O que venho observando na minha clínica ao longo da pandemia da COVID-19: Transtornos de Humor.


O humor é geralmente definido como nosso estado de espírito: bem humorado, mal humorado, alegre, ranzinza, rabugento, irritável, eufórico, dentre vários outros adjetivos que normalmente utilizamos para descrever a forma como alguém se apresenta para nós, como ele se relaciona em seu meio, com as pessoas à sua volta, com seu trabalho, seus compromissos, seu momento de lazer, sua família e tudo mais que o cerca.

Nosso humor pode variar e normalmente varia dependendo das situações que vivemos, dos problemas que enfrentamos e das pessoas com as quais convivemos. Extremos costumam, entretanto, apontar para distúrbios do humor ou estados patológicos, que podem ser passageiros, mas também duradouros. Como uma pessoa distímica ou com depressão crônica que dificilmente consegue se sentir alegre, mesmo diante de situações que fariam a maioria sair pulando de alegria, ou uma pessoa com mania (termo médico que define um estado de excitabilidade e euforia), que se comporta de forma inadequada e desinibida numa situação que para os outros é de tristeza e pesar.

Quando a marca não é a dissonância entre o humor e o contexto em que ele ocorre, a ciclicidade é a característica fundamental. Muitas pessoas com transtorno de humor podem não desenvolver episódios claramente depressivos ou maníacos, mas experimentam rápidas mudanças de humor em poucos dias ou até em questão de horas, que podem ter relação com fatores externos, mas também podem ocorrer sem uma razão aparente. Essas pessoas são rotuladas como hiperreativas, emocionalmente instáveis, de temperamento difícil, oito-ou-oitenta, dentre outros adjetivos em que a tonalidade afetiva é o aspecto central de sua personalidade.

O humor influencia muita coisa em nosso psiquismo. Pode jogar mais luz em pensamentos negativos e escuridão em pensamentos positivos, a ponto de não conseguirmos enxergar o lado bom das coisas ou ver as saídas para problemas que normalmente resolveríamos. Influencia nossas decisões, a capacidade de avaliarmos o ambiente, a nossa capacidade de monitoramento e regulação do próprio comportamento. Em situações extremas pode levar à perda do juízo crítico, criando uma desconexão entre a realidade e a fantasia, acarretando em delírios e alterando profundamente o comportamento.

Muitos argumentarão que casos extremos de humor são genéticos e só ocorrem sob influências biológicas. Porém, os transtornos de humor estão entre os transtornos psiquiátricos com maior reatividade ao meio e um dos que mais é influenciado pela história e pelo ambiente da pessoa. No caso da depressão isso fica patente, visto que grande parte dos indivíduos deprimidos assim se tornaram após perdas na família, desemprego, divórcio, desastres, dentre outros traumas. Na mania, que seria o extremo oposto, situações do meio também podem servir de gatilhos, embora a frequência de mania seja bem menor do que a da depressão na população geral. Enquanto até 25% da população pode experimentar um episódio depressivo na vida, até 7% terá um episódio de mania ou hipomania (mania mais leve).

A pandemia da COVID-19 trouxe uma realidade difícil que nunca antes tínhamos vivido. Já foi comparada à gripe espanhola do início do século passado e até mesmo às duas Grandes Guerras. São situações extremas, como grandes catástrofes naturais, que podem desencadear sofrimentos psíquicos sérios, dependendo das consequências na vida de cada um, como perda de pessoas queridas e próximas, declínio financeiro e social, sequelas de saúde e hospitalizações prolongadas.

A literatura médica já registrou aumento da incidência de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) em outras pandemias, como do Ebola, da SARS, MERS e H1N1, como já abordamos em artigo aqui no site (leia aqui). Embora o TEPT não seja classificado junto aos transtornos de humor, ele é um transtorno que pode acometer várias funções do psiquismo, como pensamento, humor, sensopercepção e cognição, tanto que alguns autores já se referiram a Transtorno de Humor Pós-traumático. São geralmente quadros graves e incapacitantes, em que a pessoa experimenta sintomas depressivos, ansiosos, disfóricos, fobias, problemas de relacionamento familiar e interpessoal, além da dificuldade para estudar, trabalhar e produzir.

Ainda é cedo para constatarmos um aumento de TEPT na atual pandemia, pois geralmente ele ocorre meses depois do evento estressor, mas já se pode constatar um aumento dos casos de reação aguda ao estresse, que vem acompanhada de muitas manifestações de humor, dentre elas ansiedade, depressão, irritabilidade e disforia. Um percentual pequeno desses casos poderá evoluir para um TEPT com o tempo, caso a exposição ao estresse permaneça, se a pessoa for mais vulnerável psicologicamente e não tiver um apoio social ou terapêutico nesse momento.

Tanto reações agudas ao estresse como oscilações frequêntes e manifestações diversas de humor têm sido frequentes em minha prática clínica durante a pandemia da COVID-19. A maioria já vinha em acompanhamento e experimentou uma recaída dos sintomas, sendo a depressão a manifestação mais comum. Outros pacientes apresentaram episódios de hipomania e mania, alguns necessitaram de hospitalização. Alterações mais leves, como depressão menos grave, maior ciclicidade (variação) de humor, com predomínio de irritabilidade e agitação, também estão sendo frequentes nesse período.

Os contextos individuais são muito diferentes, diria até que inespecíficos, embora a COVID-19 seja o fator gerador ou complicador de todos eles. Há casos de pessoas que se separaram da família, como dos filhos, e cujo afastamento e preocupação cobraram um custo elevado para sua estabilidade emocional. Há pessoas que perderam seus entes queridos e não puderam se despedir. Estudantes que estavam num momento decisivo, seja concluindo o ensino médio, iniciando uma faculdade ou concluindo seu curso de graduação, e viram seus sonhos adiados, frustrando-se por um ano quase perdido. Pessoas que perderam o emprego, empresários que precisaram demitir funcionários e viram seus negócios se arruinarem, presença de dificuldades financeiras para o sustento das famílias, dentre outros problemas de origem econômica. Pessoas que deixaram de contar com sua rede de apoio, seja um terapeuta, um médico, uma comunidade, como sua igreja, e passaram a lidar sozinhas com suas dores. Pessoas que já tinham uma relação familiar delicada e viram no excesso de convivência as tensões aumentarem, sofrendo diversas formas de abuso dentro de casa. Pessoas que adoeceram com a COVID e que foram hospitalizadas, algumas que perderam a esperança e viram a morte de perto numa UTI de hospital.

É difícil mensurar os impactos emocionais dessas diferentes situações, pois cada pessoa é única e terá uma capacidade individual de resiliência e superação. Muitas passarão por um período transitório de vulnerabilidade, precisarão de um apoio momentâneo para se reestruturar e se reerguer, já outros sucumbirão e irão necessitar de um apoio mais contínuo ao longo dos meses ou anos que virão.

As incertezas sobre os rumos dessa pandemia, a quarentena prolongada, a falta de suporte do sistema de saúde, em particular do sistema de saúde mental (leia sobre o apagão da saúde mental no Brasil), a baixa disponibilidade da rede de apoio ao sujeito, seja ela especializada ou social, como igrejas, ONG’s, grupos de pares e voluntários, a demora ou distribuição errática do auxílio emergencial, a marginalização das populações mais vulneráveis, dentre outras desigualdades e negligências são agravantes para esses transtornos.

Gostaria, por final, de comentar a respeito de duas situações relativas ao humor que creio teremos que nos debruçar no futuro pós-pandemia: o luto patológico e o suicídio.

A ausência de uma cerimônia de despedida ou a impossibilidade de velar o corpo de seu familiar pode dificultar a elaboração do luto, aumentando o risco de luto patológico ou mesmo depressão. Algumas pessoas precisarão de auxílio terapêutico para elaborar suas perdas e de apoio psicossocial para seguirem em frente com suas vidas.

Haverá possivelmente um aumento nas estatísticas de suicídio, pois já é possível observar ideias de suicídio em pessoas que antes da pandemia não apresentavam esses pensamentos. Oferecer apoio especializado e de prevenção serão fundamentais em todas as esferas, da saúde, da assistência social, da educação e da cidadania, através de um esforço conjunto multidisciplinar. O Brasil apresenta um alto índice de suicídios, aproximando-se de taxas verificadas em países mais desenvolvidos, segundo a OMS. Políticas públicas voltadas a essa população serão cada vez mais necessárias.

Reconhecer seus limites e ter a humildade de pedir ajuda são cruciais, visto que transtornos mentais costumam se agravar sem uma abordagem terapêutica, ainda mais em condições ambientais hostis como as que estamos vivendo.

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