O que venho observando na minha clínica ao longo da pandemia da COVID-19: Transtornos de Ansiedade.


Ansiedade é um dos sintomas mais comuns que sentimos em situações de estresse ou quando corremos algum perigo. Evolutivamente as reações de ansiedade estão ligadas a um conjunto de reações primitivas que a maioria dos animais apresentam quando estão em uma situação em que precisam fugir ou atacar como forma de defesa ou sobrevivência. Sem essas reações o ser vivo se tornaria presa fácil e, portanto, tenderia à extinção da espécie pelo mecanismo de seleção natural. Portanto, as reações de ansiedade são, até certo ponto, reações desejadas para a preservação da espécie. Ela é processada majoritariamente pelo sistema límbico, também conhecido como cérebro emocional, cuja função se faz presente até mesmo em mamíferos mais primitivos.

O problema é quando as reações de ansiedade são desproporcionais ou fora de contexto, soando como um “alarme falso” e desencadeando reações de medo e fuga que são mal adaptativas e, ao invés de produzirem proteção, produzem maior vulnerabilidade. É nesse contexto que surgem os transtornos de ansiedade.

O exemplo mais claro é a síndrome do pânico. A pessoa pode estar repousando na poltrona de sua casa, assistindo a um filme tranquilo ou a um concerto de música clássica, quando de repente seu coração acelera, sua respiração se torna ofegante e a pessoa tem a necessidade de fugir daquele local como se ali corresse perigo. Há uma clara dissonância entre as reações fisiológicas e o ambiente em que a pessoa se encontra naquele momento. Ela teve uma reação de fuga e perigo quando na realidade o ambiente era de tranquilidade e proteção. Seu sistema límbico disparou o sinal de perigo e desencadeou as reações de fuga e medo, sinalizando para o restante de seu cérebro e de seu corpo a situação de risco que não existia.

Numa situação de maior vulnerabilidade as chances de uma reação desse tipo aumentam. Muitas pessoas que experimentam ataques de pânico sabem que uma situação de vulnerabilidade, como estar em locais fechados ou com muita gente, pode desencadear uma crise, embora essas situações não desencadeiem crises de pânico em todas as pessoas.

Da mesma forma que um túnel fechado ou um elevador cheio, a pandemia não vai causar ansiedade em todas as pessoas, mas pode ser decisiva em causar ansiedade em algumas pessoas mais suscetíveis.

São muitos os casos de ansiedade que venho observando durante a pandemia pela COVID-19 na minha clínica. O que posso dizer em comum a todos eles é a existência de vulnerabilidade ou predisposição psíquica da pessoa antes mesmo do início da quarentena. Muitas vezes a pessoa nem vinha fazendo tratamento anteriormente, embora aqueles que já se tratavam experimentaram uma piora dos níveis de ansiedade, que antes vinham controlados.

Pensamentos

A manifestação mais comum de ansiedade tem sido na forma de pensamentos. Pensamentos repetitivos de que a pessoa pode se contaminar, que alguém da família pode adoecer e morrer ou que pode contaminar alguém da família e se culpar depois pela sua morte, dentre outros exemplos. Todos nós provavelmente já tivemos pensamentos como este, porém o que diferencia o pensamento de uma pessoa ansiosa para uma pessoa não-ansiosa é sua frequência, sua intensidade e a capacidade de tomar as reações do seu corpo e de seu comportamento.

Uma pessoa ansiosa nesse contexto de pandemia vai ter pensamentos recorrentes a ponto de causar angústia, medo exagerado ou mesmo desespero, atrapalhar o sono, diminuir ou aumentar o apetite, gerar comportamentos excessivos, como compulsões de limpeza ou verificação, medo exagerado ao ter contato com outras pessoas ou quando precisar sair à rua, e pode até levar a ideias de suicídio.

Essas reações de ansiedade levaram pesquisadores a cunharem o nome de “coronafobia”. O termo foi objeto de um editorial da revista “Journal of Anxiety Disorder” em fevereiro desse ano. Segundo o editorial, vários fatores de vulnerabilidade psicológica podem estar por trás da coronafobia, como diferenças individuais de intolerância às incertezas, maior percepção da vulnerabilidade às doenças e maior tendência à ansiedade e preocupações. Entre os fatores externos que podem amplificar essas reações estão a falta de informações ou a desinformação e a abordagem sensacionalista da pandemia por parte da mídia.

Uma carta publicada na edição de fevereiro da revista “Asian Journal of Psychiatry” traz a história de um homem na Índia, cidade de Andhra Pradesh, pai de três filhos, que estava obcecado por vídeos em que vítimas do COVID-19 na China eram forçadas a deixar suas casas para uma quarentena compulsória em função da sobrecarga nos hospitais. Após ele ter sido diagnosticado pelo seu médico com quadro gripal, que ele deliberadamente concluiu ser COVID, ele se isolou do restante da família numa espécie de auto-quarentena, atacando com pedradas as pessoas da família que tentavam se aproximar. Dias depois ele foi encontrado enforcado na casa que ocupava. Os autores da carta alertam para vídeos de cunho sensacionalista ou com conteúdo perturbador que podem ter efeitos devastadores em pessoas suscetíveis e sugerem algum tipo de regulação ou fiscalização desses conteúdos na internet.

O efeito que conteúdos da mídia podem ter em pessoas suscetíveis à maior ansiedade pela COVID-19 parece ser uma das causas para o aumento da ansiedade. Um estudo durante a pandemia de H1N1 em 2009 mostrou um aumento da procura por hospitais em Utah quando a epidemia ainda era um rumor, atingindo um volume de atendimento comparável ao período em que a pandemia de fato havia chegado.

Somatização

Pessoas mais ansiosas também ficam mais sensíveis a sensações corporais e podem desenvolver o que chamamos de somatização. Elas podem experimentar diferentes sintomas físicos, como dores, dormências, formigamentos, tonteiras, palpitações, dentre outros sintomas que são interpretados de forma equivocada como perigosos e que frequentemente levam a atendimentos em emergências hospitalares.

Elas podem interpretar um espirro ou uma tosse como sendo sintomas de COVID, aumentando sua ansiedade, influenciando suas decisões e impactando seu comportamento, aumentando a procura por hospitais por pessoas que não estão doentes e que podem se contaminar. O contrário também pode ocorrer, pessoas que de fato tem problemas de saúde e precisam de atendimento, mas que, pela ansiedade e medo de se contaminar, deixam de procurar ajuda médica, correndo um risco maior de adoecer em casa.

Influência da ansiedade nas medidas de proteção

A ansiedade também parece influenciar o quanto as pessoas se previnem da infecção através de medidas como uso de máscara, lavagens das mãos e distanciamento social. Na pandemia por H1N1 pessoas que se viam num risco baixo de infecção eram mais propensas a lavar menos as mãos e a não se vacinarem do que as pessoas mais preocupadas e ansiosas. Essas pessoas também respeitavam menos as medidas de distanciamento social e eram mais resistentes às mudanças de comportamento, prejudicando os esforços de mitigar a propagação do vírus.

A ansiedade parece mediar a forma como nos relacionamos com o nosso meio, com maior ou menor exposição a fatores de risco. Isso inclui a procura por informações. Pessoas mais ansiosas podem buscar mais informações sobre a pandemia ou se engajar em buscas compulsivas por conteúdos, muitas vezes aversivos, que aprofundam seus temores e agravam sua ansiedade, mesmo sem se dar conta desse processo.

Algumas pessoas que atendi em crises de ansiedade durante a pandemia da COVID-19 estavam imersas nos noticiários e conteúdos da internet sobre a epidemia. Esse ambiente era tanto causador como consequência do seu estado de ansiedade, pois pessoas mais ansiosas tendem a se alimentar mais desses conteúdos como forma de estarem mais atualizadas e poderem se precaver melhor. É um ciclo vicioso em que o medo alimenta a ansiedade, que por sua vez alimenta o medo.

Voltando à dinâmica da síndrome do pânico, que é um bom protótipo para compreendermos os transtornos de ansiedade, as sensações físicas servem de alerta para informar o “perigo” ao cérebro, que por sua vez amplifica as reações de pânico, acentuando as sensações físicas e retroalimentando o medo e a ansiedade. Romper esse ciclo é fundamental para reduzir a ansiedade. Da mesma forma, afastar-se daquilo que amplifica e retroalimenta o medo da COVID-19 é crucial para aliviar a ansiedade relacionada à pandemia.

Alguns fatores podem ser protetores. Uma rede social de apoio, hábitos saudáveis de vida, uma rotina equilibrada com atividades físicas e boa alimentação, bom hábito de sono, técnicas de relaxamento e controle da ansiedade, um ambiente tolerante e acolhedor em casa, todos ajudam no controle da ansiedade. E para aqueles que estão experimentando maior ansiedade nesse momento é fundamental procurar ajuda psicológica e médica e não “empurrar com a barriga” a ansiedade para depois da quarentena. A ansiedade nesse momento pode ser um fator de risco para depressão e transtorno de estresse pós-traumático no futuro, como veremos em outros artigos.

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