OMS lança documento a favor dos direitos humanos e contra as medidas coercitivas na saúde mental

Esta foi uma semana importante para a Saúde Mental mundialmente. A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou em 10 de junho as novas “Orientações sobre serviços de saúde mental comunitários: promoção de abordagens centradas na pessoa e baseadas nos direitos”. Desde a última versão da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiências (CDPD), em 2016, esta é a orientação que trata mais especificamente do direito das pessoas com transtorno mental de serem cuidadas através de abordagens baseadas na sua comunidade e com total respeito aos direitos humanos, não se atendo somente aos cuidados com a saúde mental, mas ampliando o campo de ação para o apoio à vida cotidiana, incluindo questões como moradia, educação e emprego.

Uma preocupação central das novas orientações da OMS é com o abuso dos direitos humanos e com as práticas coercitivas que continuam sendo muito comuns nos serviços psiquiátricos. Apesar de muitos países virem reformando suas leis, políticas e serviços relacionados à saúde mental, até o momento poucos países estabeleceram as estruturas necessárias para atender às exigências internacionais sobre os direitos humanos. As práticas coercitivas, como internação e tratamento forçados, contenção manual, física e química, condições de vida pouco higiênicas e abuso físico e verbal, ainda são muito comuns em países de todos os níveis de renda.

O relatório traz exemplos de serviços de saúde mental baseados na comunidade que demonstraram boas práticas em relação a medidas não coercitivas, inclusão na comunidade e respeito à capacidade legal das pessoas tomarem decisões sobre seu tratamento e sua vida, em países como Brasil, Índia, Quênia, Mianmar, Nova Zelândia, Noruega e Reino Unido, e é complementado por sete cadernos técnicos que trazem orientações para a implantação de novos serviços que respeitem os direitos humanos em diferentes categorias, como serviços comunitários, de crise, hospitais, assistência à moradia e apoio de pares.

No vídeo do lançamento, transmitido AO VIVO para todos os países (assista ao video abaixo), vários convidados de diferentes continentes enfatizaram a importância de reduzir as medidas coercitivas nos serviços de saúde mental, que ferem os direitos das pessoas com transtorno mental de tomar decisões sobre sua vida e restringem a sua liberdade individual, e de repensar os serviços de maneira que eles ofereçam alternativas que respeitem os direitos humanos integralmente.

Norman Lamb, que já foi membro do Parlamento inglês e Ministro de Estado para Assistência e Apoio no Departamento de Saúde, cuidando diretamente das políticas públicas de saúde mental no Reino Unido, teve uma fala muito contundente sobre essas necessidades: “Testemunhei tantas vezes os sistemas de saúde mental falhando com as pessoas. Não fornecendo uma resposta adequada às suas necessidades. Muito frequentemente, os serviços de saúde mental são medicalizados. Eles não abordam as causas sociais que podem estar por trás dos problemas de saúde mental. Lutei contra o tratamento desumano e a desvantagem experimentada por pessoas com problemas de saúde mental. Violações rotineiras dos direitos humanos das pessoas. Testemunhei uma dimensão racial perturbadora nos serviços de saúde mental, onde, em nosso país, se você é jovem e negro, tem muito mais probabilidade de ser detido de acordo com nossa Lei de Saúde Mental”.

Martin Zinkler, psiquiatra alemão, que foi diretor do Hospital de Heidenheim, explicou como foi possível transformar o serviço de psiquiatria do hospital de um serviço tradicional para um serviço que chega à comunidade: “oferecemos à população local uma escolha, a escolha de quatro configurações de tratamento para qualquer problema de saúde mental em adultos. Tratamento em casa com visitas domiciliares diárias, tratamento em hospital-dia e também internação. Cada um desses tratamentos sem tempo de espera. Os usuários do serviço são incentivados a decidir onde querem ser tratados e apoiados. Oferecemos às pessoas uma gama completa de opções de tratamento em qualquer uma dessas configurações, como terapia psicológica, individual ou em grupo, arteterapia, dançaterapia e também apoio social. Pessoas que optam por sair do tratamento são bem-vindas, pessoas que querem parar de tomar a medicação também. Oferecemos uma escolha informada sobre qualquer forma de tratamento. Os objetivos de Heidenheim são eliminar a coerção com várias intervenções, uma política de portas abertas em todas as enfermarias, portanto, não há enfermarias trancadas neste departamento, com tratamento em casa como uma alternativa ao tratamento hospitalar, que pode começar imediatamente com suporte individualizado em momentos de crise e em situações intensas e com atendimentos avançados direcionados e planos conjuntos para situações de crises. Não usamos reclusão”.

Zinkler enfatizou que é necessário monitorar o uso de qualquer intervenção coercitiva e que os dados precisam ser comparados com outros serviços. A taxa de qualquer intervenção coerciva no Hospital de Heidenheim em 2019 foi de 2,1% de todos os pacientes internados, enquanto que no sul da Alemanha, onde esses dados são rotineiramente coletados, a média foi de 6,7%. “Heidenheim não está livre de coerção, mas atingiu taxas de hospitalização que estão entre os mais baixos da Europa. E o mais importante, acreditamos fortemente que o uso de coerção pode ser reduzido ainda mais. Não achamos que haja algo como um mínimo necessário ou absoluto em coerção para serviços de saúde mental”, conclui.

Para Dunja Mijatovic, Comissária do Conselho da Europa para os Direitos Humanos, a nova orientação da OMS é uma “virada de jogo”, fornecendo um impulso muito necessário para as reformas dos serviços de saúde mental na Europa. “A mudança de uma compreensão da saúde mental biomédica para uma mais baseada nos direitos humanos tem sido lenta, lenta mas seguramente evoluindo em nossa região, desde a entrada da CDPD. No entanto, como você sabe melhor do que ninguém, o progresso tem sido muito irregular. E também tem enfrentado muitas resistências, inclusive do meio médico, prevalecendo o velho paradigma em muitos dos nossos Estados membros. Uma posição tão inambígua em favor dos padrões da CDPD, vinda da Organização Mundial da Saúde, certamente terá um grande impacto na redução dessa resistência”, afirma Dunja.

Dunja acredita que a nova orientação da OMS sobre a saúde mental possa reduzir essas resistências e fazer prevalecer a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiências (CDPD) sobre convenções mais antigas e desatualizadas que regiam tratamentos involuntários de pessoas com deficiências psicossociais e que refletiam atitudes dominantes daquela época. “Penso que deveria ser papel do Conselho da Europa não aumentar esta confusão. Acho que apegar-se a leituras desatualizadas dessas convenções mais antigas é uma coisa muito perigosa de se fazer. Acho que é importante alinhar a interpretação delas com a CDPD. Na minha opinião, isso é perfeitamente viável. Tenho pressionado exatamente por isso em nossa organização. E continuarei a fazê-lo. Também posso dizer que não é fácil, mas também posso garantir que não vou desistir. Tenho certeza de que a nova orientação da OMS tornará a tarefa muito mais fácil e sou grata por esse acréscimo tão indispensável em nossa caixa de ferramentas”, conclui.

Como enfatizou Lamb, “acabar com as práticas coercitivas, incluindo reclusão e contenção, internação e tratamentos forçados, e combater a violência, o abuso e a negligência são um imperativo urgente para todos os países e uma prioridade global para os direitos humanos. A orientação da OMS preenche uma lacuna realmente importante, orientando-nos sobre como podemos implementar uma abordagem baseada nos direitos humanos nos serviços de saúde mental e, olhando as orientações, existem estudos de casos maravilhosos que nos ajudam a descobrir como podemos buscar iniciativas próprias. Precisamos ver o fim dos serviços institucionalizados e garantir que nossos serviços de saúde mental baseados na comunidade não reproduzam abordagens das antigas instituições, mas em vez disso, eles realmente impliquem numa abordagem baseada em direitos, abordagem sem coerção, ouvindo e respeitando os desejos das pessoas, abordando suas necessidades reais, atendendo ao que consideram importante na vida, ao invés de simplesmente administrar medicamentos para reduzir os sintomas. Nosso objetivo deve ser dar às pessoas a chance de uma vida boa, uma vida feliz”.

Olga Runciman sabe bem o que isso pode significar na vida de alguém com transtorno mental. Psicóloga e enfermeira psiquiátrica, ela passou pelo sistema de saúde, que a educou e no qual trabalhou, como paciente psiquiátrica. Não bastasse os traumas da infância e da juventude pelos quais passou, como ter sido vítima de bullying, abuso sexual e estupro, Olga sofreu com tratamentos forçados que ela considera como traumas na sua vida: “quando alguém é submetido a tratamento forçado, há muito mais implicações do que muitas pessoas possam perceber, incluindo a equipe. Se devo me tomar como exemplo, estar cercada por um grupo de pessoas em um papel ameaçador é uma reminiscência do bullying no playground ao qual fui submetida. Quando alguém se recusa a tomar o medicamento, apesar da persuasão da equipe, as consequências são terríveis. A pessoa é agarrada e segurada por um grupo de homens e mulheres. Sua roupa íntima é puxada para baixo e você recebe uma injeção de uma substância química. Isso tem toda a semelhanças com ser estuprado. O sentimento é o mesmo. Como costuma acontecer em casos de estupro, a pessoa é levada a se sentir responsável pelo horror do ato negado, sob o pretexto da saúde. Alguém tem que sofrer o insulto de ter que reconhecer que era necessário e bom que este evento tenha ocorrido. Então, assim como com o abuso sexual, as pessoas colocam em prática “cuide da criança, abuse da criança”. E da mesma forma, o sistema implementado para ajudar os aflitos, abusam dos aflitos. Esta é realmente uma grande traição à confiança e impede as possibilidades de criar relacionamentos de confiança, tão necessários para a cura e o entendimento. Imagine só, que em vez de um grupo de funcionários me cercando e insistindo que sabiam o que era bom para mim, uma reminiscência do bullying no pátio da escola, as pessoas se reunissem ao meu redor para me apoiar e ouvir, com curiosidade e interesse. Imagine que, em vez de ser pressionada e injetada à força, eu fosse tratada com dignidade e respeito. Novos caminhos de recuperação se abririam para serem explorados. Imagine que, em vez de ter que me subjugar e dizer que a ajuda forçada era necessária e boa para mim, houvesse um interesse genuíno em avaliar o que funcionava para que as práticas pudessem continuar a crescer e evoluir para lugares onde os pacientes não precisassem temê-las. Apenas imagine”.

Assista ao vídeo do lançamento!

https://youtu.be/Rl_Ad-Cfm_M


Ilha Fiscal é iluminada em lilás pelo Dia da Conscientização da Esquizofrenia

Dia 24 de Maio é o Dia Mundial da Conscientização da Esquizofrenia e, pelo quarto ano seguido, esse dia é lembrado em vários estados brasileiros, dentre eles o Rio de Janeiro, que em 2018 iluminou o Cristo Redentor. Este ano foi a vez da Ilha Fiscal, um dos principais cartões postais da cidade, na Baia de Guanabara e próximo a outro símbolo da cidade, a Ponte Rio-Niterói (Assista à reportagem do Bom Dia Rio - TV Globo).

O Castelo da Ilha Fiscal foi construído pelo Imperador Pedro II em estilo gótico-provençal para ser um Château da família real, onde foram realizados bailes, inclusive o último antes da Proclamação da República. Atualmente o castelo abriga o Museu Histórico-Cultural, subordinado à Marinha do Brasil, e é aberto à visitação.

No Rio de Janeiro outros prédios públicos foram iluminados, como o edifício do Ministério Público do Rio de Janeiro e o Laboratório Farmacêutico da Marinha (fotos).

Essas ações foram organizadas pelos Grupos de Ajuda-Mútua que integram o Programa Entrelaços da UFRJ/IPUB, que no dia 24 de Maio contribuíram com dois eventos online que você pode assistir aqui no Portal: Live Descomplicando a Esquizofrenia e o Monólogo "Normalidade, Esquizofrenia e Espiritualidade"


24 de Maio, Dia da Conscientização sobre a Esquizofrenia

Pelo quarto ano seguido comemora-se o dia 24 de Maio como o Dia da Conscientização da Esquizofrenia no Brasil (foto: primeiro ano, em 2018, no Rio de Janeiro). Vários estados organizaram eventos online devido à pandemia da COVID-19, a exemplo do que aconteceu no ano passado (veja os eventos em nossa TIMELINE).

O objetivo desse dia é chamar a atenção para a esquizofrenia, uma doença cercada de estigmas, tabus e muito preconceito, que afeta até 1% da população brasileira e envolve toda a família, que necessita de muita informação e apoio para lidar da melhor maneira possível com a doença.

A informação e o debate em torno da doença são fundamentais no combate ao estigma e ao preconceito que existe na sociedade e também auxiliam pacientes e familiares na busca de melhores condições de saúde e qualidade de vida.

Compreender a esquizofrenia e o papel da família como parceira do cuidado possibilitam resolver melhor os conflitos, expandir mais a rede social de suporte, desfocar da doença e focar na pessoa e auxiliá-la nos desafios e obstáculos da vida para além dos efeitos da doença mental.

Maior conscientização ajuda na adesão aos tratamentos médicos e psicossociais, no combate ao auto-estigma (vergonha que a própria pessoa tem por ter sido diagnosticada com a doença), numa postura mais altiva e otimista diante dos sintomas e das dificuldades, aumentando a esperança na recuperação e promovendo maior autodeterminação na busca por dias melhores e pela superação das dificuldades.

A união de todos os envolvidos no processo de cuidado, como pacientes, familiares e profissionais de saúde, através dos serviços, de movimentos sociais e associações de pacientes e familiares, é a chave na busca de melhores condições de atendimento, de direitos e de cidadania. Juntos é a melhor forma de combatermos o estigma!

Aproveitem a semana de 23 a 29 de Maio para conversar sobre a esquizofrenia, compartilhar as lives em suas redes sociais, divulgar a informação entre amigos e familiares e em sua comunidade, respeitando as regras sanitárias de distanciamento social, e passar a mensagem de que a esquizofrenia tem tratamento e as pessoas conseguem se recuperar e levar uma vida digna e satisfatória como qualquer outra pessoa.

Abaixo algumas mensagens que podem ser repassadas em suas redes sociais:

#Diga não ao adjetivo “esquizofrênico”. A esquizofrenia não define quem a pessoa é, é tão somente uma doença, que tem tratamento e afeta apenas uma parte do psiquismo de uma pessoa.

#Pessoas com esquizofrenia não são perigosas, pelo contrário, são com maior frequência vítimas de violência.

#O estigma e a desinformação sobre a esquizofrenia são os principais obstáculos à recuperação, tanto para pacientes como para familiares.

#A liberdade das pessoas com esquizofrenia é urgente e necessária, para que sejam sujeitos livres na sociedade, com seus direitos e sua livre circulação garantidos como todo cidadão comum.

#A esquizofrenia requer tratamento multidisciplinar através de uma atenção comunitária, com tratamentos próximos às suas residências e articulados com outros setores, como educação, esporte, cultura, lazer e trabalho.

#Pessoas com esquizofrenia têm maior risco de morrer pela COVID-19, independentemente de outras doenças. Vacinação já para pessoas com esquizofrenia!

#Toda pessoa com esquizofrenia tem direito e capacidade de se recuperar da doença. Ela precisa de apoio, legitimidade, escuta e respeito.

#Diga não ao uso da palavra esquizofrenia quando ela não se refere à doença. Esquizofrenia não serve para adjetivar nada. É tão somente uma doença. O termo esquizofrenia quando mal empregado reforça o estigma e o preconceito.


Por que o 18 de Maio é importante?

O mês de maio é um mês comemorativo para quem convive com a esquizofrenia. É um mês para falar de esquizofrenia, difundir a informação, combater o estigma, mostrar como pacientes e familiares estão se recuperando, fazer suas vozes ecoarem na sociedade, mostrando que a esquizofrenia é uma doença tratável e da qual pacientes e familiares conseguem se recuperar e viver uma vida digna e com realizações.

Mas nem sempre foi assim!

É verdade que é o quarto ano em que comemoramos o Dia da Conscientização da Esquizofrenia no Brasil, o dia 24 de Maio. Mas antes disso, é comemorado o dia 18 de Maio. Você sabe o porquê?

O dia 18 de Maio foi escolhido para ser o Dia da Luta Antimanicomial. Um dia para lembrar a luta do movimento social que mudou a assistência à saúde mental no Brasil, que deslocou dos hospitais para a comunidade o foco do tratamento, movimento este conhecido como Reforma Psiquiátrica. Graças a este movimento surgiram dispositivos que hoje são fundamentais na comunidade para os cuidados aos transtornos mentais e na luta contra o estigma: os CAPS, as Residências Terapêuticas, o Programa de Volta para Casa, o Matriciamento na Atenção Básica (equipes de saúde mental responsáveis pelo atendimento primário), o Programa de Inclusão Social pelo Trabalho, os Centros de Convivência e Cultura, o Programa Nacional de Atenção Comunitária Integrada aos Usuários de Álcool e outras Drogas, os CAPSad e os CAPSi (para a população infanto-juvenil), dentre outros.

Antes da Reforma Psiquiátrica, que se iniciou no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, a assistência psiquiátrica era quase exclusivamente realizada em hospitais. Somente 4% das verbas para a saúde mental eram destinadas para tratamentos comunitários, a maioria restrita a ambulatórios. A maioria dos hospitais era privado, pois o Estado, ainda no Governo Militar, havia decidido terceirizar os serviços de saúde, que expandiram seus leitos para a internação de um número cada vez maior de pacientes, chegando a 7 mil pacientes em “leito-chão”, tempo médio de 7 meses de internação e mortalidade de pacientes crônicos (que residiam em hospitais) 6 vezes maior do que em hospitais de outras especialidades. Um escândalo que fez muitos considerarem a assistência à saúde mental uma “indústria da loucura” (Fonte: Luiz Cerqueira. “Psiquiatria social — problemas brasileiros de saúde mental”, Atheneu, 1984).

A Reforma Psiquiátrica foi impulsionada pelo Movimento pela Redemocratização do país e pela necessidade da reforma sanitária do Sistema Público de Saúde (antigo INPS). Em 1978 um movimento iniciado por trabalhadores de saúde mental e unido aos pacientes e familiares usuários da saúde mental se juntou ao movimento pela reformulação do sistema nacional de saúde, que daria origem ao SUS na Assembéia Constituinte. Neste ano, no II Encontro Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental, trabalhadores de saúde mental, pacientes e seus familiares instituíram o dia 18 de maio como o Dia da Luta Antimanicomial, com o lema “Por uma Sociedade sem Manicômios”.

Em 1989, o deputado federal Paulo Delgado (PT-MG) apresentou um projeto de lei que viria a ser conhecido como a Lei da Reforma Psiquiátrica, sendo aprovado somente 12 anos depois, em 2001, no Governo Fernando Henrique Cardoso (Lei 10.216). Apesar da demora na aprovação e das alterações sofridas ao longo dos anos, a Lei é considerada um marco da assistência psiquiátrica no país e o projeto de lei, além de ter mobilizado o movimento de Reforma Psiquiátrica em diferentes estados, suscitou, até sua aprovação, outras leis estaduais que ajudaram a substituir o manicômio regionalmente.

Essa data e esse movimento fazem parte de uma mudança de rumo histórica da assistência psiquiátrica e da compreensão do transtorno mental para a sociedade em todo o mundo, pois outros países também enfrentaram o mesmo processo. É a partir deste movimento que pacientes passaram a ser tratados na comunidade, por serviços que realizam tratamentos psicossociais e a reabilitação dos pacientes, com projetos terapêuticos individualizados que priorizam seus objetivos e sua inclusão na sociedade como cidadãos, lutando pelo mesmo direito e acesso aos mesmos dispositivos culturais, de lazer, saúde e educação que o restante da população.

Foi a Reforma Psiquiátrica que possibilitou a mudança do paradigma da recuperação em saúde mental (Recovery) conforme a visão do paciente e de sua família, norteando as políticas de saúde mental em diversos países, que passaram a incluir o indivíduo com transtorno mental e sua família no centro dos cuidados e o sujeito como participante ativo das decisões sobre sua vida e seu tratamento. Afinal foi a mudança para a comunidade que estimulou a criação de associações, de grupos de suporte de pares e de pares especialistas em serviços de saúde mental, dentre outras ações que são hoje responsáveis em difundir o Recovery.

Hoje já não é mais possível pensar o tratamento da esquizofrenia com o paciente distante de sua família, sem os dispositivos comunitários e sem a participação social que o incluem na sua comunidade e permitem sua reabilitação. Portanto, o dia 18 de Maio deve ser comemorado e lembrado por todos.

Conheça a Memória da Reforma Psiquiátrica no Brasil!


Live Intervenção Familiar na Esquizofrenia.

Transmissão 11 de Maio de 2021, 20:30h.

https://youtu.be/JBmZlEClzCs

A esquizofrenia é um transtorno mental grave que atinge cerca de 2 milhões de brasileiros, segundo dados do Ministério da Saúde, e que traz consigo significativos prejuízos no funcionamento pessoal, social e familiar. Entre os sintomas mais comuns estão delírios, alucinações, alterações de pensamentos e também a alterações na afetividade.

Portadores deste transtorno precisam também de cuidados pois apresentam sobrecargas físicas e emocionais que são ocasionadas pela dedicação de tempo destinada ao familiar doente. A esquizofrenia ainda desperta muito preconceito na sociedade e isso demanda mais proteção e cuidados à pessoa que sofre com a esquizofrenia.

Como podemos cuidar de quem cuida? Qual o primeiro passo que o indivíduo deve dar ao descobrir que alguém do seu núcleo familiar padece de esquizofrenia? Estas e outras perguntas serão respondidas agora no ABP TV pelos Drs. Alfredo Minervino, Leonardo Palmeira e pela presidente da Associação Mãos de Mães de Pessoas com Esquizofrenia, Sarah Nicolleli.

Conheça melhor os convidados abaixo:

👨‍⚕️ Alfredo Minervino - Professor da Universidade Federal da Paraíba. Chefe da Residência em Psiquiatria da Universidade Federal da Paraíba, membro da câmara técnica de bioética do Crm-PB, membro da câmara técnica de psiquiatria Crm - PB

👨‍⚕️ Leonardo Palmeira - Psiquiatra do Programa Entrelaços do Setor de Terapia de Família do Instituto de Psiquiatria da UFRJ (IPUB), autor do livro de psicoeducação Entendendo a Esquizofrenia e editor do portal Entendendo a Esquizofrenia

👩‍💼 Sarah Nicolleli - Presidente da Associação Mãos de Mães de Pessoas com Esquizofrenia - AMME

🕑 Essa transmissão acontece toda terça-feira, 20h30, horário de Brasília. Você pode assistir no YouTube ou no Facebook. Participe dos debates ao vivo mandando suas perguntas no espaço de comentários da Live! 🔔 Clique em definir lembrete pra ser notificado sempre.

👨‍💼 Apresentação: Lucas Veloso
📡 Direção de TV: Diego Schueng
🎥 Transmissão ao vivo: RecPlay Produtora
🎬 Produção: Departamento de Comunicação da ABP
👔 Realização: Associação Brasileira de Psiquiatria - ABP


Rio de Janeiro começa a vacinar pessoas com esquizofrenia.

A prefeitura do Rio de Janeiro divulgou hoje que vai iniciar a vacinação de pessoas com deficiência, incluindo a deficiência psicossocial, quando o paciente possui limitações psicológicas e sociais em função de algum transtorno mental. Esse quadro inclui transtornos como esquizofrenia, transtorno esquizoafetivo, transtorno bipolar tipo I e transtornos do espectro autista, dentre outros que cursam com graves limitações de autonomia do paciente.

Estudos já demonstraram que pessoas com esquizofrenia possuem um risco maior de mortalidade pela COVID-19, independente de outras comorbidades.

Para ter direito à vacinação, os pacientes devem comparecer aos postos de saúde com sua identidade e um laudo médico que comprove a sua condição de saúde, mencionando o tipo de deficiência, no caso a deficiência psicossocial. Deve ser respeitado o dia de acordo com a idade do paciente, já que a ordem continua sendo por idade, desta vez contemplando pessoas com comorbidades ou deficiências.

O Conselho Nacional de Saúde (CNS) já defendeu a inclusão de pessoas com deficiência entre os prioritários na vacinação contra a Covid-19, então é possível que outras prefeituras incluam esse público como prioritário na vacinação. Informe-se na Secretária Municipal de Saúde de sua cidade.

Faixa etária

A vacinação dos grupos prioritários vai começar pela seguinte ordem na semana que vem:

26/04 (segunda-feira): Mulheres com 59 anos

27/04 (terça-feira): Homens com 59 anos

28/04 (quarta-feira): Mulheres com 58 anos

29/04 (quinta-feira): Homens com 58 anos

30/04 (sexta-feira): Mulheres com 57 anos

01/05 (sábado): Homens com 57 anos

Pessoas que estão dentro dessas faixas etárias mas não fazem parte dos grupos prioritários, não devem buscar os postos de vacinação.


Uso de maconha na adolescência é associado à queda no QI.

Pesquisadores irlandeses constataram uma relação entre o uso frequente da maconha durante a adolescência com um declínio do QI (Quociente de Inteligência) ao longo dos anos.

Em estudo publicado na Psychological Medicine, cientistas da Universidade RCSI afirmam que jovens usuários de cannabis tiveram queda de aproximadamente dois pontos de QI comparados àqueles que nunca haviam consumido o psicotrópico. Uma análise posterior sugeriu que essa redução estava relacionada ao QI verbal, um efeito parecido ao observado em jovens com esquizofrenia ou expostos a toxinas como chumbo durante a infância.

A pesquisa envolveu uma revisão sistemática e análise estatística em sete estudos com 808 jovens que usaram cannabis pelo menos uma vez por semana por um período mínimo de seis meses, e 5.308 jovens que jamais haviam consumido. Para ser incluído na análise, cada estudo deveria contar com dados de QI antes e depois do uso da maconha pelos jovens. Os participantes foram acompanhados, em média, até os 18 anos, embora um dos estudos tenha seguido os jovens até os 38 anos.

"Pesquisas anteriores nos dizem que os jovens que usam cannabis com frequência têm resultados piores na vida, além de estarem sob maior risco de doenças mentais graves, como a esquizofrenia. A perda de QI no início da vida pode ter efeitos significativos no desempenho escolar, universitário e, posteriormente, nas perspectivas de emprego", comentou a autora sênior do artigo, Mary Cannon, professora de Epidemiologia Psiquiátrica e Saúde Mental Juvenil da universidade irlandesa.

No artigo, os autores afirmam que os achados são semelhantes à perda pré-mórbida de inteligência na esquizofrenia. Eles citam que em homens que são posteriormente diagnosticados com o distúrbio, o QI verbal diminui em aproximadamente seis pontos entre 13 e 17 anos de idade. O efeito observado também se assemelha ao visto na exposição ao chumbo na infância.

"O uso de cannabis durante a juventude é uma grande preocupação, pois o cérebro em desenvolvimento pode ser particularmente suscetível a danos durante este período. As descobertas deste estudo nos ajudam a entender melhor esta importante questão de saúde pública", comenta Emmet Power, pesquisador clínico da Universidade RCSI e primeiro autor do estudo.

Power acrescenta que esses resultados podem ser explicados por vários mecanismos potenciais: desde uma neurotoxicidade do desenvolvimento, a desvios no envolvimento educacional, ou vulnerabilidades individuais, como menor capacidade de leitura na infância. Já hipóteses como problemas familiares seriam menos prováveis de predisporem um indivíduo à queda no QI.

Fonte: UOL


ANVISA aprova Esketamina, tratamento para depressão resistente e ideação suicida.

Medicamento deve estar disponível somente no segundo semestre de 2021

A ANVISA aprovou neste mês um medicamento para tratamento da depressão resistente (depressão que não melhora com tratamentos convencionais) e para o tratamento da ideação suicida ou crise suicida, em que o indivíduo encontra-se na iminência de atentar contra sua própria vida.

A esketamina (Spravato®) foi desenvolvida pela empresa farmacêutica norte-americana Janssen, ligada ao grupo Johnson&Johnson, e já é aprovada e utilizada nos EUA com resultados promissores. Trata-se de um grande avanço da psicofarmacologia, uma vez que não existem tratamentos farmacológicos para esses casos até o presente momento e o único tratamento para depressão resistente e crise suicida disponível hoje em dia é a eletroconvulsoterapia, o ECT, popularmente conhecido como eletrochoque.

O suicídio é um desfecho trágico em muitas famílias e há registros que as taxas de suicídio vem aumentando em diversos países, principalmente entre os mais jovens. Transtornos psiquiátricos frequentemente são associados ao comportamento suicida e representam um risco maior de suicídio na população, como é possível observar na tabela abaixo.

TranstornoTentativas de suicídioMorte por suicídio
Esquizofrenia50%8-10%
TP Borderline60-78%3-10%
T Bipolar29%8-18%
Depressão16%2-12%
T Alimentares26%6%
T AnsiedadeRR 1,6-3,01-5%
AlcoolismoRR 2,68-10%

RR = Risco Relativo – quantas vezes maior o risco de suicídio comparado à população sem o transtorno (dados obtidos pessoalmente no Congresso Americano de Psiquiatria em 2019, São Francisco).

Como é possível perceber, o risco de suicídio é alto na maior parte dos transtornos psiquiátricos graves, particularmente na Esquizofrenia, TP Borderline e no T Bipolar. Entretanto, o risco de suicídio nos quadros mais comuns, como depressão, ansiedade e alcoolismo, não pode ser desprezado pelo número de pessoas que são atingidas por esses transtornos. Só a depressão pode atingir até ¼ da população ao longo da vida. Esses dados dão a dimensão da importância do desenvolvimento deste medicamento para a medicina.

A esketamina é um enantiômero da ketamina, anestésico conhecido e utilizado em cirurgias desde 1960 e que se tornou popular durante a Guerra do Vietnã por ter sido muito utilizado em cirurgias de soldados feridos em combate, graças à sua segurança e facilidade de administração. A ketamina também se tornaria droga recreativa nos EUA a partir dos anos 1970, por seu poder alucinógeno.

É conhecido o poder antidepressivo da ketamina e ela já vinha sendo utilizada de maneira “off-label” em pacientes com depressão resistente há mais de 10 anos, inclusive no Brasil. Entretanto, seu uso requer acesso venoso (por ser uma injeção intravenosa), a presença de um anestesista, monitoramento cardíaco, estrutura de centro-cirúrgico ou de terapia semi-intensiva, com carrinho de parada e respirador mecânico, em função dos riscos de complicações.

A esketamina rompe com esta necessidade, uma vez que ela pode ser administrada de forma intranasal e num ambiente clínico, contudo, sendo necessária a monitorização do paciente por 2 horas em função da possibilidade de sintomas transitórios como sedação, confusão mental, agitação, distúrbios visuais e tonteiras.

Ela age em receptores NMDA, do sistema do glutamato, neurotransmissor envolvido em uma série de transtornos psiquiátricos, como a depressão e a psicose, e associado à gravidade maior de sintomas. Ao bloquear os receptores NMDA a esketamina aumenta a liberação de glutamato que, por sua vez, estimula receptores AMPA, que aumentam os fatores neurotróficos como BDNF, responsáveis pelo efeito antidepressivo e pela cessação das ideias de suicídio. BDNF é um do fatores que se encontra reduzido em cérebro de pacientes com depressão.

Estudos clínicos demonstraram que pacientes tratados com esketamina intranasal (Spravato®) melhoraram da depressão e das ideias de suicídio em curto espaço de tempo, duas a quatro horas após a administração da medicação. Os pacientes recebiam aplicações duas vezes por semana, nos primeiros 15 dias de tratamento, semanalmente por mais 3 semanas e depois quinzenalmente até o término do estudo. Quase 70% dos pacientes atingiram uma melhora superior a 50% nas escalas de depressão após pouco mais de 2 meses de tratamento com esketamina, segundo um dos estudos (Synapse). Outros estudos clínicos, variando o formato de administração do medicamento, encontraram resultados semelhantes.

O custo do tratamento com esketamina intranasal (Spravato®) deve ser alto. Segundo estimativas norte-americanas, o custo do primeiro mês de tratamento pode variar entre 5 e 8 mil dólares e o de manutenção pode ficar entre 1.500 e 4.000 dólares, dependendo da dosagem e dos intervalos de administração. Não existe ainda uma estimativa de preço no Brasil, uma vez que a ANVISA vai iniciar esta fase no início do próximo ano. Existe a expectativa que planos de saúde possam cobrir o tratamento.

A esketamina intranasal (Spravato®) traz a promessa de uma resposta rápida e eficaz para transtornos mentais graves e altamente prevalentes, como a depressão resistente e a crise suicida, com um perfil favorável de segurança e tolerabilidade, com efeitos colaterais transitórios e de curta duração, sendo uma opção de tratamento em uma área escassa de terapias efetivas para este perfil de transtornos mentais.

Fontes:
Wikipedia
Bahr, R., Lopez, A., & Rey, J. A. (2019). Intranasal Esketamine (SpravatoTM) for Use in Treatment-Resistant Depression In Conjunction With an Oral Antidepressant. P & T : a peer-reviewed journal for formulary management, 44(6), 340–375.


Chega ao Brasil o Brexpiprazol, novo tratamento para depressão e esquizofrenia.

Começou a ser comercializado no Brasil este mês um novo medicamento, o Brexpiprazol, cujo nome comercial é Rexulti® e é produzido pela empresa dinamarquesa Lundbeck®, a mesma que produz o Lexapro® e o Brintellix®. Apesar da novidade em nosso país, a molécula foi aprovada pelo órgão regulador dos EUA (FDA) em 2015 tanto para o tratamento da esquizofrenia, como para o tratamento adjuvante da depressão, ou seja, como associação ao tratamento com antidepressivos. Em 2016 o FDA reforçou a indicação do Brexpiprazol como tratamento de manutenção da esquizofrenia.

O leitor deve estar se perguntando como um medicamento pode tratar duas doenças tão diferentes. Isso mesmo! Essa molécula faz parte de uma terceira geração de antipsicótico (nome que já vem sendo questionado, uma vez que essas moléculas possuem eficácia para além da esquizofrenia), a mesma que foi inaugurada com o lançamento do Aripiprazol (comercializado no Brasil inicialmente com o nome de Abilify® e depois como Aristab® - laboratório Aché), cuja aprovação nos EUA data de 2002.

Pouco mais de 10 anos depois os avanços na pesquisa fizeram com que fosse desenvolvida uma molécula mais aprimorada do que o Aripiprazol, que mantivesse sua eficácia no tratamento da esquizofrenia, mas fosse ao mesmo tempo melhor tolerada e mais eficaz na sua ação como antidepressivo, propriedade que já vinha sendo observada com a primeira molécula.

Essa terceira geração de antipsicóticos se destaca pela sua ação inovadora chamada de agonista parcial de receptores de dopamina, considerada, na época do lançamento do Aripiprazol, uma molécula "inteligente". Diferentemente dos seus antecessores, os agonistas parciais agem mais como moduladores de dopamina, do que como bloqueadores (ação mais tradicional dos antipsicóticos antagonistas), que normalmente reduzem a dopamina cortical. Ao mesmo tempo que a redução de dopamina é desejada, pois seu excesso é uma das explicações para sintomas como delírios e alucinações, a falta de dopamina gera apatia, desânimo e desinteresse. Na atuação como agonistas parciais, tanto Aripiprazol como Brexpiprazol atuam inibindo ou estimulando diferentes sítios receptores, mantendo os níveis de dopamina mais equilibrados. Isso traz tanto uma resposta clínica diferenciada, como menor incidência de efeitos colaterais relacionados ao bloqueio da atividade dopaminérgica.

O que o Brexpiprazol traz de inovador em relação ao seu antecessor é uma maior capacidade de estabilizar a função dopaminérgica por ter uma maior ação em receptores de serotonina e uma menor atividade intrínseca nos receptores de dopamina, com ligações mais balanceadas entre receptores de dopamina e serotonina. Com isso, o Brexpiprazol, além de ter menos efeitos colaterais, como inquietação, ansiedade, acatisia e ganho de peso, possui maior eficácia no tratamento de sintomas depressivos e cognitivos.

Apesar de sua aprovação nas duas doenças, a empresa que comercializa o Rexulti® no Brasil optou pelo lançamento inicial somente para o tratamento adjuvante da depressão, por enquanto a única indicação em bula. Os estudos clínicos realizados para o lançamento do medicamento mostraram que ele melhorou os sintomas de depressão em pacientes que não melhoraram com um ou mais antidepressivos, como tristeza, desânimo, ansiedade, irritabilidade e a qualidade do sono, melhorando assim a funcionalidade do paciente, como desempenho na escola e trabalho, na vida social e familiar.

Os estudos tiveram uma baixa taxa de abandono e o Brexpiprazol mostrou um perfil favorável à classe à qual pertence, com baixo risco de ganho de peso, baixo impacto metabólico, sem aumento de prolactina e sem disfunção sexual.


Setembro Amarelo: Uma breve história sobre o Litio.

Um dos medicamentos mais antigos da medicina tem comprovadamente uma ação no tratamento da ideação suicida e na prevenção do suicídio. Diversos estudos demonstraram que o lítio pode reduzir e tratar pensamentos suicidas e, assim, ser um dos poucos agentes farmacológicos que possuem uma atividade intrínseca, e independente de sua ação terapêutica principal, na prevenção do suicídio.

Isso não significa que outros medicamentos não possam ser utilizados no tratamento das ideias suicidas, mas, diferentemente do lítio, eles dependem de sua ação terapêutica principal para alcançar esse objetivo. Um antidepressivo, p.ex., depende de sua ação antidepressiva, como de redução da tristeza, da angústia e da desesperança, para reduzir a força dos pensamentos de morte. Um antipsicótico depende de seu efeito calmante e de combate a crenças deturpadas para combater o desejo de uma pessoa de por fim à vida.

Já no caso do lítio, um conhecido estabilizador de humor, o efeito anti-suicídio parece não ter relação com o fato dele agir no humor, mas ser um efeito independente da substância sobre esses pensamentos. Essa é a conclusão de um estudo publicado este mês na Revista Neuroscience & Biobehavioral Reviews por um grupo de pesquisadores de 5 diferentes países, Itália, Espanha, Canadá e França, que avaliou 44 estudos com mais de 200 mil participantes.

O lítio é uma das substâncias mais antigas da medicina. Ele foi utilizado pela primeira vez para tratamento de uma doença em 1859, quando Alfred Garrod descobriu sua ação na Gota, doença do acúmulo de ácido úrico no sangue. Seus efeitos benéficos para o ácido úrico e para cálculos renais fizeram com que produtos contendo lítio passassem a ser comercializados em mercados nos anos 1930.

Entretanto, foi na psiquiatria que o lítio encontrou sua maior indicação, fazendo com que mesmo nos dias de hoje ele ainda seja muito prescrito. Em 1870 foram descobertas suas propriedades hipnóticas e anticonvulsivantes, passando a ser indicado para “nervosismo geral”. Em 1871 ele foi prescrito pela primeira vez na Mania, que se tornaria uma de suas principais indicações a partir de 1952. Em 1894 o lítio foi descoberto pelo psiquiatra dinamarquês Frederik Lange como tratamento da Depressão Melancólica.

Embora o lítio tenha ficado esquecido pela comunidade médica até a segunda metade do século XX, existem na história alguns casos anedóticos, como de psiquiatras do sul da França, que utilizavam uma preparação de lítio (“Dr. Gustin’s Lithium”) em seus pacientes e que, por essa razão, não se registravam tantos casos de doença maníaco-depressiva em Marseilles.

Em 1958, depois que descobriram a forma de dosar o lítio no sangue, reduzindo assim o risco de intoxicação, foi possível sua utilização em larga escala na psiquiatria. Muito se estudou sobre o lítio de lá para cá, a ponto dele ter sido considerado o tratamento mais efetivo na psiquiatria junto ao ECT, com indicações aprovadas na Mania, Depressão e prevenção do Transtorno Bipolar do Humor, além do efeito anti-suicida que abordamos neste artigo.

A partir de 1995 outros estabilizadores de humor surgiram e com eles a pressão comercial da indústria farmacêutica fez com que o lítio perdesse terreno entre os médicos. Nesse mesmo ano, a Universidade de Columbia fechou sua clínica de lítio. Cada vez menos médicos trainees são ensinados a usar lítio. Estaria o lítio fadado ao desaparecimento? Essa é uma pergunta ainda sem resposta, mas que levanta fortes suspeitas e alertas para a comunidade médica e científica.

Fontes:

Shorter E. The history of lithium therapy. Bipolar Disord. 2009;11 Suppl 2(Suppl 2):4-9. doi:10.1111/j.1399-5618.2009.00706.x

L. Del Matto, M. Muscas, A. Murru, N. Verdolini, G. Anmella, G. Fico, F. Corponi, A.F. Carvalho, L. Samalin, B. Carpiniello, A. Fagiolini, E. Vieta, I. Pacchiarotti,
Lithium and suicide prevention in mood disorders and in the general population: A systematic review. Neuroscience & Biobehavioral Reviews. 2020; 16: 142-153. https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2020.06.017


Setembro Amarelo: Automedicação aumenta o risco de suicídio.

Todo mês de setembro chamamos a atenção para o suicídio e para a necessidade da conscientização e da prevenção. Ele é a segunda causa de morte em jovens de 15 a 29 anos e acomete mais pessoas jovens e na faixa dos 70 anos de idade. A taxa geral de suicídio no Brasil é de 5,3 por cada 100 mil habitantes, considerada alta para países em desenvolvimento (as taxas de suicídio são mais altas em países desenvolvidos, como EUA, Canadá e a maioria dos países europeus).

Um aspecto que preocupa é que a maioria das pessoas que comete suicídio o faz antes de procurar um psiquiatra e muitos terminam com a vida sem dar qualquer alarde, sem que ninguém da família perceba antes ou possa fazer algo para evitar. Uma das razões para isso é o tabu em que falar de suicídio se transformou. Muitos acreditam que falar sobre o assunto pode estimular um comportamento suicida, quando a ciência mostra ser justamente o contrário.

Pessoas que têm ideias suicidas estão sofrendo de uma angústia insuportável e muitas querem falar disso, mas não sabem como. Outras têm ideias de suicídio, mas possuem vergonha ou medo de falar no assunto, guardando para si todo o sofrimento. Já outras pensam que essas ideias são normais e que não correm risco, mas muitas têm medo de perder o controle, partindo para o ato. Mas em todas as situações, falar de suicídio traz alívio e saber que podem contar com a ajuda de alguém pode ser um divisor de águas entre a vida e a morte.

A procura por um psiquiatra é o passo fundamental, pois ideação suicida tem tratamento e em geral a resposta é rápida. Com o tratamento médico e o acompanhamento psicológico e familiar adequados, a pessoa experimenta um alívio para aquele sofrimento mais agudo e as ideias de suicídio perdem força, tirando a pessoa de uma zona de risco.

Entretanto, as resistências a procurar um psiquiatra são grandes, principalmente para aqueles que nunca procuraram. E as tentações por soluções rápidas e milagrosas são perigosas.

A automedicação é uma delas. A maioria das medicações psiquiátricas pode agravar ideias de suicídio ou precipitar um comportamento suicida se ela não for criteriosamente prescrita. Embora essas medicações possam muitas vezes reduzir ideias suicidas e tratar sintomas depressivos, no início do efeito, quando ainda não atingiram sua eficácia, podem agravar momentaneamente o quadro. Se a pessoa não estiver em um acompanhamento adequado, pode não ter a quem recorrer e ficar mais vulnerável a um comportamento suicida.

Portanto, é necessário que um paciente com ideias de suicídio e sua família estejam em acompanhamento regular com psiquiatra e psicólogo e tenham acesso a eles em momentos de crise.

O uso indiscriminado de antidepressivos e ansiolíticos, seja por conta própria ou sem o devido acompanhamento do especialista, pode agravar e precipitar um comportamento suicida.

Pensamentos comuns do tipo “quem quer se matar não fala, faz”, “a pessoa só quer chamar atenção”, “quem quer se matar é covarde e fraco” são extremamente perigosos e podem ser um incentivo arriscado para as pessoas que estão mais vulneráveis e que precisam de ajuda e não de se sentirem ainda mais estigmatizadas.


Programa Entrelaços entre os finalistas do Prêmio Internacional Dr. Guislain.

Em 2020 o prêmio Dr. Guislain Award recebeu mais de 50 nomeações de 18 países diferentes em todo o mundo, demonstrando um claro compromisso global com a desestigmatização das doenças mentais.
Estamos entusiasmados em compartilhar os 13 indivíduos e organizações que foram nomeados para a lista de indicados por suas realizações significativas no combate ao estigma de saúde mental em suas comunidades.

Atelier Goldstein Art Studio
Fundado pela artista Christiane Cuticchio, o Atelier Goldstein é um estúdio de arte independente em Frankfurt, Alemanha, para artistas que vivem com doenças mentais. Assista ao vídeo!

Programa “Entrelaços”
O Programa “Entrelaços” forma grupos de mútua ajuda para pacientes com transtornos mentais graves e seus familiares no Rio de Janeiro e segue um modelo pioneiro no Brasil que integra psicoeducação com terapia de solução de problemas.

Grégoire Ahongbonon
Grégoire Ahongbonon é o presidente fundador da Association Saint Camille, que fornece cuidados residenciais para pessoas na África Ocidental que vivem com doenças mentais. Ele dedicou sua vida para eliminar o estigma da saúde mental e organizar serviços psiquiátricos contemporâneos para os necessitados em Benin, Burkina Faso, Costa do Marfim e Togo. Assista ao vídeo!

Headspace Bolton
Headspace Bolton é um fórum e um canal criativo no Reino Unido onde pessoas que vivem com doenças mentais podem expressar livremente sua individualidade e utilizar suas habilidades, concentrando-se em realizações e sucessos positivos, pessoais, sociais e profissionais. Assista aos vídeos!

Jeffrey Lieberman
O Dr. Jeffrey Lieberman é um médico e cientista que atualmente atua como presidente do Departamento de Psiquiatria da Columbia University College, Diretor do Instituto Psiquiátrico do Estado de Nova York e Psiquiatra-chefe do Hospital Presbiteriano de Nova York. Por meio de sua pesquisa, ele transformou o tratamento da esquizofrenia e publicou o aclamado “Shrinks: The Untold Story of Psychiatry”. Assista ao vídeo!

J’Gallery & Café
J’Gallery & Café é uma galeria de arte permanente e lanchonete anexa que exibe obras de arte exclusivamente de pessoas que vivem com doenças mentais. A galeria está localizada no principal circuito de arte de Tóquio. Visite o Facebook!

Journées de la Schizophrénie - Internacional
Journées de la Schizophrénie é uma organização sem fins lucrativos que se concentra em quebrar o estigma de problemas crônicos de saúde mental em toda a Europa. Por meio de campanhas e eventos comunitários, buscam mudar a percepção do público em geral e da mídia. Visite o site!

Lovro Krsnik
Lovro Krsnik é um diretor de teatro na Croácia, que acredita que todas as vulnerabilidades são potenciais criativos e usa o teatro e a arte para construir um lugar seguro para todas as pessoas necessitadas. Visite seu Instagram!

Moussa Sakho
Moussa Sakho é um conhecido artista de Dakar e membro fundador da associação Nit Nitey Garäbam, que visa ajudar pacientes psiquiátricos. Ele usa a arte para apoiar seus concidadãos, especialmente aqueles com doenças mentais e crianças carentes. Assista ao vídeo!

Sebastien Van Malleghem
Sebastien Van Malleghem é um fotógrafo freelancer de renome mundial baseado na Bélgica, que dedicou a maior parte de sua carreira a fazer documentários sociais. Suas fotos são focadas em pessoas marginalizadas. Assista aos videos!

Taskeen Health Initiative
Taskeen Health Initiative é uma organização sem fins lucrativos pioneira na educação em saúde mental para reduzir o estigma no Paquistão. Assista ao vídeo!

The Carter Center: Rosalynn Carter Fellowships for Mental Health Journalism
A Rosalynn Carter Fellowships for Mental Health Journalism foi fundada em 1996 pela ex-primeira-dama dos Estados Unidos, Rosalynn Carter, para dar aos jornalistas os recursos necessários para reportar sobre saúde mental e ajudar a desmantelar o estigma por meio de histórias. Assista ao vídeo!

The Dax Center
Com sede em Melbourne, Austrália, o The Dax Centre oferece aos artistas que vivem com doenças mentais oportunidades de expressão criativa, ao mesmo tempo que promove mudanças sociais ao expandir a consciência do público sobre a saúde mental e reduzir o estigma por meio da arte. Visite o site! Assista ao vídeo!

Se você conhece um indivíduo, organização ou projeto focado na eliminação do estigma de saúde mental, verifique novamente no início de 2021 para indicá-lo para o Prêmio Dr. Guislain do próximo ano.

Fonte: drguislainaward.org

Links apontados através da pesquisa realizada pelo Dr.Leonardo Palmeira


O que venho observando na minha clínica ao longo da pandemia da COVID-19: Transtornos da Cognição.

Dificuldade de concentração, de memória, de planejamento e organização, procrastinação, dificuldade em executar tarefas que antes conseguia, são muitas as queixas que afetam a cognição nessa época de pandemia da COVID-19 e as razões, como vimos em outras áreas da saúde mental, são diversas. Procuramos neste artigo abordar as principais queixas cognitivas e seus transtornos nesse período.

Inicialmente cabe uma breve explicação sobre o que é cognição. Cognição engloba as funções mentais superiores e aquelas funções mais básicas que servem de fundo para as primeiras. Um exemplo que faz parte do dia-a-dia das pessoas é a queixa de memória. Memória é uma das nossas principais funções cognitivas. Problemas de memória são comuns em quadros afetivos, como a depressão, em situações de estresse e sobrecarga e na Doença de Alzheimer, dentre outros problemas médicos e psiquiátricos. Alguns desses transtornos acometem a memória propriamente dita, como é o caso do Mal de Alzheimer, em que a pessoa perde a capacidade de fixação de novas informações na memória, tornando-se mais esquecidas para fatos recentes do que antigos.

Na depressão, porém, as dificuldades de memória decorrem mais por uma alteração de fundo, que apoia a memória em sua operacionalização. Pessoas deprimidas podem ficar mais desatentas ou apresentar problemas de função executiva, que prejudica as etapas de codificação ou evocação da memória, ou seja, a dificuldade é maior em lembrar ativamente dos fatos, raramente ocorre esquecimento rápido e as pessoas com depressão conseguem se lembrar dos fatos quando são ajudadas através de “pistas”.

Através desse exemplo pode-se ter uma ideia da complexidade de nossa cognição, que engloba ainda linguagem, inteligência, orientação, praxia, gnosia, funções executivas, velocidade de processamento e habilidades visuoespaciais.

Como numa orquestra sinfônica, nossa cognição requer o bom funcionamento dos instrumentos e a coordenação entre eles, dada pelo maestro da orquestra, para que nosso comportamento, nossa capacidade de raciocínio e inteligência, nossa memória, nossa capacidade de socialização, relacionamento e trabalho/estudo sejam harmônicos.

Em tempos de pandemia, com todos os distúrbios que já abordamos em outros artigos aqui no site, sejam sociais, políticos, econômicos, culturais, psicológicos ou familiares, é esperado que algumas pessoas sintam consequências negativas para o bom funcionamento cognitivo.

Como esse é um assunto vasto para ser abordado num único artigo, irei priorizar os quadros mais comuns que venho observando em minha prática clínica, com alguns comentários, embora saiba que cada um deles merecesse ser abordado num texto próprio.

TDAH

O Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) é um dos transtornos que têm chamado atenção durante a pandemia. E não somente em crianças e adolescentes, mas também em adultos.

Uma das principais mudanças que a pandemia trouxe para o estudo e para o trabalho foi o ensino à distância e o home-office. A rotina de estudantes e trabalhadores sofreu um revés, com um aumento da carga horária na frente de um computador ou celular.

Naturalmente ocorreu uma grande mudança também no aspecto cognitivo, uma vez que prestar atenção a uma aula ou reunião online não é igual quando o ambiente é propício para isso. O setting de uma sala de aula ou de reunião guardam características às quais já estamos acostumados e que transmitem informações que para a grande maioria serve de ambientação e ajudam na concentração e na assimilação de conteúdos. Mesmo nesses ambientes, pessoas têm dificuldade para se manter concentradas, mas se o ambiente mudar, com outros atrativos que podem desviar ainda mais o foco de atenção?

Isso vem ocorrendo com a maioria das pessoas que possuem TDAH ou outras dificuldades cognitivas. Há relatos de maior dificuldade de manter a atenção quando o ambiente não é apropriado, quando existem barulhos na casa, quando há estímulos do próprio computador, como outros websites abertos, aplicativos de mensagens ativos, smartphones ligados ou mesmo estímulos no próprio cômodo da casa, como quadros, livros, TV e até a ausência das pessoas na sala, que poderiam servir de estímulo para focar melhor nos assuntos. As salas virtuais, com várias carinhas aparecendo conjuntamente, é outro fator que pode dificultar a atenção em pessoas que tenham dificuldades.

Sem mencionar as tarefas que precisam ser concluídas fora das aulas ou reuniões, pois em casa existe uma tendência maior à procrastinação, afinal cada um poderá se organizar à sua maneira, não dependendo do horário de trabalho ou escola para concluir as tarefas.

As queixas são frequentes na minha prática clínica e muitos pacientes precisaram de adequações no tratamento, tanto do ponto de vista médico, como psicológico, como organização do seu ambiente de trabalho e estudo, identificação e eliminação de fatores que possam causar dispersão e estabelecimento de uma rotina pré-definida com horários.

Outro aspecto é a sobrecarga emocional dos pais, que precisam acompanhar seus filhos nos estudos ao mesmo tempo em que possuem suas obrigações domésticas e de trabalho, ocorrendo também um aumento dos conflitos em casa, com repercussões negativas para o estado emocional das crianças e dos adolescentes.

Demência

Pessoas idosas com quadros cognitivos leves e demência estão tendo maiores dificuldades de compreensão e assimilação da nova realidade que estamos vivendo. Elas podem se desorganizar mais, ficando mais angustiadas e apavoradas, tornando-se mais inseguras para as atividades de vida diária que antes conseguiam cumprir ou podem ignorar as medidas de distanciamento e proteção pela falta de entendimento e de memória.

A mudança de rotina, para a qual as pessoas idosas e particularmente aquelas com declínio cognitivo têm maior sensibilidade, pode precipitar crises de ansiedade, depressão, agitação, confusão mental e piora do quadro neurológico.

Essas pessoas tiveram interrompidos tratamentos e atividades importantes para sua saúde física e mental, como sessões de fisioterapia, terapia ocupacional, centros de convivência, caminhadas ou passeios ao ar livre, banhos de sol, atividades religiosas, que para elas têm uma importância maior, pois ajuda no seu equilíbrio emocional e conferem uma maior organização mental.

Os pacientes que não puderam contar com os seus cuidadores ainda viram na sobrecarga familiar mais uma fonte de estresse, pois com a mudança de rotina de todos os membros da família, a sobrecarga do cuidado de uma pessoa idosa com demência gera conflitos para o relacionamento familiar com consequências mais danosas para ela, que possui menos recursos cognitivos para lidar com o estresse.

Nesse período de pandemia houve idosos que “abriram” quadros de demência em função da maior ansiedade e das restrições do cotidiano impostas pela quarentena. Essas pessoas já vinham com um declínio cognitivo leve e não conseguiram lidar com a nova situação, apresentando sintomas e dificuldades cognitivas que antes não possuíam.

O tratamento das pessoas com demência envolve cuidados multiprofissionais e de toda a família, o que naturalmente foi mais difícil de manter nessa pandemia.

Autismo

Crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista também sofreram mais nesse período de pandemia, principalmente aqueles com quadro mais grave e que necessitam de um tratamento de estimulação/acompanhamento mais intensivo. A maioria dos serviços interrompeu os atendimentos e alguns pacientes tiveram maior dificuldade para se adaptar ao atendimento online. A suspensão das aulas também foi um aspecto negativo adicional para esses pacientes, que possuem maior dificuldade de adaptação ao ensino à distância.

As famílias ficaram sobrecarregadas e o confinamento em casa também agravou quadros de ansiedade, comportamentos repetitivos e estereotipados, agitação psicomotora, dentre outros sintomas.

Entre as atividades recomendadas para a família estão jogos interativos, como Lego, jogos de vídeo-game ou internet e atividades de interesse específico do paciente que podem preencher o tempo ocioso.


Live História do Programa Entrelaços do IPUB/UFRJ

Nessa live a equipe do Programa Entrelaços conta todo o seu percurso, de quase 40 anos de experiência com famílias de pessoas com transtorno mental severo, como esquizofrenia e transtorno bipolar. A equipe desenvolve um trabalho pioneiro no Brasil que formou até o momento nove grupos comunitários e autônomos de ajuda-mútua no Rio de Janeiro, que ocorrem fora das instituições psiquiátricas e são conduzidos pelos próprios familiares e pacientes.

Conheça os referenciais teóricos e a metodologia que permitiram que esse trabalho frutificasse e formasse uma família cada vez mais coesa e atuante, propondo um novo olhar sobre a doença mental e desenvolvendo uma expertise própria para solucionar problemas, melhorar comunicação, habilidades e a qualidade de vida das famílias, contribuindo para uma melhor recuperação dos transtornos mentais.

https://www.youtube.com/watch?v=ddwkyfKQHTI


O que venho observando na minha clínica ao longo da pandemia da COVID-19: Abusos e compulsões.

Abusos de substâncias, como álcool, tabaco, drogas ilícitas, associados a compulsões das mais variadas formas, como por comida, compras, jogo, sexo, dentre outras, são transtornos que comumente afetam o comportamento das pessoas em situações difíceis como a que estamos vivendo pela pandemia da COVID-19.

O que há de comum nessas situações é a necessidade de buscar prazer e gratificação imediatas para aliviar o estresse, a frustração ou o fracasso que situações adversas podem gerar nas pessoas. Existem aspectos da personalidade e até mesmo genéticos e do funcionamento cognitivo que tornam pessoas mais suscetíveis aos transtornos de abuso de substâncias e às compulsões em situações como essa.

Um circuito cerebral que está intimamente ligado a esses comportamentos é o circuito de recompensa. Pessoas com susceptibilidade nesse sistema tornam-se facilmente “viciadas” no prazer e na recompensa que substâncias psicoativas e comportamentos compulsivos que geram prazer proporcionam. São situações que trazem a sensação imediata de prazer e satisfação e que provocam um comportamento recorrente de procura pelo objeto desejado com grande dificuldade de resistir a ele, tanto que o indivíduo não mede esforços e corre eventualmente riscos para se satisfazer.

Biologicamente o estímulo a esse sistema provoca uma liberação maciça do neurotransmissor chamado de dopamina, deixando o sistema de recompensa sensibilizado e constantemente à procura de novas descargas, motivo pelo qual o comportamento associado às compulsões seja tão difícil de frear.

Em situações adversas como a que vivemos, a necessidade dessas pessoas buscarem prazer pode aumentar e, na minha prática clínica, vem aumentando. Esse é um grupo de pessoas que também corre um risco maior de contrair o coronavirus, visto que as compulsões podem colocar a pessoa em situação de risco ao se expor ao vírus pelo comportamento de busca e pela impulsividade ao objeto de desejo, sem respeitar as medidas de proteção e distanciamento.

Abuso de substâncias e compulsão por álcool e drogas

Alguns pacientes em tratamento para dependência química tiveram recaídas do uso de drogas e isso inclui todas as substâncias, dentre elas o álcool. Outros que eram usuários recreativos passaram a usar a substância em maior quantidade e frequência e experimentaram prejuízos que antes não tinham, expondo-se a riscos psicossociais e de saúde, criando conflitos familiares e prejudicando-se financeiramente.

Estressores psicossociais concomitantes, como a quarentena prolongada, medo de perder o emprego, ansiedade em se contaminar com o vírus, reações de pânico e sintomas depressivos podem explicar o agravamento do uso de substâncias psicoativas, principalmente porque o abuso de substâncias costuma ser um ciclo vicioso que se retroalimenta: quando utilizadas de forma prolongada, as drogas provocam uma adaptação neuronal ao estresse e dos circuitos de recompensa que amplificam as respostas neuroendócrinas e da reatividade ao estresse de uma forma que agravam a fissura pela droga quando uma situação de estresse se instala.

Por outro lado, pessoas mais vulneráveis ao estresse também podem utilizar substâncias com características aditivas para amortecer seu sofrimento, o que contribui para o aumento do abuso e da dependência química na população. Existem alguns estudos que mostraram o aumento do consumo e da venda de bebidas alcoólicas e cigarros eletrônicos durante essa pandemia. O aumento do consumo de cigarros e bebidas em casa também representam um impacto negativo sobre as famílias, especialmente as crianças.

O abuso de medicamentos também é uma preocupação da pandemia, particularmente os medicamentos ansiolíticos e hipnóticos e os derivados de anfetamina, como os psicoestimulantes, como formas de atenuar os distúrbios de sono, a ansiedade e as compulsões alimentares, sem a prescrição médica adequada.

A falta do tratamento especializado, que na maioria das vezes envolve equipe multidisciplinar, terapia de família, terapia individual e em grupo, pode ter deixado alguns pacientes com dependência química desamparados e suscetíveis à recaídas. Grupos de AA e NA também interromperam suas atividades presenciais e, muito embora façam as reuniões online, o contato interpessoal, que costuma ser muito importante nesses casos, não pode ser mantido.

Alguns pacientes experimentaram o oposto: redução do consumo de drogas. Isso ocorreu num contexto de cumprimento do distanciamento social e pela ausência das influências dos amigos e das festas. Esses pacientes experimentaram sintomas de abstinência e alterações de humor, mas alguns aumentaram o consumo de outras substâncias, como álcool e calmantes.

O abuso de substâncias está intimamente relacionado a distúrbios de humor, como depressão e irritabilidade, comportamentos impulsivo-agressivos, abusos físicos e psicológicos em casa e maior risco de suicídio.

Compulsão alimentar

Pacientes com transtornos alimentares são sensíveis às situações que geram estresse e ansiedade e, com frequência, elas desencadeiam tanto episódios de restrição, p.ex. anorexia, como de abusos, p.ex. episódios de binge (ato compulsivo de comer, conhecido também como ataques de fome). A utilização de métodos purgativos, como indução de vômitos, abuso de laxantes ou excesso de exercícios físicos, também são comuns.

Na população geral a pandemia da COVID-19 também trouxe um interesse culinário adicional às famílias. Cozinhar se tornou um passa-tempo e também uma oportunidade de reunir as pessoas que vivem na mesma casa. Essa atividade é para a maioria das pessoas uma atividade prazerosa e saudável. Entretanto, estudos mostram que na população geral também estão ocorrendo comportamentos alimentares de restrição e binge, com consequências para o peso corporal e para a saúde de alguns. Os métodos purgativos, contudo, parecem ser menos frequentes na população geral do que em pessoas com transtornos alimentares clinicamente reconhecidos. O nível de atividades físicas também é menor na população geral do que na clínica, devido às medidas de isolamento do governo. A maioria das pessoas com mudanças no padrão de alimentação vem experimentando aumento da compulsão (binge) e menor atividade física, portanto, ganhando peso.

Compulsão por compras

Quem se utilizava da saída ao shopping para comprar alguma coisa viu na pandemia uma restrição. As pessoas que mantiveram seu poder aquisitivo tiveram menor oportunidade para comprar do que em situações normais. Algumas pessoas passaram a comprar através da internet e o que se viu foi também um exagero nas compras online, procurando compensar a falta de oportunidade de compras físicas. Entretanto, a internet ainda representa um limite às compras e a falta do contato interpessoal também reduz a avidez por comprar. Embora algumas pessoas tenham comprado a mais nessa pandemia, a presença física em lojas é um atrativo para as compras, que o e-commerce não consegue substituir.

Compulsão pelo jogo

O isolamento social tem sido um terreno fértil para diferentes comportamentos aditivos ou compulsivos envolvendo a internet e aparelhos eletrônicos, como computadores e celulares. Adolescentes e adultos jovens são os que têm maior risco de desenvolver dependência por jogos eletrônicos durante a pandemia da COVID-19, sendo comum o aumento expressivo das horas dedicadas à prática desses jogos, alguns passando até 10 horas imersos. A compulsão pelos jogos eletrônicos pode provocar distúrbios de sono, mudanças de humor e conflitos familiares.

Contudo, os jogos também podem ser uma forma de manter os vínculos sociais durante a pandemia, particularmente jogos online que permitem a interação entre os jogadores. Neste sentido, os jogos podem ser atenuadores do isolamento e da solidão que a quarentena impõe.

Discute-se muito a qualidade do que se acessa na internet e o tempo que se dedica a ela e me parece equivocado concluir que quanto maior o tempo de exposição, maior o prejuízo, particularmente numa situação como a que vivemos. Um jovem com um tempo maior em jogos eletrônicos ou mídias sociais pode estar melhor emocionalmente do que aquele que não acessa nenhum desses conteúdos, desde que ele tenha um relacionamento saudável e controlado com essas mídias. A tecnologia vem se mostrando uma grande aliada da pandemia, possibilitando o estreitamento dos laços sociais e me parece que a privação delas possa ser mais prejudicial do que o excesso, embora haja a necessidade de se avaliar caso a caso.

A compulsão pelo jogo de azar, também conhecido como jogo patológico, quando envolve apostas em dinheiro, também é um dos problemas que se agravou com a pandemia. O mercado clandestino de jogos parece não ter alterado sua rotina nessa pandemia, havendo pacientes que se expuseram para fazer suas apostas e se endividaram mais nesse período.

Compulsão por sexo

As pessoas que apresentavam compulsão por sexo passaram na epidemia a acessar mais conteúdos de pornografia pela internet. O mercado de sites de conteúdo adulto ficou aquecido nessa pandemia. Algumas pessoas ignoraram a pandemia e se expuseram fisicamente, assumindo o risco de se contaminarem com a COVID. Da mesma forma que em relação às drogas, houve um aumento da compulsão por sexo nessa pandemia. Um risco adicional nesses pacientes é contrair doenças sexualmente transmissíveis e não procurar o atendimento médico, por medo de se contaminar com a COVID, transmitindo adiante doenças para seus parceiros.

Tratamentos

Abuso de substâncias e comportamentos compulsivos têm complicações e podem precipitar ou agravar outros transtornos mentais, como depressão, transtornos de ansiedade e suicídio. Pessoas com comportamentos compulsivos precisam de apoio psicoterápico e tratamento médico e se beneficiam dessas abordagens, reduzindo o risco psicossocial, porém são transtornos de difícil adesão e comumente ficam sem tratamento adequado.

Essas pessoas estão num risco aumentado para a COVID e também para transtornos mentais decorrentes da pandemia e da quarentena, podem sofrer rupturas familiares e conjugais, que irão agravar seu estado de saúde e a compulsão, e podem ter problemas emocionais por um período maior, mesmo após cessada a pandemia.


O que venho observando na minha clínica ao longo da pandemia da COVID-19: Transtornos de Humor.

O humor é geralmente definido como nosso estado de espírito: bem humorado, mal humorado, alegre, ranzinza, rabugento, irritável, eufórico, dentre vários outros adjetivos que normalmente utilizamos para descrever a forma como alguém se apresenta para nós, como ele se relaciona em seu meio, com as pessoas à sua volta, com seu trabalho, seus compromissos, seu momento de lazer, sua família e tudo mais que o cerca.

Nosso humor pode variar e normalmente varia dependendo das situações que vivemos, dos problemas que enfrentamos e das pessoas com as quais convivemos. Extremos costumam, entretanto, apontar para distúrbios do humor ou estados patológicos, que podem ser passageiros, mas também duradouros. Como uma pessoa distímica ou com depressão crônica que dificilmente consegue se sentir alegre, mesmo diante de situações que fariam a maioria sair pulando de alegria, ou uma pessoa com mania (termo médico que define um estado de excitabilidade e euforia), que se comporta de forma inadequada e desinibida numa situação que para os outros é de tristeza e pesar.

Quando a marca não é a dissonância entre o humor e o contexto em que ele ocorre, a ciclicidade é a característica fundamental. Muitas pessoas com transtorno de humor podem não desenvolver episódios claramente depressivos ou maníacos, mas experimentam rápidas mudanças de humor em poucos dias ou até em questão de horas, que podem ter relação com fatores externos, mas também podem ocorrer sem uma razão aparente. Essas pessoas são rotuladas como hiperreativas, emocionalmente instáveis, de temperamento difícil, oito-ou-oitenta, dentre outros adjetivos em que a tonalidade afetiva é o aspecto central de sua personalidade.

O humor influencia muita coisa em nosso psiquismo. Pode jogar mais luz em pensamentos negativos e escuridão em pensamentos positivos, a ponto de não conseguirmos enxergar o lado bom das coisas ou ver as saídas para problemas que normalmente resolveríamos. Influencia nossas decisões, a capacidade de avaliarmos o ambiente, a nossa capacidade de monitoramento e regulação do próprio comportamento. Em situações extremas pode levar à perda do juízo crítico, criando uma desconexão entre a realidade e a fantasia, acarretando em delírios e alterando profundamente o comportamento.

Muitos argumentarão que casos extremos de humor são genéticos e só ocorrem sob influências biológicas. Porém, os transtornos de humor estão entre os transtornos psiquiátricos com maior reatividade ao meio e um dos que mais é influenciado pela história e pelo ambiente da pessoa. No caso da depressão isso fica patente, visto que grande parte dos indivíduos deprimidos assim se tornaram após perdas na família, desemprego, divórcio, desastres, dentre outros traumas. Na mania, que seria o extremo oposto, situações do meio também podem servir de gatilhos, embora a frequência de mania seja bem menor do que a da depressão na população geral. Enquanto até 25% da população pode experimentar um episódio depressivo na vida, até 7% terá um episódio de mania ou hipomania (mania mais leve).

A pandemia da COVID-19 trouxe uma realidade difícil que nunca antes tínhamos vivido. Já foi comparada à gripe espanhola do início do século passado e até mesmo às duas Grandes Guerras. São situações extremas, como grandes catástrofes naturais, que podem desencadear sofrimentos psíquicos sérios, dependendo das consequências na vida de cada um, como perda de pessoas queridas e próximas, declínio financeiro e social, sequelas de saúde e hospitalizações prolongadas.

A literatura médica já registrou aumento da incidência de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) em outras pandemias, como do Ebola, da SARS, MERS e H1N1, como já abordamos em artigo aqui no site (leia aqui). Embora o TEPT não seja classificado junto aos transtornos de humor, ele é um transtorno que pode acometer várias funções do psiquismo, como pensamento, humor, sensopercepção e cognição, tanto que alguns autores já se referiram a Transtorno de Humor Pós-traumático. São geralmente quadros graves e incapacitantes, em que a pessoa experimenta sintomas depressivos, ansiosos, disfóricos, fobias, problemas de relacionamento familiar e interpessoal, além da dificuldade para estudar, trabalhar e produzir.

Ainda é cedo para constatarmos um aumento de TEPT na atual pandemia, pois geralmente ele ocorre meses depois do evento estressor, mas já se pode constatar um aumento dos casos de reação aguda ao estresse, que vem acompanhada de muitas manifestações de humor, dentre elas ansiedade, depressão, irritabilidade e disforia. Um percentual pequeno desses casos poderá evoluir para um TEPT com o tempo, caso a exposição ao estresse permaneça, se a pessoa for mais vulnerável psicologicamente e não tiver um apoio social ou terapêutico nesse momento.

Tanto reações agudas ao estresse como oscilações frequêntes e manifestações diversas de humor têm sido frequentes em minha prática clínica durante a pandemia da COVID-19. A maioria já vinha em acompanhamento e experimentou uma recaída dos sintomas, sendo a depressão a manifestação mais comum. Outros pacientes apresentaram episódios de hipomania e mania, alguns necessitaram de hospitalização. Alterações mais leves, como depressão menos grave, maior ciclicidade (variação) de humor, com predomínio de irritabilidade e agitação, também estão sendo frequentes nesse período.

Os contextos individuais são muito diferentes, diria até que inespecíficos, embora a COVID-19 seja o fator gerador ou complicador de todos eles. Há casos de pessoas que se separaram da família, como dos filhos, e cujo afastamento e preocupação cobraram um custo elevado para sua estabilidade emocional. Há pessoas que perderam seus entes queridos e não puderam se despedir. Estudantes que estavam num momento decisivo, seja concluindo o ensino médio, iniciando uma faculdade ou concluindo seu curso de graduação, e viram seus sonhos adiados, frustrando-se por um ano quase perdido. Pessoas que perderam o emprego, empresários que precisaram demitir funcionários e viram seus negócios se arruinarem, presença de dificuldades financeiras para o sustento das famílias, dentre outros problemas de origem econômica. Pessoas que deixaram de contar com sua rede de apoio, seja um terapeuta, um médico, uma comunidade, como sua igreja, e passaram a lidar sozinhas com suas dores. Pessoas que já tinham uma relação familiar delicada e viram no excesso de convivência as tensões aumentarem, sofrendo diversas formas de abuso dentro de casa. Pessoas que adoeceram com a COVID e que foram hospitalizadas, algumas que perderam a esperança e viram a morte de perto numa UTI de hospital.

É difícil mensurar os impactos emocionais dessas diferentes situações, pois cada pessoa é única e terá uma capacidade individual de resiliência e superação. Muitas passarão por um período transitório de vulnerabilidade, precisarão de um apoio momentâneo para se reestruturar e se reerguer, já outros sucumbirão e irão necessitar de um apoio mais contínuo ao longo dos meses ou anos que virão.

As incertezas sobre os rumos dessa pandemia, a quarentena prolongada, a falta de suporte do sistema de saúde, em particular do sistema de saúde mental (leia sobre o apagão da saúde mental no Brasil), a baixa disponibilidade da rede de apoio ao sujeito, seja ela especializada ou social, como igrejas, ONG’s, grupos de pares e voluntários, a demora ou distribuição errática do auxílio emergencial, a marginalização das populações mais vulneráveis, dentre outras desigualdades e negligências são agravantes para esses transtornos.

Gostaria, por final, de comentar a respeito de duas situações relativas ao humor que creio teremos que nos debruçar no futuro pós-pandemia: o luto patológico e o suicídio.

A ausência de uma cerimônia de despedida ou a impossibilidade de velar o corpo de seu familiar pode dificultar a elaboração do luto, aumentando o risco de luto patológico ou mesmo depressão. Algumas pessoas precisarão de auxílio terapêutico para elaborar suas perdas e de apoio psicossocial para seguirem em frente com suas vidas.

Haverá possivelmente um aumento nas estatísticas de suicídio, pois já é possível observar ideias de suicídio em pessoas que antes da pandemia não apresentavam esses pensamentos. Oferecer apoio especializado e de prevenção serão fundamentais em todas as esferas, da saúde, da assistência social, da educação e da cidadania, através de um esforço conjunto multidisciplinar. O Brasil apresenta um alto índice de suicídios, aproximando-se de taxas verificadas em países mais desenvolvidos, segundo a OMS. Políticas públicas voltadas a essa população serão cada vez mais necessárias.

Reconhecer seus limites e ter a humildade de pedir ajuda são cruciais, visto que transtornos mentais costumam se agravar sem uma abordagem terapêutica, ainda mais em condições ambientais hostis como as que estamos vivendo.


O que venho observando na minha clínica ao longo da pandemia da COVID-19: Transtornos de Ansiedade.

Ansiedade é um dos sintomas mais comuns que sentimos em situações de estresse ou quando corremos algum perigo. Evolutivamente as reações de ansiedade estão ligadas a um conjunto de reações primitivas que a maioria dos animais apresentam quando estão em uma situação em que precisam fugir ou atacar como forma de defesa ou sobrevivência. Sem essas reações o ser vivo se tornaria presa fácil e, portanto, tenderia à extinção da espécie pelo mecanismo de seleção natural. Portanto, as reações de ansiedade são, até certo ponto, reações desejadas para a preservação da espécie. Ela é processada majoritariamente pelo sistema límbico, também conhecido como cérebro emocional, cuja função se faz presente até mesmo em mamíferos mais primitivos.

O problema é quando as reações de ansiedade são desproporcionais ou fora de contexto, soando como um “alarme falso” e desencadeando reações de medo e fuga que são mal adaptativas e, ao invés de produzirem proteção, produzem maior vulnerabilidade. É nesse contexto que surgem os transtornos de ansiedade.

O exemplo mais claro é a síndrome do pânico. A pessoa pode estar repousando na poltrona de sua casa, assistindo a um filme tranquilo ou a um concerto de música clássica, quando de repente seu coração acelera, sua respiração se torna ofegante e a pessoa tem a necessidade de fugir daquele local como se ali corresse perigo. Há uma clara dissonância entre as reações fisiológicas e o ambiente em que a pessoa se encontra naquele momento. Ela teve uma reação de fuga e perigo quando na realidade o ambiente era de tranquilidade e proteção. Seu sistema límbico disparou o sinal de perigo e desencadeou as reações de fuga e medo, sinalizando para o restante de seu cérebro e de seu corpo a situação de risco que não existia.

Numa situação de maior vulnerabilidade as chances de uma reação desse tipo aumentam. Muitas pessoas que experimentam ataques de pânico sabem que uma situação de vulnerabilidade, como estar em locais fechados ou com muita gente, pode desencadear uma crise, embora essas situações não desencadeiem crises de pânico em todas as pessoas.

Da mesma forma que um túnel fechado ou um elevador cheio, a pandemia não vai causar ansiedade em todas as pessoas, mas pode ser decisiva em causar ansiedade em algumas pessoas mais suscetíveis.

São muitos os casos de ansiedade que venho observando durante a pandemia pela COVID-19 na minha clínica. O que posso dizer em comum a todos eles é a existência de vulnerabilidade ou predisposição psíquica da pessoa antes mesmo do início da quarentena. Muitas vezes a pessoa nem vinha fazendo tratamento anteriormente, embora aqueles que já se tratavam experimentaram uma piora dos níveis de ansiedade, que antes vinham controlados.

Pensamentos

A manifestação mais comum de ansiedade tem sido na forma de pensamentos. Pensamentos repetitivos de que a pessoa pode se contaminar, que alguém da família pode adoecer e morrer ou que pode contaminar alguém da família e se culpar depois pela sua morte, dentre outros exemplos. Todos nós provavelmente já tivemos pensamentos como este, porém o que diferencia o pensamento de uma pessoa ansiosa para uma pessoa não-ansiosa é sua frequência, sua intensidade e a capacidade de tomar as reações do seu corpo e de seu comportamento.

Uma pessoa ansiosa nesse contexto de pandemia vai ter pensamentos recorrentes a ponto de causar angústia, medo exagerado ou mesmo desespero, atrapalhar o sono, diminuir ou aumentar o apetite, gerar comportamentos excessivos, como compulsões de limpeza ou verificação, medo exagerado ao ter contato com outras pessoas ou quando precisar sair à rua, e pode até levar a ideias de suicídio.

Essas reações de ansiedade levaram pesquisadores a cunharem o nome de “coronafobia”. O termo foi objeto de um editorial da revista “Journal of Anxiety Disorder” em fevereiro desse ano. Segundo o editorial, vários fatores de vulnerabilidade psicológica podem estar por trás da coronafobia, como diferenças individuais de intolerância às incertezas, maior percepção da vulnerabilidade às doenças e maior tendência à ansiedade e preocupações. Entre os fatores externos que podem amplificar essas reações estão a falta de informações ou a desinformação e a abordagem sensacionalista da pandemia por parte da mídia.

Uma carta publicada na edição de fevereiro da revista “Asian Journal of Psychiatry” traz a história de um homem na Índia, cidade de Andhra Pradesh, pai de três filhos, que estava obcecado por vídeos em que vítimas do COVID-19 na China eram forçadas a deixar suas casas para uma quarentena compulsória em função da sobrecarga nos hospitais. Após ele ter sido diagnosticado pelo seu médico com quadro gripal, que ele deliberadamente concluiu ser COVID, ele se isolou do restante da família numa espécie de auto-quarentena, atacando com pedradas as pessoas da família que tentavam se aproximar. Dias depois ele foi encontrado enforcado na casa que ocupava. Os autores da carta alertam para vídeos de cunho sensacionalista ou com conteúdo perturbador que podem ter efeitos devastadores em pessoas suscetíveis e sugerem algum tipo de regulação ou fiscalização desses conteúdos na internet.

O efeito que conteúdos da mídia podem ter em pessoas suscetíveis à maior ansiedade pela COVID-19 parece ser uma das causas para o aumento da ansiedade. Um estudo durante a pandemia de H1N1 em 2009 mostrou um aumento da procura por hospitais em Utah quando a epidemia ainda era um rumor, atingindo um volume de atendimento comparável ao período em que a pandemia de fato havia chegado.

Somatização

Pessoas mais ansiosas também ficam mais sensíveis a sensações corporais e podem desenvolver o que chamamos de somatização. Elas podem experimentar diferentes sintomas físicos, como dores, dormências, formigamentos, tonteiras, palpitações, dentre outros sintomas que são interpretados de forma equivocada como perigosos e que frequentemente levam a atendimentos em emergências hospitalares.

Elas podem interpretar um espirro ou uma tosse como sendo sintomas de COVID, aumentando sua ansiedade, influenciando suas decisões e impactando seu comportamento, aumentando a procura por hospitais por pessoas que não estão doentes e que podem se contaminar. O contrário também pode ocorrer, pessoas que de fato tem problemas de saúde e precisam de atendimento, mas que, pela ansiedade e medo de se contaminar, deixam de procurar ajuda médica, correndo um risco maior de adoecer em casa.

Influência da ansiedade nas medidas de proteção

A ansiedade também parece influenciar o quanto as pessoas se previnem da infecção através de medidas como uso de máscara, lavagens das mãos e distanciamento social. Na pandemia por H1N1 pessoas que se viam num risco baixo de infecção eram mais propensas a lavar menos as mãos e a não se vacinarem do que as pessoas mais preocupadas e ansiosas. Essas pessoas também respeitavam menos as medidas de distanciamento social e eram mais resistentes às mudanças de comportamento, prejudicando os esforços de mitigar a propagação do vírus.

A ansiedade parece mediar a forma como nos relacionamos com o nosso meio, com maior ou menor exposição a fatores de risco. Isso inclui a procura por informações. Pessoas mais ansiosas podem buscar mais informações sobre a pandemia ou se engajar em buscas compulsivas por conteúdos, muitas vezes aversivos, que aprofundam seus temores e agravam sua ansiedade, mesmo sem se dar conta desse processo.

Algumas pessoas que atendi em crises de ansiedade durante a pandemia da COVID-19 estavam imersas nos noticiários e conteúdos da internet sobre a epidemia. Esse ambiente era tanto causador como consequência do seu estado de ansiedade, pois pessoas mais ansiosas tendem a se alimentar mais desses conteúdos como forma de estarem mais atualizadas e poderem se precaver melhor. É um ciclo vicioso em que o medo alimenta a ansiedade, que por sua vez alimenta o medo.

Voltando à dinâmica da síndrome do pânico, que é um bom protótipo para compreendermos os transtornos de ansiedade, as sensações físicas servem de alerta para informar o “perigo” ao cérebro, que por sua vez amplifica as reações de pânico, acentuando as sensações físicas e retroalimentando o medo e a ansiedade. Romper esse ciclo é fundamental para reduzir a ansiedade. Da mesma forma, afastar-se daquilo que amplifica e retroalimenta o medo da COVID-19 é crucial para aliviar a ansiedade relacionada à pandemia.

Alguns fatores podem ser protetores. Uma rede social de apoio, hábitos saudáveis de vida, uma rotina equilibrada com atividades físicas e boa alimentação, bom hábito de sono, técnicas de relaxamento e controle da ansiedade, um ambiente tolerante e acolhedor em casa, todos ajudam no controle da ansiedade. E para aqueles que estão experimentando maior ansiedade nesse momento é fundamental procurar ajuda psicológica e médica e não “empurrar com a barriga” a ansiedade para depois da quarentena. A ansiedade nesse momento pode ser um fator de risco para depressão e transtorno de estresse pós-traumático no futuro, como veremos em outros artigos.


O que venho observando na minha clínica ao longo da pandemia da COVID-19: Distúrbios do sono.

Essa é a principal queixa de saúde mental desta pandemia. São muitos os pacientes que vem apresentando agravamento do seu sono, sem que medicamentos que faziam uso no passado sejam suficientes neste momento, como também pacientes que não tinham problemas de sono e passaram a apresentar insônia, pesadelos, sonhos vívidos, dentre outras manifestações.

Existem muitas explicações para isso. A principal delas são as preocupações que essa pandemia trouxe. Medo de se contaminar ou de contaminar pessoas da família, receio de que alguém da família que faça parte do grupo de risco apresente uma forma grave da doença, medo de precisar ser hospitalizado, dentre outras preocupações.

A mudança da rotina é outro fator ligado diretamente às queixas de sono. Muitos passaram a trabalhar em esquema de home-office, a maioria está com os filhos em idade escolar em casa, muitos dispensaram funcionários que ajudavam na organização da casa. Houve um acúmulo de tarefas e obrigações, sem que houvesse válvulas de escape. Muitos deixaram de fazer atividades físicas, isso sem falar da falta de uma vida social. A simples ida ao trabalho também era para muitos um momento para colocar em dia leituras ou refletir sobre as obrigações daquele dia. É comum que as pessoas se queixem da falta de tempo, apesar do maior tempo em casa. A mudança da rotina ou a falta dela pode ser um agravante para o sono. Não ter um horário fixo para dormir ou acordar ou extrapolar em reuniões de trabalho além do horário comercial pode atrapalhar os ritmos circadianos.

Isso sem mencionar aqueles que tiveram seu trabalho/salário reduzido ou perderam o emprego, com consequências para a saúde financeira da família. A preocupação financeira tem sido a grande companheira da preocupação com a contaminação pelo vírus. A falta de perspectiva quanto ao tempo de quarentena, o desencontro de informações do poder público, a falta de transparência nos dados da pandemia, a demora no auxílio financeiro do governo aos trabalhadores e empresas, a expectativa de recessão da economia, todos esses fatores contribuem para a piora do padrão do sono.

Alguns problemas ficarão após a pandemia. Houve um aumento substancial da venda de hipnóticos e sedativos, e muitos conseguiram comprar medicamentos sem receita ou por um prazo até 3 vezes superior do que em situação normal, pois as farmácias passaram a oferecer mais caixas de medicamentos por receita médica. A automedicação ou o aumento da dose para aqueles que já faziam uso de medicamentos sem uma orientação médica trará consequências futuras para a saúde de muitos pacientes. A maioria desses medicamentos pode causar dependência química, é artificial para o sono e deixa a pessoa com cansaço e problemas de memória no dia seguinte.

É desnecessário dizer que toda pessoa que utiliza remédios para dormir deve se consultar com seu médico antes de aumentar a dose e aquelas que estão com dificuldade para dormir devem procurar um atendimento especializado e não cair na tentação de se automedicar.

Um aspecto que abordaremos melhor em outro artigo é o abuso de substâncias, principalmente o álcool, que prejudica muito o sono. Tem sido comum o aumento do consumo de bebidas alcoólicas nessa pandemia e muitas vezes isso está diretamente relacionado à piora do sono.

Existem algumas alternativas alopáticas e fitoterápicas que podem ser utilizadas sem risco de dependência ou problemas residuais diurnos, como cansaço e falta de memória. A pessoa deve também organizar sua rotina, estabelecer horários mais fixos para dormir e acordar, fazer uma atividade física em casa, manter boa alimentação e hidratação e buscar apoio para lidar melhor com suas preocupações, seja através de um profissional especializado ou técnicas de relaxamento, como yoga e meditação. Atividades lúdicas em família e contatos sociais por aplicativos de videoconferência também ajudam muito a aliviar as tensões desse momento.

Dosar a quantidade de notícias e o tempo de exposição aos telejornais são cruciais, visto que cada um tem uma tolerância limitada e o excesso de notícias sobre a pandemia pode aumentar os níveis de tensão e sofrimento emocional, agravando mais o sono.

Consequências futuras para o pós-pandemia

- Maior número de pessoas dependentes de sedativos e hipnóticos.
- Maior número de pessoas abusando de sedativos e hipnóticos, particularmente das classes das benzodiazepinas (Rivotril, Frontal e outros) e afins (como Zolpidem).
- Maior número de pessoas sofrendo as consequências do mau uso de medicamentos para dormir, como problemas de memória, concentração, indisposição e perda da produtividade.
- Maior adoecimento da população, pois distúrbios de sono são fatores de risco para depressão, outros transtornos de humor, abuso de substâncias, doenças cardíacas, dentre outras.