos, e muitos conseguiram comprar medicamentos sem receita ou por um prazo até 3 vezes superior do que em situação normal, pois as farmácias passaram a oferecer mais caixas de medicamentos por receita médica. A automedicação ou o aumento da dose para aqueles que já faziam uso de medicamentos sem uma orientação médica trará consequências futuras para a saúde de muitos pacientes. A maioria desses medicamentos pode causar dependência química, é artificial para o sono e deixa a pessoa com cansaço e problemas de memória no dia seguinte.

É desnecessário dizer que toda pessoa que utiliza remédios para dormir deve se consultar com seu médico antes de aumentar a dose e aquelas que estão com dificuldade para dormir devem procurar um atendimento especializado e não cair na tentação de se automedicar.

Um aspecto que abordaremos melhor em outro artigo é o abuso de substâncias, principalmente o álcool, que prejudica muito o sono. Tem sido comum o aumento do consumo de bebidas alcoólicas nessa pandemia e muitas vezes isso está diretamente relacionado à piora do sono.

Existem algumas alternativas alopáticas e fitoterápicas que podem ser utilizadas sem risco de dependência ou problemas residuais diurnos, como cansaço e falta de memória. A pessoa deve também organizar sua rotina, estabelecer horários mais fixos para dormir e acordar, fazer uma atividade física em casa, manter boa alimentação e hidratação e buscar apoio para lidar melhor com suas preocupações, seja através de um profissional especializado ou técnicas de relaxamento, como yoga e meditação. Atividades lúdicas em família e contatos sociais por aplicativos de videoconferência também ajudam muito a aliviar as tensões desse momento.

Dosar a quantidade de notícias e o tempo de exposição aos telejornais são cruciais, visto que cada um tem uma tolerância limitada e o excesso de notícias sobre a pandemia pode aumentar os níveis de tensão e sofrimento emocional, agravando mais o sono.

Consequências futuras para o pós-pandemia

– Maior número de pessoas dependentes de sedativos e hipnóticos.
– Maior número de pessoas abusando de sedativos e hipnóticos, particularmente das classes das benzodiazepinas (Rivotril, Frontal e outros) e afins (como Zolpidem).
– Maior número de pessoas sofrendo as consequências do mau uso de medicamentos para dormir, como problemas de memória, concentração, indisposição e perda da produtividade.
– Maior adoecimento da população, pois distúrbios de sono são fatores de risco para depressão, outros transtornos de humor, abuso de substâncias, doenças cardíacas, dentre outras.

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