Farmacogenética: medicina personalizada.

Farmacogenética é a ciência que investiga as variações genéticas relacionadas a respostas individuais ao uso de medicamentos ou substâncias, tanto sobre a eficácia da resposta a um fármaco, como sobre a tolerabilidade, ou seja, os efeitos colaterais.

No final do século 19 um médico britânico que investigava porfiria causada pela ingestão de hipnóticos em pacientes com alcaptonúria percebeu que este efeito era causado por um erro do metabolismo determinado geneticamente. Archibald Garrod foi o primeiro médico a estabelecer a relação entre uma alteração do metabolismo e a herança genética. Este foi o início dos estudos em farmacogenética.

Hoje sabe-se que falhas na resposta terapêutica a determinado medicamento ou o aparecimento de efeitos colaterais podem estar relacionados a variantes gênicas, chamadas de polimorfismo. Esta nova área de conhecimento, ora denominada farmacogenômica, pretende:

– estudar o efeito de medicamentos na expressão dos genes;

– descobrir novas drogas a partir de alvos genéticos;

– fornecer aplicabilidade prática à clínica através de exames que possam oferecer um tratamento personalizado, individualizado para cada paciente.

Na década de 1970 foi descoberto o complexo enzimático do citocromo P450, enzimas do fígado responsáveis pela metabolização das principais substâncias, e descrita sua relação com a metabolização de vários medicamentos utilizados na prática clínica, como antidepressivos, antipsicóticos, anticonvulsivantes, analgésicos, dentre outros.

Outras proteínas começaram a ser estudadas, como as proteínas transportadoras, os receptores de membrana e os segundo-mensageiros intracelulares, novos alvos para tratamentos mais específicos e eficazes.

Primeiros estudos

Os primeiros estudos nesta área, da década de 1970 até a década de 1990, analisaram a resposta a um mesmo medicamento por membros de uma mesma família e encontraram forte concordância para a resposta terapêutica (70-92%). No caso do lítio, p.ex., um estudo demonstrou que filhos de pacientes com transtorno bipolar (TB) que respondiam bem ao lítio tendiam a apresentar também boa resposta ao medicamento, tanto em episódios afetivos (p.ex. depressão), como na profilaxia de novas crises. Por outro lado, filhos de maus respondedores ao lítio também não respondiam bem à medicação.

Outro estudo, que comparou diferenças de resposta entre o lítio e a lamotrigina, concluiu que os respondedores à lamotrigina tinham mais histórico de depressão, transtorno do pânico e transtorno esquizoafetivo na sua família, enquanto respondedores ao lítio tinham histórico na família de TB mais importante. Os respondedores à lamotrigina também tinham mais comorbidade psiquiátrica, com transtorno do pânico e dependência/abuso de substâncias, enquanto os respondedores ao lítio tinham um curso mais episódico do humor (episódios mais bem delimitados).

Estudos genético-moleculares buscam por polimorfismos de genes envolvidos na resposta ao tratamento farmacológico dos transtornos psiquiátricos. Os antidepressivos e antipsicóticos, p.ex., são metabolizados pelo sistema do citocromo P450, no qual existem várias isoformas de enzimas codificadas por diferentes genes. Polimorfismos desses genes podem determinar, portanto, uma grande variabilidade na capacidade de metabolização dessas enzimas.

Polimorfismos de genes que determinam proteínas transportadoras de serotonina e genes de receptores de serotonina e de dopamina na membrana de neurônios também influenciam a resposta aos psicofármacos.
Uma parte expressiva dos estudos tem-se concentrado na resposta ao metilfenidato (Ritalina) em pacientes com Transtorno de Déficit de atenção/Hiperatividade (TDAH), analisando alguns polimorfismos do gene DAT1.

Teste de farmacogenômica para a prática clínica

Em 2005 o FDA, órgão que regula medicamentos nos EUA, aprovou o primeiro teste de farmacogenômica para a prática clínica em psiquiatria. O teste investiga polimorfismos de dois genes, sendo 27 alelos do citocromo P450 2D6 (CYP 2D6) e 3 alelos do citocromo P450 2C19 (CYP2C19), que são enzimas que metabolizam uma grande quantidade de medicamentos psiquiátricos. Desta forma a psiquiatria foi a primeira área da medicina a se beneficiar de testes genéticos para a prática clínica. Com isso foi criada o que é chamado de safety pharmacogenomics, ou farmacogenética de segurança, em que é possível prever pela análise do DNA se um paciente vai reagir bem ou não a um determinado medicamento, reduzindo assim a tentativa e erro que ainda hoje permeia os tratamentos.

No Brasil existem três laboratórios que fazem o teste de farmacogenômica. O teste deve ser solicitado pelo médico, responsável também por interpretar os resultados e tomar a decisão sobre qual o melhor medicamento a ser usado em cada paciente (se você é paciente do Dr. Leonardo Palmeira, clique aqui para ter mais informações).

Bibliografia
Quirino Cordeiro1, Roseli Gedanke Shavitt1, Carolina Cappi1, Aline Santos Sampaio1, Ivanil A. Morais1, Ana Gabriela Hounie1 , Maria Conceição do Rosário2 , Silvia Alves Nishioka3 , Euripedes Constantino Miguel- FARMACOGENÔMICA E PSIQUIATRIA – Rev.Fac.Ciênc.Méd.Sorocaba,v.11,n.1,p.4-10, 2009

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Autor: Dr. Leonardo Palmeira

Psiquiatra pela faculdade de medicina da UFRJ com especialização e pós-graduação em Psiquiatria pelo Instituto Philippe Pinel, Rio de Janeiro. Membro Titular da Associação Brasileira de Psiquiatria e Membro da Sociedade Internacional de Pesquisa em Esquizofrenia (Schizophrenia International Research Society) desde 2005. Autor do livro "Entendendo a Esquizofrenia.

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2 Comentários

  1. Estou criando uma startup em farmacogenética (represento um laboratório americano) e gostaria de saber se há possibilidade de lhe apresentar nosso teste genético.
    Obrigado pela atenção.
    Diniz.

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