Problemas de Memória


O que é memória e quais os tipos?
A memória é uma função central em nossa vida e a queixa de esquecimento é cada vez mais frequênte nos consultórios de neurologia e psiquiatria. Não somente pessoas da terceira idade, mas também jovens e adultos apresentam problemas de memória, reflexo de diferentes prejuízos que podem acometê-la.
Em primeiro lugar, é preciso saber que a memória é uma função complexa, dependente de outras funções mais básicas, como a atenção e concentração. Uma disfunção, portanto, pode ser decorrente de uma outra função essencial à boa execução da memória ou dos diferentes mecanismos que envolvem a aquisição e utilização de novas informações.
A memória pode ser dividida principalmente em duas: a de curto e a de longo prazo. A de curto prazo é mais dependente de outras funções, como a atenção e a memória de trabalho, um tipo de memória cuja função principal é dar suporte para a execução de outras tarefas. Se a memória de curto prazo for bem sucedida e a informação nela contida for importante para ser arquivada, de modo a ser lembrada posteriormente, ela é transferida para a memória de longo prazo, um grande reservatório de fatos, imagens e acontecimentos de nossa vida que ficam gravados por um longo tempo. Portanto, a memória de curto prazo é um reservatório pequeno e transitório, enquanto a memória de longo prazo seria a memória propriamente dita, o grande arcabouço de lembranças passadas.
Não basta gravar bem os fatos e armazená-los na memória. É necessário que o cérebro saiba onde essas informações foram guardadas, para que elas estejam acessíveis no momento em que for necessário lembrá-las. Seria como um enorme arquivo, com milhares de gavetas, com as informações classificadas por temas, pelo tempo em que ocorreram e com outras características relevantes, para que elas sejam facil e rapidamente resgatadas. Isso ocorre graças a um mecanismo de busca, chamado de evocação ou recuperação da memória.
Portanto, a memória teria uma fase de codificação ou gravação, outra de armazenamento e uma última de evocação. Essas três diferentes fases podem estar acometidas de maneira diferente. Em todas elas, o paciente terá a sensação de falha de memória, mas caberá ao médico identificar quais dessas fases e porquê elas estão falhando.
Quase todas as regiões cerebrais estão envolvidas na memória. A região frontal do cérebro é essencial para a memória de curto prazo, para a atenção/concentração e para a memória de trabalho. Ela também é a responsável pela codificação (transferência das informações para a memória de longo prazo) e pela evocação. A região temporal é a responsável pelo processo de armazenamento, que se inicia com a consolidação da informação na memória de longo prazo, que acontece numa estrutura do lobo temporal denominada hipocampo. Depois da consolidação, essa informação é finalmente armazenada em áreas distintas do córtex cerebral. Acredita-se que todas as áreas cerebrais estejam envolvidas no armazenamento. Esse processo complexo de transferência de informações depende de um bom funcionamento entre as diferentes áreas cerebrais. Os milhares de circuitos de neurônios precisam estar intactos para que essa transferência aconteça sem ruídos ou distorções e para que a memória seja eficiente.
Caberia aqui mais uma distinção, entre os diferentes tipos de memória. Afinal, existem memórias que temos e utilizamos de maneira inconsciente e que raramente esquecemos, como os hábitos (p.ex., como escovar os dentes, comer, vestir-se), as habilidades motoras (p.ex., andar de bicicleta, dirigir, nadar) e cognitivas (p.ex., falar, ler). Essas memórias são chamadas de implícitas, pois aprendemos desde a infância e são incorporadas e utilizadas automaticamente, sem darmos conta.
Um outro tipo de memória é chamado de explícita, pois é consciente. É esse tipo que identificamos primeiro como memória. São as lembranças de fatos e acontecimentos passados em nossas vidas, nossa biografia, as pessoas que conhecemos, etc. É uma memória que utilizamos a todo momento de forma consciente e voluntária, quando queremos, p.ex., lembrar de algo. É a memória explícita a que comumente está afetada quando nos queixamos de esquecimentos.
O que fazer diante de um problema de memória?
Primeiro deve-se procurar um médico para uma avaliação. Em todas as idades, problemas de memória podem ser sintomas de alguma doença neurológica ou de algum distúrbio psíquico. O médico vai, a partir da história do paciente, procurar diferenciar que fase da memória está acometida, avaliar se existem outros sintomas apontando a existência de uma doença e solicitar os exames complementares necessários para o diagnóstico.
Quais exames podem ser feitos para investigar um problema de memória?
Exames de sangue: para ver se existem sinais de alguma doença sistêmica que possa estar interferindo com a memória.
Tomografia de crânio ou ressonância magnégtica: para verificar a integridade das estruturas cerebrais, particularmente aquelas envolvidas diretamente com a memória (lobo frontal, temporal, hipocampos).
Espectroscopia de prótons: realizada em conjunto com a ressonância magnética para medir as curvas de metabolismo cerebral, geralmente no lobo frontal e no giro posterior do cíngulo (região próxima ao hipocampo).
Testes neuropsicológicos, principalmente testes que medem a atenção/concentração e a memória: por esses testes é possível saber exatamente qual fase da memória está comprometida ou se o prejuízo da memória é causado por outra função, como falta de atenção. p.ex.
Que doenças podem afetar a memória?
Depende da faixa-etária. Após os 50 anos é necessário estar atento para as doenças degenerativas cerebrais, como a Doença de Alzheimer, a demência vascular e outros tipos menos comum de demências, que raramente acontecem antes desta idade. Porém, em todas as idades podem ocorrer doenças ou distúrbios que prejudiquem a memória.
1) Neurológicos:

  • Doenças da substância branca cerebral – lesões provocadas por micro-isquemias ou por doença vascular ateroesclerótica na região subcortical do cérebro, que podem ser causadas por hipertensão arterial, diabetes, dislipidemia (colesterol alto), tabagismo, alcoolismo, entre outras.
  • Acidentes vasculares cerebrais (AVC)
  • Doenças desmielinizantes, como a Esclerose Múltipla.
  • Tumores do Sistema Nervoso Central
  • Infecções, como meningite e encefalites.
  • Doenças degenerativas (demências): Alzheimer, Parkinson, Pick, Corpos de Lewy, Vascular (decorrente de AVC).
  • Epilepsia

2) Psiquiátricos:

  • Depressão
  • Transtorno Bipolar
  • Psicoses, como esquizofrenia e transtorno esquizoafetivo.
  • Reações ao estresse e a traumas
  • Insônia crônica<
  • Outras doenças do sono, como apnéa do sono.
  • Transtornos de ansiedade
  • Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC)
  • TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade)
  • Dependência ou abuso de substâncias psicoativas: tranquilizantes, anfetaminas, maconha, cocaína, ecstasy, LSD, álcool.
  • Complicações do Alcoolismo, como a Síndrome de Wernicke e a Psicose de Korsakoff.
  • Distúrbios da infância e do desenvolvimento, como oligofrenia ou retardo mental e autismo.

3) Doenças Sistêmicas

  • Doenças da Tireóide
  • Lúpus
  • Vasculites
  • Dislipidemia (colesterol)
  • Hipertensão
  • Diabetes
  • Trombose
  • Câncer
  • HIV/AIDS
  • Carências vitamínicas e nutricionais

Como tratar a memória?
O tratamento das disfunções da memória depende do diagnóstico e do tratamento de suas causas, como das doenças supra-citadas. Medicamentos específicos para a memória foram desenvolvidos recentemente, mas somente são indicados para as doenças que acometem primariamente a memória, como é o caso das demências (doenças degenerativas), como a Doença de Alzheimer.
Vários medicamentos possuem ação anti-oxidante e neuroprotetora, que são benéficos para prevenir o envelhecimento cerebral e, particularmente, para preservar a memória, embora não atuem diretamente sobre ela. É o caso dos antidepressivos e dos estabilizadores de humor. Estudos têm demonstrado que algumas doenças psiquiátricas crônicas, se não tratadas, podem acelerar o processo de envelhecimento do cérebro e atingir a memória mais precocemente. A depressão é um bom exemplo. Pacientes deprimidos parecem ter uma redução maior do tamanho dos hipocampos (estrutura central na memória) do que pessoas que não tiveram depressão. O mesmo parece ocorrer em distúrbios psiquiátricos maiores, como o Transtorno Bipolar. A redução do tamanho dos hipocampos guarda uma proporção direta com o tempo que os pacientes passam sob estresse, ansiedade ou depressão. Tratar, portanto, dos distúrbios psiquiátricos é uma forma de prevenir que esse envelhecimento cerebral ocorra de maneira mais rápida.
A mesma lógica serve para as doenças sistêmicas, como a hipertensão e o diabetes. Manter o tratamento e o controle rigoroso dessas doenças evita que o cérebro seja agredido por elas, prevenindo e/ou retardando possíveis consequências à memória e outras funções cognitivas.
Qual o impacto do estilo de vida e dos hábitos sobre a memória?
O estilo de vida e os hábitos alimentares também podem influenciar a memória. Vida sedentária, tabagismo, alcoolismo, obesidade, má alimentação, estresse crônico são inimigos da saúde e levam, a longo prazo, a um envelhecimento cerebral mais rápido e, portanto, a um declínio mais rápido da memória.
Quais as dicas que podem ajudar a preservar a memória?

  • Atividades físicas regulares (no mínimo 3 vezes na semana, durante 1 hora)
  • Parar de fumar, reduzir bebidas alcóolicas, não abusar do café ou de substâncias com alto teor de cafeína e não usar substâncias psicoativas (tranquilizantes, medicamentos que agem sobre o cérebro) sem um acompanhamento médico regular.
  • Não usar drogas ilícitas (maconha, cocaína, ecstasy, LSD, entre outras), que são, sem exceções, agressivas ao cérebro.
  • Emagrecer, para aqueles que estão obesos ou com sobre-peso.
  • Ter, no mínimo, 8 horas de sono por dia. A memória se consolida melhor quando o corpo está descansando, ou seja, durante o sono. A privação do sono ou poucas horas de sono por dia ou sono muito fragmentado são maléficos para a memória.
  • Manter sob controle o colesterol e os triglicerídeos.
  • Rever seus hábitos alimentares: evitar gorduras e excesso de carboidratos/açúcares, aumentar o consumo de verduras, legumes e frutas, usar nos alimentos preferencialmente os óleos de canola ou girassol e evitar o uso de óleo de soja, reduzir a ingesta de alimentos ou bebidas dietéticas que contenham aspartame (veja mais detalhes abaixo).
  • Manter atividades intelectuais, através da leitura, de exercícios cognitivos (jogos que envolvem memória, estratégia, raciocínio), do trabalho ou de atividades ocupacionais que envolvam a inteligência. Para pessoas mais idosas ou que já se aposentaram, é recomendável que leêm mais, que façam palavras-cruzadas, que mantenham uma vida social mais ativa. Assistir TV e fazer atividades manuais mecanicistas (tricot, crochet) não ajudam em nada a memória e ainda tiram o tempo de atividades mais cognitivas.
  • Evitar o estresse. Apesar de difícil, está demonstrado que o estresse pode ser reduzido ou melhor administrado quando a pessoa tem uma vida mais equilibrada, com tempo pré-estabelecido para as atividades de lazer e relaxamento e para momentos de prazer.
  • Não relute em procurar um médico com medo do diagnóstico. Quanto mais cedo você procurar tratar de sua memória, maiores as chances de você recuperá-la. Hoje existem tratamentos eficazes que podem fazer você recuperar sua memória, melhorar sua qualidade de vida e zelar por um futuro com mais saúde.

Dicas de alimentação
Os principais nutrientes com propriedades anti-oxidantes, que protegem o cérebro do envelhecimento e são benéficos para a memória, são: o beta-caroteno, a vitamina C e a vitamina E.
1) Alimentos ricos em beta-caroteno – frutas e vegetais de cores amarelo-escuros e alaranjados, tais como: abóbora, batata-doce, caqui, cenoura, damasco seco, manga, pequi, pupunha e nos vegetais de folhas verde-escuras, como: agrião, bertalha, brócolis, couve, espinafre, salsinha.
2) Alimentos ricos em vitamina C – acerola, abacaxi, bertalha, brócolis, caju, couve de bruxelas, folha de mostarda, goiaba, laranja, limão, morango, murici, pimentão, repolho, salsinha. Atenção, pois a vitamina C é facilmente destruida pelo aquecimento.
3) Alimentos ricos em vitamina E – cereais integrais, oleaginosas, hortaliças, óleo de sementes e, em especial, o óleo de germe de trigo.
Uma alimentação variada, rica em vegetais (frutas, verduras, cereais e oleaginosas) e com um consumo moderado de carnes, leite e ovos é a melhor forma de adquirirmos anti-oxidantes através da dieta.
Texto de autoria do Dr. Leonardo Figueiredo Palmeira

Compartilhe:
Receba as postagens por eMail

Receba as postagens por eMail

Insira o seu Email abaixo para receber as postagens, notícias e comunicados do Web Site do Dr. Leonardo Palmeira.

Sua inscrição foi realizada!!