Planos de saúde: após acordo para fim dos cancelamentos, entenda o que as operadoras esperam para restabelecer contratos

O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), anunciou nesta terça-feira (dia 28) que fechou um acordo com operadoras de planos de saúde para que elas suspendam cancelamentos unilaterais de contratos recentes de usuários em tratamento. Nos últimos meses, aumentaram as queixas referentes a rescisões anunciadas pelas operadoras e que afetam usuários com doenças como câncer ou com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Aqui no site publicamos que contratos de pacientes com esquizofrenia em tratamento com Palmitato de Paliperidona (medicação injetável de alto custo para tratamento contínuo da esquizofrenia) também estavam sendo cancelados.

Apenas pacientes internados, em ciclo de terapia de câncer ou com transtorno do espectro autista (TEA) e transtornos globais do desenvolvimento (TGD) não terão os planos cancelados unilateralmente pelas operadoras de saúde , dentro do que ficou acordado entre o setor e o presidente da Câmara dos Deputados.

Documento interno da Abramge (Associação Brasileira de Planos de Saúde) ao qual O Globo teve acesso não especifica, contudo, quanto tempo durará a suspensão dos cancelamentos por parte dos planos. O Congresso também deve rever a lei dos planos de saúde, particularmente os coletivos, que hoje compõem 80% das carteiras e que não são contemplados pela lei que regulamenta os planos individuais e familiares.

Enquanto essas condições não são revistas e regulamentadas, é esperado um crescimento da judicialização contra os cancelamentos. No tocante à esquizofrenia, por exemplo, enquanto transtorno do neurodesenvolvimento (da mesma forma que o autismo), não se justifica a sua exclusão da lista de cancelamentos, pois isso é um tratamento desigual e que não se ampara em justificativas legais e científicas. Se o critério adotado é considerar transtornos do desenvolvimento, como TEA e TGD, a esquizofrenia, sendo também um transtorno do desenvolvimento cerebral, deveria ser também contemplada.

Fonte: com informações do Extra e de O Globo (30/05/24)


Depoimento: Esquizofrenia, anulando uma ‘sentença de morte’

Para o nosso terceiro blog ‘Journeys in Mental Health’ no Dia Mundial da Esquizofrenia, a PLOS Mental Health ouve sobre os desafios e o estigma enfrentados pelo nosso colaborador quando foram diagnosticados com Esquizofrenia e como mudaram a narrativa da sua vida para encontrar um novo propósito.

Esquizofrenia, anulando uma ‘sentença de morte’

Fui diagnosticado com esquizofrenia numa época em que a saúde mental era um tema envolto em silêncio e evitação, e o termo “esquizofrenia” evocava imagens chocantes nas mentes das pessoas, desde cenas de crimes violentos até indivíduos vagando sem rumo, gritando, sem-teto e imprevisível. Esta representação visual que foi criada na imaginação das pessoas ilustrou os equívocos e o estigma associados à doença e, para mim, foi assim que fui percebido por aqueles que sabiam do meu diagnóstico. Estes estereótipos levaram-me ao isolamento e à sensação de medo, enquanto lutava com as implicações do meu diagnóstico e recebi um prognóstico que considerei comparável a uma sentença de morte. O meu futuro foi determinado pelos profissionais e por quem se sentiu obrigado a partilhar as suas opiniões (certas ou erradas), embora com boas intenções. No entanto, o foco deles estava fixado no que eu não poderia fazer e no que nunca alcançaria como resultado do meu diagnóstico. Eu me encontrei em um estado de impotência e incerteza sobre o propósito da minha vida.

Um futuro condenado e a tentativa de entender os sintomas pelos quais fui diagnosticado já eram bastante angustiantes por si só, mas agravados pelo estigma, pela discriminação e pela ignorância, tornaram-se profundamente destrutivos. A extensão deste impacto levou a múltiplas internações em instituições psiquiátricas e a cuidados involuntários, o que me expôs ainda mais a uma série de violações dos direitos humanos, incluindo condições precárias nestas instalações semelhantes a prisões que, ironicamente, se destinavam a promover e apoiar o meu bem-estar.

Naquela época, a noção de recuperação era considerada inatingível e as condições de saúde mental, especialmente a esquizofrenia, eram mais frequentemente vistas como inerentemente duradouras e tornando tal pessoa incapaz de funcionar na sociedade, e muito menos de prosperar na vida. A perda da tomada de decisões foi frequentemente o aspecto inicial da humanidade eliminado, juntamente com a consequente perda de dignidade. Era como uma “sentença de morte” e parecia que o que estava por vir eram apenas dias intermináveis ​​de espera pelo dia da “execução”.

Então cheguei à conclusão de que, apesar de tudo isso, não falei, não expressei meus pontos de vista ou escolhas, fui deixado de fora da decisão do que quero da minha vida. Fiquei decepcionado e com raiva de mim mesmo por aceitar o destino que me foi dado sem interrogar a 'sentença' que recebi ou defender o que defendia e por permitir que outros me definissem por um diagnóstico e não como pessoa.

Fiquei determinado a transformar a minha vida e anular a minha “sentença de morte”, e assim despertei um novo propósito na minha vida para ajudar a inspirar outros a encontrar o valor nas suas experiências. Após esta descoberta, a esquizofrenia não significa necessariamente o fim de uma jornada, mas sim o início de novas possibilidades e oportunidades. Pude imaginar como, não só a minha própria jornada com uma condição de saúde mental, mas a de muitos outros, poderia mudar as narrativas de tantos dos nossos pares em todo o mundo, especialmente aqueles que vivem com esquizofrenia, através da contribuição da nossa experiência vivida e experiência na criação de sistemas eficazes , serviços e melhores perspectivas de recuperação para todos os que lutam com problemas de saúde mental.

Hoje, estou grato pelos avanços alcançados na ciência e na medicina que permitem novas descobertas e abordagens no domínio da saúde mental e da esquizofrenia, bem como pelo maior envolvimento das pessoas com problemas de saúde mental e das suas famílias e cuidadores no seu próprio tratamento. Isto produz resultados positivos, gera esperança e proporciona às pessoas com problemas de saúde mental o direito à qualidade de vida.

Fonte: Plos Mental Health


Dia 24 de Maio: Dia da Conscientização sobre a Esquizofrenia

Pelo sétimo ano seguido comemora-se o dia 24 de Maio como o Dia da Conscientização da Esquizofrenia no Brasil. Vários estados, inclusive o Rio de Janeiro, se juntaram em torno desta causa para lembrar a sociedade sobre a importância da informação e de conhecer a doença. A data também é comemorada internacionalmente por outros países.

O objetivo desse dia é chamar a atenção para a esquizofrenia, uma doença cercada de estigmas, tabus e muito preconceito, que afeta até 1% da população brasileira e envolve toda a família, que necessita de muita informação e apoio para lidar da melhor maneira possível com a doença.

A informação e o debate em torno da doença são fundamentais no combate ao estigma e ao preconceito que existe na sociedade e também auxiliam pacientes e familiares na busca de melhores condições de saúde e qualidade de vida.

Compreender a esquizofrenia e o papel da família como parceira do cuidado possibilitam resolver melhor os conflitos, expandir mais a rede social de suporte, desfocar da doença e focar na pessoa e auxiliá-la nos desafios e obstáculos da vida para além dos efeitos da doença mental.

Maior conscientização ajuda na adesão aos tratamentos médicos e psicossociais, no combate ao auto-estigma (vergonha que a própria pessoa tem por ter sido diagnosticada com a doença), numa postura mais altiva e otimista diante dos sintomas e das dificuldades, aumentando a esperança na recuperação e promovendo maior autodeterminação na busca por dias melhores e pela superação das dificuldades.

A união de todos os envolvidos no processo de cuidado, como pacientes, familiares e profissionais de saúde, através dos serviços, de movimentos sociais e associações de pacientes e familiares, é a chave na busca de melhores condições de atendimento, de direitos e de cidadania. Juntos é a melhor forma de combatermos o estigma!

Aproveitem a semana de 24 a 31 de Maio para conversar sobre a esquizofrenia, compartilhar lives, depoimentos e mensagens em suas redes sociais, divulgar a informação entre amigos e familiares e em sua comunidade, e passar a ideia de que a esquizofrenia tem tratamento e as pessoas conseguem se recuperar e levar uma vida digna e satisfatória como qualquer outra pessoa.

Abaixo algumas mensagens que podem ser repassadas em suas redes sociais:

#Diga não ao adjetivo “esquizofrênico”. A esquizofrenia não define quem a pessoa é, é tão somente uma doença, que tem tratamento e afeta apenas uma parte do psiquismo de uma pessoa.

#Pessoas com esquizofrenia não são perigosas, pelo contrário, são com maior frequência vítimas de violência.

#O estigma e a desinformação sobre a esquizofrenia são os principais obstáculos à recuperação, tanto para pacientes como para familiares.

#A liberdade das pessoas com esquizofrenia é urgente e necessária, para que sejam sujeitos livres na sociedade, com seus direitos e sua livre circulação garantidos como todo cidadão comum.

#A esquizofrenia requer tratamento multidisciplinar através de uma atenção comunitária, com tratamentos próximos às suas residências e articulados com outros setores, como educação, esporte, cultura, lazer e trabalho.

#Pessoas com esquizofrenia têm maior risco de morrer por outras doenças físicas e muitas vezes são discriminadas em hospitais gerais e postos de saúde. Diga não ao preconceito que existe na saúde!

#Toda pessoa com esquizofrenia tem direito e capacidade de se recuperar da doença. Ela precisa de apoio, legitimidade, voz, escuta e respeito.

#Diga não ao uso da palavra esquizofrenia quando ela não se refere à doença. Esquizofrenia não serve para adjetivar nada. É tão somente uma doença. O termo esquizofrenia quando mal empregado reforça o estigma e o preconceito.

#Diga não aos abusos a pessoas com esquizofrenia, como cerceamento à sua livre circulação pelo território, encarceramento, restrição de direitos civis e humanos.

Veja também: https://leonardopalmeira.com.br/oms-lanca-documento-a-favor-dos-direitos-humanos-e-contra-as-medidas-coercitivas-na-saude-mental/


AMIL cancela de forma unilateral planos de pessoas com deficiência

Em nota a empresa afirma que beneficiários nessas condições continuarão recebendo a cobertura e que este não seria o caso de 98% dos cancelamentos. Então cabe o questionamento: por que a empresa cancelou contratos de pessoas com doenças raras, dentre elas pessoas com autismo e esquizofrenia? Pessoas que precisam do tratamento regular para a manutenção de suas condições de vida! Leia a reportagem do site Metrópoles.

Recentemente, uma decisão da operadora de planos de saúde Amil de cancelar milhares de contratos coletivos por adesão, de forma unilateral, vem causando grande mobilização social e ações judiciais. Contratos em geral vêm sendo impactados com a decisão, entre eles os de pacientes com ou sem deficiência. A cobertura da assistência médica vai até o dia 31 do mês de maio.

A Amil confirma o cancelamento devido ao desequilíbrio econômico e financeiro dos conjuntos de contratos. “A decisão se deve ao fato de que tais contratos, negociados por administradoras de benefícios diretamente com entidades de classe, com intermediação de corretoras, apresentam há vários anos situação de desequilíbrio extremo entre receita e despesa, a ponto de não vermos a possibilidade de reajuste exequível para corrigir esse grave problema”, informa, por meio de nota.

A lei dos planos, em modo geral, permite que ocorra a suspensão do contrato de saúde, em que as empresas precisam notificar os consumidores com 60 dias de antecedência, ou conforme a exigência de notificação prévio ao contratante. Conforme o Supremo Tribunal De Justiça (STJ), os planos de saúde coletivos não podem ser cancelados, de forma unilateral, enquanto o paciente estiver em tratamento de doença grave.

“Enfatizamos que a medida não tem nenhuma relação com demandas médicas ou quaisquer tratamentos específicos, uma vez que mais de 98% das pessoas envolvidas não estão internadas ou submetidas a tratamento médico garantidor de sua sobrevivência ou de sua incolumidade física. Beneficiários em tais condições continuarão recebendo cobertura da Amil para os cuidados assistenciais prescritos até a efetiva alta, conforme os critérios e normativas estabelecidos”, aponta a Amil.

“Diante desse quadro, as pessoas envolvidas têm direito legal à portabilidade para manter suas coberturas, sem a obrigatoriedade de cumprir novamente prazos de carência, com suporte de suas respectivas entidades de classe, administradoras de benefícios e corretoras, conforme a regulamentação da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS)”, conclui a empresa Amil em nota divulgada.


Depoimento de jovem viciado em 'vape' revela a gravidade da dependência de cigarros eletrônicos

Eu comecei a fumar cigarro branco quando tinha por volta de 14 anos, hoje tenho 23. Era um cigarro avulso, o que cresceu para no máximo três por dia até que, com 16 anos, eu já fumava uns 10 cigarros diariamente. Com 17, fiz um intercâmbio para os Estados Unidos, durante o último ano do Ensino Médio. Foi em 2017, bem na época em que estava crescendo muito o consumo dos cigarros eletrônicos por lá, já era uma febre.

Nas escolas era muito comum, porque ele não deixa cheiro nem rastro. Algo que me impedia de fumar ainda mais era justamente o cheiro que ficava nas mãos, no cabelo, nas roupas. O vape apareceu como uma “solução” para esses problemas. Ele é muito mais fácil de utilizar em qualquer espaço. Se você prender o vapor por um tempo, por exemplo, ele até some. Então muitas pessoas usavam até nas salas de aula ou escondidas no banheiro.

Foi quando comecei a usar o cigarro eletrônico e a ter um contato ainda maior com a nicotina. Era um fácil acesso e fácil consumo que me deixou viciado na época. Comecei a fumar entre as aulas, passou a ser algo constante. E progrediu muito rápido, assim como foi com todas as pessoas que eu conheço que também usam ou usaram vape. Os fabricantes fazem justamente para ser atrativo: é colorido, com gosto de fruta, é mais tranquilo e saboroso do que o cigarro convencional.

Eu comecei a perceber que se tornou um problema quando não conseguia ficar 30 minutos sem fumar. Nessa época, há cerca de dois anos, eu estava viajando para um evento com um amigo, e ele me contou que eu acordava no meio da noite para fumar, e eu não me lembrava. Meu corpo estava acordando sozinho para sustentar esse vício, eu fiquei em choque naquele momento. Comecei a acompanhar meu sono e vi que ele de fato tinha piorado muito.

Essa questão do “parar de fumar” acho que é algo que todo fumante sabe que em algum momento vai precisar fazer, porque sabe que é prejudicial. Desde aquele momento eu sabia que precisava parar, mas o estalo mesmo veio no meio do ano passado, quando percebi que estava muito afetado psicologicamente. Estava me afundando em depressão, vivendo de forma muito infeliz. E, analisando o que me deixava daquele jeito, uma das coisas era o cigarro.

Eu não cheguei a ter problemas pulmonares, na laringe ou na boca, nada. Os efeitos maiores foram os psicológicos. Mas uma amiga minha, por exemplo, precisou ir para o hospital depois de sofrer um derrame pleural por causa do vape. Então, se eu não tivesse parado, sabia que também podia acabar no hospital, já que fumava há nove anos.

Eu consumia 50 mg de nicotina por dia com os aparelhos, então foi e está sendo uma luta muito grande. No primeiro dia, quando parei de vez, surtei completamente, fiquei muito mal. O que tem me ajudado são os chicletes de nicotina, para ir reduzindo gradualmente essa dependência, e o acompanhamento psiquiátrico.

É muito uma questão de hábito, você estar ali sempre com o vape do lado, fumando, isso é difícil de desconstruir. Mas beber bastante água e mascar chiclete, mesmo sem nicotina, tem me ajudado também a lidar com essa ansiedade. Exercícios físicos, estar com minha família, sair, atividades que me dão prazer também.

Os piores momentos são depois de comer e ao acordar. Eu já faço tratamento para outras questões psiquiátricas, então o álcool é algo que eu cortei da minha vida há um tempo. Nesse ano, voltei a beber, mas de vez em quando e menos de uma taça, mais para degustar porque gosto muito de gastronomia. Porém, na primeira vez que bebi depois de ter parado de fumar, vi que é algo que de fato aumenta a vontade, então tenho evitado também.

Quando decidi parar de fumar, por sempre gostar de usar minhas redes para ter uma influência positiva, também quis criar um projeto que incentivasse outras pessoas a tomarem a mesma decisão. Acho que para mim foi fundamental a decisão individual e também firmar esse compromisso público. Porque isso te dá uma rede de apoio, e o que eu quis foi criar uma rede que também ajudasse outras pessoas.

Com isso, surgiu a hashtag #semnicotina no TikTok, em que as pessoas também postam sobre suas experiências parando de fumar. E falar sobre isso nas redes também me ajuda. Querendo ou não, me coloca essa “obrigação” de dar o exemplo, o que para mim tem sido muito bom. E esse compromisso público eu acredito que não seja algo que apenas influenciadores possam fazer. Tem a ver com compartilhar com pessoas próximas sua decisão para que elas te ajudem.

Por volta de três semanas depois de termos começado, fui a uma faculdade aqui em São Paulo dar uma palestra, e muitas pessoas conheciam a hashtag e disseram ter começado a parar de fumar por causa dela. Tenho recebido mensagens de médicos, psiquiatras, pneumologistas que viram a campanha, então o resultado é muito positivo.

Mas acho que ainda falta muita informação. O vape é de fato algo construído para chamar a atenção de crianças e adolescentes. Tem dispositivos com tela touch screen, com fidget spinner, coloridos. Chegou a um nível em que é escancarado que o público dessas empresas é esse. E adolescente não pesquisa sobre as coisas, nós sabemos disso. Quando a gente é mais novo, queremos experimentar o mundo e não ligamos tanto para as consequências.

Então falta ainda que as informações corretas cheguem aos mais jovens e sejam compartilhadas em massa. A divulgação dessas informações, dos riscos, não tem sido feita de forma efetiva. Falta uma linguagem mais jovem e dentro das escolas.

Recebi muitas mensagens de colégios, por exemplo, relatando a situação caótica dentro deles, contando que de fato há um número absurdo de adolescentes fumando, inclusive dentro de sala de aula.

Por um período, a impressão era que estávamos entrando numa geração mais saudável, era comum ver vídeos de adolescentes fazendo mais esportes, mais preocupados. Mas acho que isso encontra uma barreira no vape. Porque tem muitos jovens que de fato pensam na saúde, muito pelo físico, mas muitos acabam fumando e não percebem que o vape afeta isso.

Fonte: Gustavo Foganoli, 23 anos, fala do processo de deixar os aparelhos e a iniciativa #semnicotina, em que compartilha a experiência com seus 5,5 milhões de seguidores. Depoimento divulgado pelo O Globo (22/05/24)


RS precisará de mutirão pela saúde mental

A tragédia no Rio Grande do Sul é a maior de sua história, superando as chuvas e enchentes de 1941. O número de mortos e desabrigados e a lista de municípios afetados, mais de 400, demonstram o tamanho do problema e dos desafios que ainda estão por vir para reconstruir o que foi destruído e para prevenir futuros desastres naturais.

Que o clima e o meio ambiente estão em crise não restam dúvidas. Somente os negacionistas se agarram ao argumento de que catástrofes naturais acontecem de tempos em tempos. As temperaturas dos oceanos e da terra vem aumentando sistematicamente e isso altera o clima no planeta, com maiores chances de eventos climáticos extremos.

Ignorar os efeitos do problema ambiental na psique das pessoas é uma visão míope para quem não percebe a integração do ser humano com o meio ambiente. O ar que respira, a água que bebe, o alimento que come, a terra em que mora, enfim, o antropoceno parece ter feito o ser humano ignorar a importância do planeta, sem o qual ele próprio não existe.

A falta de políticas de preservação ambiental e prevenção de catástrofes naturais e a exploração dos recursos, como a água, os mananciais, as florestas e os rios, estão na origem desses problemas. O sucateamento dos órgãos estaduais que cuidam do meio ambiente, a falta de investimento nas tecnologias que poderiam mitigar os efeitos da chuva e das cheias dos rios, o assoreamento dos leitos também contribuíram para o resultado da catástrofe que os gaúchos estão vivendo.

Milhares de pessoas perderam tudo: casas, bens, objetos pessoais, recordações familiares, animais de estimação e, alguns, perderam inclusive parentes. São muitas perdas e graves. É como se as pessoas ficassem sem chão, literalmente. Além das privações, como falta de água, comida, roupas, medicamentos, utensílios básicos. Pessoas que não poderão trabalhar e ganhar seu sustento, que terão que viver em abrigos e com ajuda do governo, que sabemos ser muito distante do que pode ser considerado digno.

Isso tudo tem consequências dramáticas para a saúde mental das pessoas, é vivenciado de forma traumática, e as incertezas e a insegurança de não saber quando poderá voltar a uma vida normal é ainda mais desolador. A possibilidade de perda do contato com o seu território, já que muitas regiões correm o risco de se tornarem inviáveis para habitação, é algo que impacta muito a saúde mental: a memória do território, as pessoas com as quais se relacionam, o local de trabalho, são muitas variáveis estruturantes da subjetividade dessas pessoas.

Não precisa ser um especialista para prever que o Rio Grande do Sul viverá anos com incidência maior de quadros de ansiedade, depressão, estresse pós-traumático, abuso de substâncias, auto-lesões e suicídios. O governo precisará organizar um mutirão para avaliar e tratar a saúde mental dos gaúchos nos próximos meses e anos, num período recém saído da pandemia, da qual mal se recuperaram.

Vamos ajudar a população gaúcha! Contribua com qualquer valor para as organizações de ajuda humanitária. Acesse https://educacao.rs.gov.br/governo-ativa-canais-para-receber-doacoes-via-pix-para-auxilio-as-vitimas-das-enchentes


Quando humor é uma questão de pensamento

Na psiquiatria existe historicamente uma dicotomia entre humor e pensamento. Transtornos de humor, como o transtorno bipolar, são geralmente desordens do humor (p.ex. depressão, mania), enquanto as psicoses primárias, como a esquizofrenia, são desordens do pensamento (p.ex. delírios, pensamento confuso, desorganizado).

Emil Kraepelin foi o primeiro a fazer essa distinção quando separou a Doença Maníaco-Depressiva da Demência Precoce, mais tarde chamada por Bleuler de Esquizofrenia (mente/pensamento cindido, significado do termo em grego).

Historicamente os tratamentos médicos também possuem origens distintas para os diferentes transtornos, de humor e esquizofrenia. Enquanto estabilizadores de humor são preconizados para o transtorno bipolar, os antipsicóticos são indicados no tratamento da esquizofrenia. Com a descoberta dos antipsicóticos atípicos ou de segunda geração nos anos 90, por sua atuação em receptores de dopamina e serotonina, eles passaram a ter indicação também no tratamento da depressão e do transtorno bipolar, como é o caso, principalmente, da Quetiapina, do Aripiprazol, do Brexpiprazol e da Lurasidona.

Mas porque é interessante problematizar essa questão da tradição da psiquiatria em separar humor e pensamento?

Não somente por questões terapêuticas, mas principalmente por questões diagnósticas. Quem acompanha o blog já conhece minha área de interesse na esquizofrenia e nos transtornos de humor, como a depressão e a bipolaridade. Já escrevi aqui sobre Estados Mistos e Depressão que não melhora com antidepressivos.

Desta vez decidi focar nesses dois aparentes polos psicopatológicos: humor e pensamento. Talvez fique mais claro para pessoas com sofrimento mental e familiares abordar dessa forma. Meu objetivo é auxiliá-los na compreensão, principalmente quando o tratamento que fazem não surtem o efeito esperado.

Kraepelin já chamava atenção para formas de Transtorno Bipolar em que humor e pensamento estariam em sentido contrário: humor deprimido e pensamento acelerado, confuso ou repetitivo. Mas isso parece ter sido esquecido ou pouco valorizado por pesquisadores que o sucederam e valorizaram mais as formas clássicas de mania (humor e pensamentos exacerbados) e de depressão (humor e pensamentos rebaixados), com humor e pensamento num mesmo sentido. Outro ponto que traz confusão diagnóstica é o diagnóstico do TOC, que se apresenta com alterações de pensamento (obsessões) e de humor (ansiedade que geram compulsões ou mesmo depressão). Na época de Kraepelin este diagnóstico não fazia parte de sua nosologia.

Você já deve estar percebendo aonde quero chegar… imaginemos uma pessoa deprimida, portanto, com humor rebaixado, deprimido, com muita tristeza e angústia. Ela se queixa de uma mente que não pára de pensar, com muitos pensamentos confusos e repetitivos, por exemplo, com pensamentos negativos envolvendo tragédia de familiares (“fico imaginando o que seria de mim se meu filho morresse num acidente”, p.ex.). Esse quadro também gera muito cansaço, sono exacerbado e baixa de energia, além de muita ansiedade.

Seria esse quadro mais provável numa depressão, num transtorno bipolar tipo misto ou num TOC com depressão. Claro que outros elementos clínicos, sociais e familiares serão importantes para um diagnóstico. Mas aqui o objetivo é considerar alternativas pensando nessa relação não-dicotômica entre humor e pensamento.

Um dos aspectos é que pensamentos repetitivos, confusos, intrusivos, com conteúdos negativos são torturantes. E quando isso foge ao controle da pessoa, gera angústia, depressão, cansaço e desespero (as vezes pacientes relatam sensação de enlouquecimento). Isto é, pensamentos deste tipo podem gerar distúrbios de humor e vice-versa (e não somente humor alterando pensamento como tradicionalmente se acredita).

Somemos a este quadro um fato terapêutico relevante: essa pessoa já fez uso de diversos antidepressivos, melhorava no início, mas parava de responder. Ao contrário, na sua percepção, com o passar do tempo o quadro piorou, está mais deprimida, irritável, intolerante, cansada e com muitos pensamentos repetitivos e intrusivos. Já teve também diferentes diagnósticos ao longo do tempo: depressão, TOC, TAG (transtorno de ansiedade generalizada), TDAH e depressão resistente.

Porque escrevo sobre isso? Porque quadros assim são muito comuns na psiquiatria e na minha prática clínica. E com a profusão de uso de antidepressivos, a minha impressão é que eles vem aumentando.

Meu objetivo aqui não é propor nenhum tratamento específico, pois isso requer muito mais do que consta nesse artigo. Mas se este é seu caso, converse com seu médico sobre o seu diagnóstico e as opções de tratamento. Existem outras alternativas como estabilizadores de humor e antipsicóticos, úteis em quadros que não estão respondendo bem aos antidepressivos.

Pode ser interessante mudar a estratégia de tratamento para começar a responder melhor e isso leva tempo. Um distúrbio de humor de longa evolução pode demorar meses para melhorar e vai precisar também de outras abordagens terapêuticas, como psicoterapia, exercícios físicos, atividades de lazer e relaxamento, terapia familiar, dentre outros. Pensamento e humor são muito suscetíveis a alterações em estados de maior vulnerabilidade psicossocial, por isso é importante atuar em várias frentes de tratamento e buscar melhorar sua qualidade de vida e seus relacionamentos.


Bullying mais que triplica no Brasil. Entenda os fatores envolvidos!

A pesquisa sobre bullying nas escolas brasileiras, tanto públicas como privadas, fica a cargo do IBGE junto com o Ministério da Saúde, responsáveis pela elaboração do PeNSE (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar). Nas suas edições verificou-se taxas crescentes de bullying entre os estudantes brasileiros (veja gráfico), mas o surpreendente foi o salto verificado em 2019 em comparação a 2015: o bullying mais do que triplicou, passou de 7,4% para 23%.

A prática do bullying é mais frequente em escolas privadas, embora as queixas de vitimização ocorram mais na escola pública. Um estudo acredita que isto se deva ao mascaramento das violências no ambiente escolar privado (p.ex. formas mais discretas e em espaços com menor supervisão), enquanto nas escolas públicas os eventos são mais ostensivos (p.ex. no pátio, onde existem mais testemunhas). Outro motivo pode ser atribuído a fatores socioeconômicos e culturais, fatores pesquisados que mais se relacionam ao bullying (mais do que raça e gênero).

O nível socioeconômico mais elevado e maior índice de consumo das famílias elevam as chances da criança ou jovem cometer agressão por bullying - 95% nas escolas públicas e 67% nas escolas privadas. O contrário também é verdadeiro, maior nível socioeconômico reduz as chances de sofrer bullying – 62% na escola pública e 65% na escola privada. Atribui-se às classes econômicas mais elevadas a maior propensão a uma cultura hierárquica e de dominação, além da individualização das condutas frente à coletividade, própria da cultura meritocrática.

Quanto mais os valores meritocráticos são compartilhados no ambiente escolar, maior a propensão ao bullying. Isto ocorre porque existe uma tendência à individualização de problemas coletivos, em que cada um cuida das suas próprias questões. Equivale ao conceito de grupo e coletivo serial de Sartre e Young: no coletivo serial, apesar de estarem juntos, cada aluno age como se estivesse isolado, não existe a solidariedade e o espírito de grupo, em que um se implica no outro. Isso ajuda a explicar a dinâmica do bullying, em que além do agressor e da vítima, existem os perpetradores, espectadores que se omitem de denunciar o bullying e atuam como reprodutores e fortalecedores do poder do agressor, bem como da cultura agressiva na instituição.

Por isso, alguns pesquisadores consideram que, além das questões culturais e econômicas de cada família, a organização estrutural da escola é fundamental no combate ao bullying. Há de se combater a cultura da intimidação, que pode encontrar ressonância na instituição. A escola deve não somente investir no desenvolvimento de procedimentos anti-bullying para proteger as vítimas, como em poderes compensatórios para criar uma cultura de reconhecimento, justiça e confiança entre os alunos e novos espaços de diálogo com os alunos para o fortalecimento do grupo, libertando-se da armadilha do coletivo serial. “Reinventar” uma vontade conjunta que possa ser propulsora de mudanças no ambiente escolar.


Assista aos videos do Encerramento do Programa Entrelaços em 2023

Evento de encerramento do Programa Entrelaços do IPUB/UFRJ no ano de 2023. Tema: Participação e Transformação - Caminhos para a Cidadania na Saúde Mental. A primeira mesa traz conhecimento sobre a participação e a transformação de usuários da saúde mental e seus familiares em serviços de saúde mental e na comunidade, através de grupos de ajuda-mútua. A segunda mesa traz as experiências de um usuário da saúde mental, de familiares e de técnicos do Programa Entrelaços, através dos grupos de ajuda-mútua. A terceira mesa traz a pesquisa da Professora Natália Mota, sobre a análise computacional do discurso na psicose, em que a importância da educação se destaca. Participe divulgando os vídeos em suas mídias sociais.

Mesa 1: Conhecimento

https://www.youtube.com/watch?v=Ab4vrgcmIxU

Mesa 2: Experiências

https://www.youtube.com/watch?v=zCuLwPAmbps

Mesa 3: Reflexão

https://www.youtube.com/watch?v=wEYqbnY5EHs


Polêmica reeditada: internação compulsória resolve?

O tema da internação compulsória como medida heróica e de salvaguarda da ordem pública voltou-se novamente contra as populações de rua, num momento em que o poder público vem se mostrando claudicante e incompetente para lidar com o problema do crescimento das populações de rua nas principais capitais brasileiras. O tema já foi pauta recente das lideranças políticas de São Paulo e, mais recentemente, do Rio de Janeiro. Não é coincidência que esse assunto volte a ser pautado na mídia com a proximidade das eleições municipais de 2024, com claro viés eleitoreiro de quem quer dar uma satisfação à opinião pública, sugerindo uma medida de cunho higienista e autoritário. Também não é nenhuma surpresa que essa medida agrade grande parte da sociedade, que espera esse tipo de resposta do poder público para “limpar” as ruas das cidades.

Mas o que há de fundamento nessa medida, seria ela de fato resolutiva para um problema de grande complexidade social, que engloba saúde, educação, assistência social, segurança pública, a própria dinâmica das cidades urbanas brasileiras e, claro, consequências de anos de uma política econômica neoliberal que amplificou as desigualdades, o desemprego e a falta de perspectiva de futuro para grande parte da população periférica?

Comecemos pela população de rua que, diante da dureza de morar no asfalto e nas calçadas, sujeita a toda sorte de doenças, violências, fome, humilhação e discriminação, recorrem às drogas para sobreviver à sua dor, o que aprofunda suas condições de miserabilidade e agravam os obstáculos para que possam se recuperar para voltar a ter a esperança de uma vida digna, de um trabalho, uma casa, uma rede social de apoio, que lhes devolvam ou lhes apresentem pela primeira vez a cidadania de existir nas cidades em condições de igualdade com seus demais habitantes.

População essa que, por óbvio, é mais vulnerável à opinião pública e principal alvo de políticos e autoridades públicas que se sentem autorizados a decidir o futuro por ela em nome da ciência, da saúde e da moralidade. A força da lei em benefício da pessoa e da sociedade. Parece um argumento perfeito e quem ousar discordar dele será acusado de anarquista, irresponsável e fanático por direitos humanos.

Então vamos aos fatos, à experiência de alguém que já trabalhou anos em abrigos para menores usuários de crack e testemunhou a falência desse modelo de internação compulsória.

Trabalhei em um abrigo, ou melhor, uma “clínica de internação” de menores usuárias de crack e outras drogas. Meninas que invariavelmente tinham uma situação sócio-familiar precaríssima. A maioria não tinha família, quando muito uma mãe muitas vezes também usuária de drogas, pai ausente, às vezes uma avó que dava algum suporte. Mas a situação social se impunha, baixa frequência escolar, quando era matriculada regularmente, fome, exposição à violência e abusos de todos os tipos em suas comunidades. Resultado muitas vezes era retornar para rua um a três dias depois da alta e voltar a usar drogas. Reinternavam com uma frequência muito alta e o ciclo se perpetuava.

A falta de planejamento e recursos que dessem conta dessa situação sócio-familiar precária, ausência de um trabalho no território que contemplasse a saúde, educação, moradia, alimentação e cultura, a ausência de uma rede de suporte especializada com pessoas com a mesma vivência que pudessem servir de exemplo e apoio. Investimentos necessários para a reabilitação dessas pessoas que precisam de um projeto terapêutico individual de acordo com a história e a demanda de cada uma.

Então pergunto: antes de propor a internação compulsória de pessoas dependentes químicas em situação de rua, as prefeituras oferecem equipes de consultório de rua, Centros de Atenção Psicossocial para Álcool e Drogas (CAPS-AD), centros de convivência e cultura, cooperativas de trabalho, vagas de emprego, auxílio moradia, suporte familiar e por pares com experiência de vida em quantidade suficiente para atender à demanda crescente nas cidades? Como esperar que essas pessoas em situação social precária e ainda dependentes de droga consigam se recuperar sem a melhoria de suas condições sociais? Qual o combate efetivo ao tráfico de drogas nessas áreas, que continuam alimentando a cadeia de usuários?

E mais: caso houvesse número adequado de equipes de cuidado a essa população, não haveria a necessidade de internação compulsória, pois a própria equipe de saúde, ao avaliar a ausência de condições de tratamento ambulatorial ou na rua, indicaria a hospitalização, uma vez que existem critérios clínicos definidos para uma internação involuntária uma vez esgotadas as possibilidades de tratamento na comunidade.

Outro desafio que se impõe, particularmente na população dependente de crack, é uma política eficaz de redução de danos, abandonada por anos em governos anteriores e que precisa superar a hipocrisia, o conservadorismo e o patriarcado característicos de grande parte de nossas lideranças políticas, religiosas e comunitárias, entendendo que não existem soluções simples ou únicas para problemas tão complexos e desafiadores como esse.

Mas continua sendo mais fácil e popular bradar por imposições legais que atendem mais aos interesses dos que se sentem incomodados com a presença dessas pessoas nas ruas, mas que ao final nada resolvem a vida delas, as quais precisam de cuidados que vão muito além de uma internação.


Cientista holandês questiona os fundamentos da psiquiatria moderna

Jim Van Os é psiquiatra e cientista, professor do Kings College em Londres e da Universidade de Utrecht na Holanda. Ele é um dos expoentes da psiquiatria contemporânea e seu campo de pesquisa sempre foi compreender os transtornos mentais na sua interrelação entre a biologia e o meio ambiente, pesquisando diferenças entre áreas urbanas e rurais, países desenvolvidos e em desenvolvimento. Tive a oportunidade de ouvi-lo falar em alguns congressos internacionais e posso afirmar que é um psiquiatra com um pensamento inovador, antecipando tendências no campo da psiquiatria e das neurociências. Esta entrevista publicada no O Globo hoje é um bom exemplo disso, como o pensamento dele pode antecipar uma mudança da psiquiatria de uma nosologia baseada em critérios diagnósticos para vivências e experiências coletivas e sociais.

Uma epidemia de problemas de saúde mental varre os países ocidentais e sobrecarrega os serviços de saúde, que começam a mostrar suas falhas. Algo está errado, defende o psiquiatra e epidemiologista Jim Van Os, de 63 anos.

— Quanto mais tratamos, pior os jovens se sentem — reflete o médico, que é diretor do Departamento de Psiquiatria e Psicologia do Centro Médico da Universidade de Utrecht, na Holanda, e professor da Universidade de Londres, no Reino Unido. Van Os tem questionado os fundamentos da psiquiatria moderna há anos e propõe uma mudança em direção a cuidados verdadeiramente “biopsicossocioexistenciais”, diz ele, em que a experiência do paciente passa a ser o centro de uma abordagem terapêutica altamente individualizada.

O especialista conta como ficou obcecado, desde os anos em que era estudante de medicina, pela “diferença entre a teoria da Psiquiatria e a experiência do paciente”. Suas próprias vivências com parentes muito próximos que sofriam de sintomas psicóticos, tão distantes do que aprendeu na faculdade, marcaram sua forma de ver a profissão e de cuidar dos outros.

Você conseguiu unir o que aprende na faculdade com o que vivencia com o paciente?

Existem dois tipos de conhecimento com os quais trabalhamos hoje: o conhecimento da experiência dos usuários e o conhecimento da psiquiatria e da psicologia, que ainda buscam as hipóteses sobre a mente que devem ser usadas para pesquisar o fenômeno da variação dela. O que vemos na saúde mental é que o que conta mais é a experiência das pessoas que nela trabalham. As técnicas e seus medicamentos não são tão importantes quanto pensávamos. As
taxas de transtornos psiquiátricos aumentam nos países europeus e são alarmantes. Na Holanda, duplicaram nos últimos 15 anos e temos um exército de psicólogos e psiquiatras. Mas há um paradoxo: quanto mais tratamos, pior os jovens se sentem.

Por que isso acontece?

Existem forças coletivas, e não individuais, que fazem com que as taxas de sofrimento mental aumentem. É como na cardiologia, por exemplo, que sabemos que, se a alimentação da população for deficiente, há mais doenças cardiovasculares e câncer. Estamos aprendendo que o clima social e existencial em que vivem os jovens causa algo em suas mentes que os faz se sentir mal.

Mas por que agora? Se o ambiente sempre influenciou, porque os distúrbios de saúde mental aumentam agora e não há 20 anos?

O que as pesquisas, e os jovens, dizem é que existe um clima de competitividade: o sucesso é uma escolha e, se não tivermos sucesso, escolhemos mal, somos tolos. E há também um clima de isolamento porque, embora haja mais contato nas redes sociais, ocorre o paradoxo de que isso não proporciona mais laços, mas sim mais solidão. E também há mais vigilância: as pessoas têm medo de não parecerem normais porque se os outros te percebem como diferente, você se sente mal. Para os jovens, essas forças fazem com que se sintam mal.

Por que se sentir diferente tem tanto impacto?

Ser diferente dos outros faz muito mal à saúde mental. Porque precisamos nos sentir conectados uns com os outros. Somos animais sociais. Toda a nossa biologia se desenvolve ao estarmos ligados a outras pessoas. Durante os primeiros dez anos de vida, você tem um processo de vínculo que guiará suas relações sociais e consigo mesmo ao longo da vida inteira.

Você disse que os psiquiatras ainda estão no processo de conhecer a mente para compreender os problemas de saúde mental. Falta então a primeira peça do quebra-cabeça?

Sim, sobre o que é a mente. Resolvemos o problema de não conhecer a mente dizendo que existem diagnósticos. Por exemplo, se você diz que tem esquizofrenia, não há necessidade de conhecer os reais processos mentais e a experiência que as pessoas têm. Agora, porém, somos mais ambiciosos porque, cientificamente, esses diagnósticos não funcionam, pois não captam a experiência das pessoas. Há muita heterogeneidade e variação para que as pessoas se enquadrem em um diagnóstico. E estamos tentando o impossível: compreender a mente através do fenômeno da consciência. O que acreditamos é que a consciência é provavelmente, no fundo, afetiva: vivenciamos coisas e, cada vez que o fazemos, temos um sinal afetivo bom ou ruim. E o que pensamos é que o sinal afetivo nos torna conscientes de nós mesmos no ambiente. O que propomos é ter um modelo mental de sofrimento mental e não um diagnóstico, porque a experiência já não aparece ali. Dessa forma, podemos compreender e pesquisar muito melhor os fenômenos de recuperação. Pessoas que têm um estado mental muito negativo, que ouvem vozes, sabemos que são capazes de recuperar. Podemos ajudar as pessoas a relativizar e olhar a experiência com distanciamento, pensar e falar sobre ela e analisá-la, para que tenham mais empoderamento.

Mas isso já é feito como parte do tratamento, certo?

Sim, mas a partir de um modelo diferente. O problema é que as psicoterapias e os medicamentos são protocolados e seguem um manual, mas não acompanham a experiência das pessoas. Isso ajuda, mas poderia ajudar mais porque, individualmente, há muita diferença entre um paciente e o outro. Não devemos padronizar, mas sim individualizar.

Na medicina há uma tendência a padronizar e ordenar o conhecimento e a abordagem aos pacientes. Isso não pode ser feito na saúde mental?

Psiquiatras e psicólogos têm dito que a mente é algo que podemos prever, analisar na ciência linear, causa e efeito, mas estamos aprendendo que não é esse o caso, é algo mais complexo. Não tivemos sucesso em encontrar os mecanismos cognitivos e biológicos, não encontramos as causas, não encontramos biomarcadores... A mente é algo diferente, e a ciência da complexidade é a ciência da imprevisibilidade, de que não existe causa e consequência, existem interações entre milhares e milhares de causas que mudam ao longo do tempo do paciente.

Seu ponto de vista envolve lançar uma bomba sobre os princípios da psiquiatria moderna.

A bomba já aconteceu, chama-se ciência aberta. Há alguns anos na Science (revista científica) houve uma publicação em que tentaram replicar o conhecimento básico da psicologia e descobriram que não era possível, apenas conseguiam 30%. E na psiquiatria biológica tivemos exatamente o mesmo problema: os resultados publicados durante 30 anos não são replicáveis. Mas isso também é ciência e nos ajudará a desenvolver algo melhor. Mas os tratamentos funcionaram, e muitas pessoas com problemas de saúde mental foram curadas. Eles funcionam. Mas não como pensamos que funcionam, por outro motivo. A metaciência estabeleceu, por exemplo, que as 250 psicoterapias funcionam bem, mas não pelos esquemas terapêuticos em si. Pela função ritual dentro do relacionamento. Você se torna emocionalmente ligado à pessoa. E dentro do relacionamento, o que você está causando é motivação para mudar. E se o ritual for compatível com a forma como o paciente vê o mundo, funciona.

Então é uma questão de fé?

É uma questão de relacionamento. Relacionamento que causa motivação e que a pessoa tenha fé em suas capacidades. Eu uso muito pouco antidepressivos porque há cada vez mais ciência aberta sobre como eles funcionam e achamos que não funcionam muito bem. Provavelmente há um pequeno grupo de pessoas que tem uma resposta muito boa e é por isso que há um benefício nos ensaios clínicos randomizados, mas na grande maioria não tem efeito.

E isso acontece, na sua opinião, com todos os psicotrópicos?

O que vemos é que o lítio e os antipsicóticos desempenham um papel melhor do que os antidepressivos. Mas estamos nos tornando mais críticos em relação ao modelo de prescrição crônica, porque não compreendemos as alterações cerebrais causadas pelos medicamentos e pelo uso a longo prazo. Antes falávamos que era preciso dar antipsicóticos a vida toda, e agora dizemos que, depois de seis meses ou um ano, é preciso tentar reduzi-los e ensinar as pessoas a administrarem a suscetibilidade.

Aprender a lidar com seus sintomas?

Dentro do modelo mental, as pessoas entendem os processos psicóticos porque aprendem a ver o que acontece com mais distância. O problema é que antes pensávamos que não era possível e por isso surgiu o modelo de prescrição crônica. Na Holanda, vejo pessoas que tomam paroxetina, sertralina (dois antidepressivos) há 30 anos e não conseguem parar e se perguntam: quem sou eu sem a medicação e onde estão os traumas que tentava suprimir com ela?

É prescrito excessivamente?

Sim. Isso acontece com todos os remédios, que medicalizam demais. Na psiquiatria é ainda pior porque, desde o início, estamos medicalizando a história narrativa do paciente. Transferimos suas experiências para um livro com 400 diagnósticos, mas a pessoa se sente mal cuidada. Isso se chama assimilação hermenêutica: você captura as experiências da pessoa e as coloca em outra estrutura que não é a dela.

Em 2016 você publicou um artigo no BMJ com um título sugestivo: "A esquizofrenia não existe". O que ele quis dizer?

Eu falei isso porque tem psiquiatras que realmente acreditam que existe uma categoria nosológica (estudo de classificação de doenças) que é a esquizofrenia, mas o que está escrito no DSM (o manual de classificação dos transtornos mentais do Academia Americana de Psiquiatria) são regras para a comunicação entre psiquiatras, não é um diagnóstico de uma doença.

Mas por que você diz que ela não existe? Sempre nos disseram que existe uma doença chamada esquizofrenia.

O sofrimento mental é real, existe, mas o que não existe é a categorização. Estamos dizendo à população que a esquizofrenia existe, mas o que só existe, e o que está comprovado cientificamente, é a suscetibilidade de desenvolver ideias inusitadas e ouvir vozes quando há estresse. É uma suscetibilidade, uma sensibilidade. Por que não introduzem um novo diagnóstico no DSM-5, que é a síndrome de suscetibilidade à psicose? Isso seria totalmente diferente porque é dizer às pessoas que todos temos suscetibilidades e, quando há estresse, um começa a beber, outro fica ansioso e outro psicótico. Não devemos falar de doenças, mas sim de suscetibilidades e dizer às pessoas que, se tiver sintomas quando há estresse, é sinal de que tem de aprender a gerir a sua suscetibilidade.

Mudar o nome muda o estigma?

Você não precisa mudar o nome, você tem que mudar o conceito. O conceito não é de doença, é de uma suscetibilidade que todos temos. E os achados genéticos confirmam que todos carregamos milhares de variações genéticas que nos predispõem à esquizofrenia, uns mais que os outros, mas todos as temos porque são variantes que contribuem para a nossa capacidade única de dar sentido ao meio ambiente. A mente dá significado afetivo ao ambiente, e a psicose está dando significado demais.

Podemos todos experimentar, então, essa suscetibilidade e algum espectro de psicose?

Detectamos que há muitas pessoas que têm experiências psicóticas, ouvem vozes, que algo ruim está acontecendo. E é muito humano, muito normal, ter esses pensamentos. O problema quando você tem psicose é que você entra em um estado em que não há mais como manter distância. A psicose não é ouvir vozes, é deixar as vozes serem tão poderosas que você não consegue mais se distanciar da experiência.

Qual o papel da genética nos transtornos de saúde mental? Ou é apenas uma questão emocional do meio ambiente?

Nas doenças neurológicas, todas têm fatores genéticos que contribuem, mas não se sobrepõem, e há poucos genes, poucas variantes. Na psiquiatria é completamente diferente: a variação genética se sobrepõe entre diferentes transtornos, como autismo, hiperatividade, psicose, ansiedade, depressão... Mas essa contribuição não é forte, como pensávamos antes, cerca de 25% da vulnerabilidade ao sofrimento de uma doença mental é genético. Além disso, não existem apenas algumas variantes, como na neurologia, mas milhares e milhares. O resultado final é que a genética de ter um problema de saúde mental é a genética do ser humano, a genética que alimenta a capacidade de reagir ao meio ambiente. Então, o que pensamos é que o que todas essas variações genéticas fazem é nos equipar para sobreviver reagindo ao ambiente usando a nossa consciência, que é, basicamente, afetiva.

Fonte: O Globo


Estranhos a nós mesmos: todos deveriam ler!

Acabo de ler o livro de Rachel Aviv, "Estranhos a nós mesmos - histórias de mentes instáveis", e considero uma leitura imprescindível para profissionais de saúde mental, pacientes, familiares e pessoas com interesse no campo da saúde mental.

Rachel é uma jornalista e repórter do New Yorker, residente no Brooklyn, em Nova York, e escreveu seu primeiro livro, considerado entre os 10 melhores livros do ano pelo The New York Times e The Wall Street Journal e melhor livro do ano pelo Los Angeles Times e Washington Post, dentre outras listas de publicações renomadas.

E de fato o livro de Rachel impressiona! Primeiramente por partir de sua experiência pessoal com o transtorno mental; sofreu anorexia nervosa na infância/adolescência, tendo sido hospitalizada aos 6 anos de idade. No primeiro capítulo ela faz um relato em primeira pessoa de sua experiência com a internação, com os remédios psiquiátricos, com o diagnóstico e o que ele significou em sua vida.

Nos capítulos seguintes, ela dedica cada um deles a uma personagem, paciente na vida real que ela investigou a fundo, consultando seus diários, registros médicos, entrevistando profissionais que os atenderam, familiares e amparando suas impressões em vasta bibliografia, da medicina e da psiquiatria à sociologia e filosofia, correlacionando-as à sua própria experiência. Ray, um médico dividido entre a psicanálise e a bioquímica, buscando uma compreensão para o seu quadro depressivo; Bapu, uma brâmane diagnosticada com esquizofrenia que fugia da família na busca de sua elevação espiritual; Naomi, uma mulher negra e encarcerada, vítima do racismo, buscando se reconciliar com os filhos após o diagnóstico de psicose; Laura, que após décadas passando por diagnósticos de bipolaridade e borderline e sendo "supermedicada", decide se livrar dos remédios e escrever um blog para ajudar outras pessoas a se livrarem da dependência de antidepressivos; e Hava, amiga de internação de Rachel, a quem busca três décadas depois ao se reencontrar com os médicos que a trataram no Hospital Infantil de Michigan.

O livro fornece insight preciosos e produzem reflexões profundas para uma sociedade em que a psiquiatria e a psicofarmacologia se tornaram a principal resposta para o sofrimento psíquico das pessoas. Os relatos oferecidos por Rachel, além de impressionarem pela completude de sua vasta pesquisa jornalística, causam desconforto por colocar a psiquiatria e a psicofarmacologia na berlinda, uma vez que para nenhuma dessas personagens elas foram suficientes para explicar o sofrimento ou trazer um significado de superação ou de uma existência mais apaziguadora. O que as histórias reais mostram são pessoas em busca de sua verdadeira identidade, da conciliação de seu sofrimento com suas histórias de vida e relacionamentos, da compreensão de suas emoções enquanto vivências pessoais libertadoras e transformadoras, para as quais a psiquiatria e a psicofarmacologia falharam em dar respostas sustentáveis e, em muitos casos, passaram ao largo de suas trajetórias de vida.

Num tempo em que as pessoas buscam soluções rápidas e milagrosas para problemas reais da vida, muitas vezes recorrendo a medicações psiquiátricas como tábuas de salvação, esse livro é um alerta e ao mesmo tempo um alento, por não depositar nessas medicações as soluções para o sofrimento humano.

E antes que alguém tente desqualificar o livro antes de lê-lo: não, este não é um livro de antipsiquiatria e não faz apologia à desmedicalização. Rachel mesmo se medicou décadas com antidepressivos e reconhece os benefícios deles. Ela não parte da negação do transtorno mental, trata de forma respeitosa os psiquiatras e a psiquiatria, apenas traz a reflexão de quanto a saúde mental é pobre quando se tenta negar as emoções individuais e particulares de cada pessoa, a sua história, o seu ambiente, a sociedade e as pessoas de seu entorno. O quanto somos reducionistas e insuficientes quando propomos soluções prontas na forma de pílulas ou tratamentos padronizados e, pior, quando nos iludimos que desta forma estamos oferecendo um bom serviço à sociedade.

Por isso é uma leitura indispensável para todos que estejam imersos nessa realidade!


10 de Outubro: Dia Mundial da Saúde Mental

O evento deste ano representa um compromisso global para aumentar a conscientização sobre a saúde mental e defendê-la como um direito humano universal. Todos devem ter o direito de viver uma vida com dignidade, equidade, igualdade e respeito. No entanto, ainda persistem na Região das Américas, o estigma, a discriminação e as violações aos direitos humanos.

Em muitos países da Região, as pessoas com questões de saúde mental não têm acesso a serviços de qualidade, estão sujeitas a práticas coercitivas, tratamento desumano e, em alguns casos, abuso - mesmo em ambientes de saúde, onde deveriam estar protegidas.

Os países devem promover iniciativas regulatórias e normativas para apoiar a saúde mental como um direito humano fundamental e, ao mesmo tempo, limitar as práticas que favorecem as violações dos direitos humanos. Isso inclui o estabelecimento de leis de saúde mental que respeitem os princípios dos instrumentos internacionais de direitos humanos, como a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CRPD) e a Declaração Universal dos Direitos Humanos (UDHR).

No entanto, as estimativas regionais mostram que pouco mais de 60% dos 39 países têm uma lei de saúde mental independente, e quase metade dos 37 países não tem uma autoridade dedicada a avaliar a conformidade com os instrumentos internacionais de direitos humanos, ou a que existe não está funcionando.

A OPAS continua comprometida em trabalhar com os países, fornecendo apoio técnico para desenvolver uma legislação de saúde mental que esteja em conformidade com as convenções internacionais e defendendo os direitos de cada indivíduo, além das fronteiras e desigualdades.

Fonte: OMS/OPAS


Plano não pode negar custeio de remédio registrado na Anvisa, mesmo que prescrição seja off-label

A Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu, por unanimidade, que uma operadora de plano de saúde deve custear tratamento com medicamento prescrito pelo médico para uso off-label (ou seja, fora das previsões da bula).

De acordo com o colegiado, se o medicamento tem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – como no caso dos autos –, a recusa da operadora é abusiva, mesmo que ele tenha sido indicado pelo médico para uso off-label ou para tratamento em caráter experimental.

Na origem do caso, uma beneficiária do plano de saúde ajuizou ação contra a operadora para pleitear o custeio do medicamento antineoplásico Rituximabe, administrado durante a hospitalização para tratamento de complicações decorrentes de doença autoimune.

Uso off-label não constitui impedimento para cobertura

A operadora do plano alegou que o fármaco não estaria incluído no rol de procedimentos e eventos em saúde da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) – não sendo, portanto, passível de cobertura – e, além disso, o uso off-label não estaria previsto no contrato.

As instâncias ordinárias, no entanto, entenderam que o uso off-label não é impedimento para a cobertura, ainda que o tratamento seja experimental.

O relator do recurso da operadora no STJ, ministro Raul Araújo, destacou que o tribunal, ao julgar o EREsp 1.886.929, estabeleceu critérios sobre a obrigatoriedade ou não de cobertura diante do rol da ANS, admitindo a possibilidade de cobertura no caso de não haver substituto terapêutico, dentro de certas condições.

Cobertura fora do rol da ANS deve ser analisada caso a caso

Pouco depois daquele julgamento, segundo o ministro, a Lei 14.454/2022, ao alterar a Lei dos Planos de Saúde para dispor sobre a possibilidade de cobertura de tratamentos não contemplados no rol da ANS, definiu que essa lista constitui apenas uma referência básica para os planos.

"Nesse cenário, conclui-se que tanto a jurisprudência do STJ quanto a nova redação da Lei dos Planos de Saúde admitem a cobertura, de forma excepcional, de procedimentos ou medicamentos não previstos no rol da ANS, desde que amparada em critérios técnicos, cuja necessidade deve ser analisada caso a caso", concluiu Raul Araújo ao negar provimento ao recurso da operadora.

Leia o acórdão no AREsp 1.964.268.


Filhos, marido, esposa: é possível conviver bem com a esquizofrenia

Fisioterapeuta de formação, Mariah Aragão das Neves, 38, brinca ao dizer que é uma mãe diferenciada: achando que não poderia engravidar, adotou um menino, hoje com 5, mas em seguida deu à luz uma menina, de 1. E tudo isso depois de um diagnóstico de esquizofrenia que recebeu aos 30.

"Você fazendo tudo certo, rola", garante Mariah, moradora de Teresópolis, região serrana do Rio de Janeiro.

Ela quer dizer que diferentemente da percepção de que a pessoa com esquizofrenia não tem capacidade de se cuidar sozinha, com acompanhamento médico correto é possível ter uma vida parecida com a dela.

Muito bem articulada, Mariah conta que desde os 12 anos tinha crise de epilepsia, via vultos e ouvia vozes. Foi na faculdade que teve um surto psicótico e veio o diagnóstico de esquizofrenia.

Paralelo a isso, em 2011, ela reencontrou o primeiro e único namorado, e a dupla se casou em seguida. Hoje os dois trabalham juntos: ele é síndico de um condomínio e Mariah ajuda na administração.

Temendo que a doença passasse para uma filha biológica, o casal adotou Gabriel, então com 1 ano, mas aí veio a surpresa: logo depois Mariah engravidou de Carolina sem nem imaginar que seria possível. Hoje é uma menina saudável.

Mariah sente que há bichos sobre seu corpo, e diz que sempre tem um cachorro e um homem de preto ao seu lado. Mas consegue manter tudo sob controle, com suporte do companheiro e da família.

"Ser mãe é difícil, ainda mais tendo esquizofrenia, mas é preciso virar essa chave e entender que tem que seguir em frente, independentemente de quem estiver do meu lado."

Depois do surto, pedido de casamento

Mesmo sabendo do diagnóstico do companheiro, a cozinheira Celice Brito, 46, não se assustou quando Leonardo Brito, 39, surtou na sua frente, e quis seguir ao seu lado. Tanto que o pediu em casamento e fez tratamento para engravidar.

Natural de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, Leonardo foi diagnosticado com esquizofrenia aos 26. Na época, tinha acabado de ser pai de uma menina. Entre os sintomas, alucinações com um palhaço, movimentos repetitivos e ataques de fúria. Foi internado em clínica psiquiátrica pela ex-mulher, mas ao sair não teve acesso a medicamentos e médicos. Separou-se e foi afastado da filha.

Ele seguiu a vida como missionário e, há cinco anos, Celice conheceu seu trabalho nas redes sociais e o convidou para pregar na igreja evangélica que frequenta, em São Paulo. "Tinha algo estranho no seu olhar", ela lembra, complementando em seguida que Leonardo avisou ter um problema mental quando chegou.

Mesmo assim, ela frisa que o companheiro pregou "maravilhosamente bem", mas na hora de partir teve "uma crise estranha, com movimentos repetitivos". Somente ao levá-lo a alguns médicos, descobriu que ele tinha esquizofrenia.

Ela então se empenhou em cuidar de Leonardo. Passados três meses, e já se sentindo melhor, o homem comunicou que iria embora de sua casa, e foi aí que Celice o pediu em casamento. "Crente que não tem essa de namorar, né? E eu já estava muito envolvida. Então cheguei no duro e falei: 'Escuta, você não quer casar comigo?'", conta.

Com fala pausada, Leonardo afirma que tem um relacionamento perfeito, apesar dos delírios: "Eu não tinha tanto sentimento por ela, mas fazia tempo que ela cuidava muito bem de mim, então é tudo muito saudável".

Celice reforça ser tão sadio que "tudo acontece normalmente, de ficarem duas, três horas namorando". Mas que é uma luta solitária.

"Eu cuido de tudo, e muitas coisas não compartilho, porque senão ele começa a ter crise convulsiva e fica nervoso. Me sinto só e vulnerável, sem direito de adoecer", diz.

'Vale a pena ser pai mesmo assim'

Quando foi diagnosticado com esquizofrenia, em 2009, Cainã Nicolleli, 32, estava começando um namoro com a mãe de seu filho, que hoje tem 8 anos. Hoje separado, diz que a dupla vive num bom relacionamento.

Até fechar seu diagnóstico e encontrar os medicamentos que amenizassem seus sintomas, Cainã passou por algumas internações em clínicas psiquiátricas. Quando saiu, passou a ser acompanhado, a frequentar igreja e fazer atividade física. E diz que o filho, com quem fica a cada 15 dias, ajuda no tratamento.

"Ele conversa comigo, me ouve e acaba sendo meu psicólogo. Digo que vale a pena ter um filho mesmo que nessas condições, só tem que conversar com a companheira."

E com a família também, complementa a mãe dele, Sarah Nicolleli, 59, criadora da AMME (Associação Mãos de Mães de Pessoas com Esquizofrenia). "Não existe uma fórmula para esquizofrenia, mas existe uma família que pode, através de amor e de informações, proporcionar uma qualidade de vida melhor."

Saiba mais sobre a esquizofrenia

A esquizofrenia é um transtorno mental, provocada por múltiplos fatores que incluem vulnerabilidade genética, estresse ambiental, uso de algumas substâncias tóxicas etc.

Impacta cerca de 1% da população mundial (dois milhões no Brasil), com maior prevalência em homens, a partir da adolescência.

A doença afeta a capacidade de pensar, sentir e se comportar com clareza e é caracterizada por pensamentos ou experiências que, muitas vezes, parecem não ter contato com a realidade. A pessoa com esquizofrenia costuma apresentar fala ou comportamento desorganizado e uma participação reduzida nas atividades cotidianas.

Os sintomas incluem alteração do comportamento e do pensamento (delírios e alucinações), dificuldade de socialização e de expressar emoções entre outros. No início, pode ser confundido com depressão. É comum que as famílias entendam como algo "próprio da adolescência", atrasando a busca por tratamento.

O diagnóstico é complexo, por se tratar de uma soma de sintomas, sem nenhum exame que possa identificar a condição. É preciso que o médico observe por um período, que pode ser de meses, para chegar a uma conclusão precisa.

A doença dificilmente causa agressividade desde que o paciente esteja sob tratamento regular.

Não possui cura, mas 70% dos casos se recuperam e têm boa qualidade de vida com o tratamento adequado, que inclui antipsicóticos e psicoterapia. E 20% dos casos podem não responder adequadamente ao tratamento, precisando de medicamentos mais específicos. Já 10% dos casos são considerados de difícil tratamento.

O tratamento pode ser feito no Caps (Centro de Atenção Psicossocial) ou em Ambulatórios de Especialidades Médicas, AME. A rede municipal disponibiliza a maioria dos medicamentos através de um programa de assistência farmacêutica. Especialistas recomendam que a família acompanhe de perto o tratamento para também ser orientada.

Fonte: Luiza Souto - UOL


Novos tratamentos promissores para depressão

Estima-se que um a cada dez brasileiros enfrente os difíceis sintomas da depressão: da apatia à tristeza profunda, entre outros aspectos preocupantes. Para a vasta maioria, o tratamento com antidepressivos comuns, terapia e mais um estilo de vida saudável (não custa repetir: com alimentação balanceada e exercícios) costuma dar bons resultados. Para um terço dos diagnosticados, porém, seguidas tentativas medicamentosas não chegam à melhora satisfatória, o que os joga em crises resistentes e preocupantes. É para essas pessoas, felizmente, que abre-se um novo leque de tratamentos para a doença.

A mais recente terapia em uso no Brasil é um tipo de estimulação magnética do nervo vago — que faz as vezes de mensageiro entre o cérebro e o organismo. Para influenciá-lo, especialistas utilizam um “eletrodo” no pescoço ligado a uma pequena bateria, localizada na altura do peito, tal qual um marca-passo. O tratamento é aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e já foi instalado em dois pacientes homens no país — há a previsão que um terceiro também receba o apetrecho. Após o implante, o especialista responsável deve modular a dose dos impulsos elétricos no nervo, para que ele influencie os neurotransmissores importantes para o mecanismo da depressão.

— Foi a primeira vez que fizemos esse tipo de cirurgia no Brasil. É um mecanismo, que já era usado no país para epilepsia, o que muda é a carga do aparelho. Todo o trabalho é feito em conjunto com um psiquiatra e um engenheiro específico do aparelho. Uma vez ligado ele assim permanece — diz Wuilker Knoner Campos, presidente da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, responsável por esses primeiros procedimentos (cujo pagamento foi realizado pela empresa desenvolvedora).

Antonio de Salles, um dos mais importantes nomes da neurocirurgia do país, diz que esse tipo de estratégia já contava com reconhecimento fora do país.

— O nervo vago consegue desempenhar influência elétrica em muitas áreas do cérebro. Ele manipula neurotransmissores importantes, como a norepinefrina, que influencia no humor da pessoa, um fator importante no cuidado com a depressão. A melhora chega, em média, em dois a três meses após a aplicação— explica o especialista.

É importante, porém, ressaltar que esses pacientes não devem abandonar seu tratamento inicial e que sigam com seus medicamentos, terapias e cuidados com o estilo de vida. A empresa responsável pelo negócio, chamada LivaNova quer garantir que a novidade seja custeada pelos planos de saúde — só depois tentará espaço no Sistema Único de Saúde (SUS). A indicação de uso é para maiores de idade que já tenham tentado tratamento com outros medicamentos, mas sem melhora. O custo para ter acesso no país ainda não está fechado.

Outros caminhos

Há poucos anos, a mesma Anvisa aprovou um medicamento inalável para o manejo de casos graves. Trata-se de um produto a base de escetamina — uma versão do anestésico cetamina (ou quetamina) cujo uso é de ambiente hospitalar. De custo alto, a opção não encontra tração entre especialistas, que acabam optando pelo uso da quetamina original — com aplicação injetável realizada por médicos anestesistas — em clínicas particulares. A aplicação, vale dizer, não é validada pela Anvisa, e ocorre no que é conhecido como off-label, um uso que ultrapassa o que a bula preconiza oficialmente.

Para Dartiu Xavier, nome incontornável na pesquisa de psicodélicos no país, o uso desse tipo de substância, embora bastante eficiente conforme os estudos existentes, ainda encontra estigma para adesão em ampla escala.

— O meu grupo de estudos trabalha com os psicodélicos desde a década de 1990. A quetamina é um psicodélico atípico [o LSD e a ayahuasca seria o típico], e carrega uma carga de preconceito muito grande. Veja, este é um anestésico utilizado há 50 anos, mas também existe um uso recreativo. Isso fez com que a sociedade olhasse para essa opção como uma “droga”, uma coisa ruim — afirma Dartiu Xavier. — Esse preconceito foi responsável por muita propaganda de efeitos negativos, mesmo tendo sido usada por muito tempo como anestésico.

Os resultados colhidos hoje são também fruto de uma quebra de paradigma. Até pouco tempo, os fármacos voltados à depressão (embora ultrapassassem as cinco dezenas de opções) focavam no mesmo mecanismo, o que não afetava positivamente um volume importante de pacientes.

— Até 2019, existiam 55 moléculas aprovadas para a depressão. Todas com o mesmo mecanismo, a ação nas chamadas monoaminas, caso da serotonina, dopamina ou noradrenalina. Ficamos quase 70 anos replicando o mesmo mecanismo — afirma Acioly Lacerda, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). — Começamos a mudar o cenário, com a escetamina, com uma ação inovadora no glutamato, um importantíssimo neurotransmissor. Na mesma época, foi aprovado um novo medicamento que modulava outro receptor, o GABA.

A chave para a revolução foi deixar de acreditar que a depressão era apenas fruto de um desequilíbrio químico no cérebro. Agora, contudo, se entende um pouco melhor o mecanismo central do problema: trata-se de uma doença fruto da complexidade da neuroplasticidade, o mecanismo de adaptação do cérebro.

— Hoje entendemos que a pessoa com depressão tem vulnerabilidade genética em combinação com fatores ambientais, que são as agressões na trajetória do neurodesenvolvimento. Os principais fatores que predizem a depressão na vida adulta são privações físicas e emocionais — complementa Lacerda.

Arroz com feijão

Nos consultórios, há um fator importante que vem antes da definição sobre qual medicamento esse paciente tomará: o diagnóstico correto. Como ressalta Carolina Hanna, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

— Individualizar o paciente é fundamental. Hoje podemos lançar mão de análises e suplementos que ajudam a potencializar o trabalho do antidepressivo. Também é importantíssimo o diagnóstico correto, se aquele caso individual é uma depressão unipolar ou (ligada ao transtorno) bipolar, o que também muda nossa estratégia de cuidado. E a psicoterapia segue como um grande alicerce, em paralelo com a medicação.

Alfredo Maluf, psiquiatra do Hospital Albert Einstein, lembra que o arsenal terapêutico conta com medicamentos com bom perfil de tolerabilidade (com baixos efeitos colaterais). Portanto, muitos conseguem se reabilitar e voltar à rotina.

— As pessoas procuram o consultório mais rapidamente hoje em dia. O bom desfecho está ligado aos medicamentos, terapia e inclusive o apoio familiar. O arroz com feijão ainda é esse.

Fonte: O Globo


Ministério da Saúde amplia em R$ 414 milhões por ano os recursos para a Saúde Mental

O Ministério da Saúde amplia o orçamento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) com investimento de mais de R$200 milhões em 2023. A iniciativa tem o objetivo de aumentar a assistência na rede de saúde mental no SUS em todo Brasil. Ao todo, o recurso destinado para todos os estados e Distrito Federal será de R$414 milhões no período de um ano. Com os novos valores, o aumento do orçamento da rede chega a 27%. O fortalecimento da política de saúde mental, focada em assegurar dignidade, cuidado integral e humanizado em liberdade, além de reinserção psicossocial e garantia dos direitos humanos, está entre as ações prioritárias do Ministério da Saúde.

Para a ministra Nísia Trindade, a pauta da saúde mental não está referida apenas ao efeito da pandemia. “Ela também tem muito a ver com a solidão que as pessoas vivem, com o individualismo crescente, que muitas vezes se manifesta na dificuldade de interação social. Nesse contexto, assino a portaria que é central para o fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial, criada e muito bem cuidada durante o primeiro governo do Presidente Lula. Desde 2016 não havia nenhum reforço de custeio, então estamos dedicando recursos para a rede e para as residências terapêuticas”, explicou.

“Essa portaria é parte de um processo muito maior. Sem esse reforço, não poderemos fazer a diferença na saúde mental, com uma abordagem humanizada, que considera a cada um dos usuários do SUS como cidadãos e cidadãs. Há muito tempo abandonamos a visão de tutela pela visão do cuidado e da participação”, acrescentou a ministra da Saúde.

O anúncio das novas ações para o fortalecimento da rede foi feito nesta segunda-feira (3), durante a 17º Conferência Nacional de Saúde (CNS), que acontece até o dia 5, em Brasília (DF). O evento reúne representantes da sociedade civil, entidades e movimentos sociais de todo Brasil para debates de temas importantes para o sistema público de saúde, como a saúde mental.

O repasse será direcionado para os 2.855 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) existentes no país e para os 870 Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT). Ambos terão recomposição do financiamento e os recursos serão incorporados ao limite financeiro de média e alta complexidade de estados, do Distrito Federal e dos municípios com unidades habilitadas.

Além do investimento, o Ministério da Saúde habilitou novos serviços para expansão da rede em todo país. Desde março, foram 27 novos CAPS, 55 SRT, 4 Unidades de Acolhimento e 159 leitos em hospitais gerais - a maioria nos estados do Nordeste. Os novos serviços foram habilitados em Alagoas, Bahia, Maranhão, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe, Acre, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. Para o custeio desses novos serviços serão investidos R$32.389.256,00 ao ano.

Essa iniciativa faz parte da reconstrução da política de saúde mental e da retomada do fortalecimento da rede. Nos últimos seis anos, a RAPS teve um dos mais baixos crescimentos na série histórica desde 2001, com queda nos repasses para custeio e novas habilitações. Em todo mundo e no Brasil, a saúde mental passou a ser uma demanda cada vez maior para os sistemas de saúde, principalmente após a pandemia da Covid-19. Tratar o tema como eixo central e estratégico para o SUS é prioridade do Ministério da Saúde, que está alinhado com as diretrizes da reforma psiquiátrica brasileira.

Assim, fundamentada na garantia da dignidade humana, base da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Política Nacional de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas do Ministério da Saúde reassume os princípios da desinstitucionalização e da atenção psicossocial para a promoção do cuidado em liberdade e preservação da cidadania das pessoas que usam os serviços da rede.

Departamento de Saúde Mental (DESME)

Diante da importância da saúde mental para todos os brasileiros, o Ministério da Saúde criou o Departamento de Saúde Mental - DESME. Em caráter imediato, o departamento retomou a habilitação de novos serviços de saúde mental, bem como iniciou estudos para a recomposição do custeio dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e dos Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT).

O Brasil tem hoje uma das maiores redes de saúde mental do mundo internacionalmente reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Vários estudos acadêmicos reiteram que a ampliação da oferta de serviços comunitários em saúde mental, diminui a demanda por hospitalização, assegurando mais qualidade de vida para a população.

Sobre o CAPS e SRT

Os Centros de Atenção Psicossocial - Caps são serviços de saúde de caráter aberto e comunitário voltados aos atendimentos de pessoas com sofrimento psíquico ou transtorno mental, incluindo aquelas com necessidades decorrentes do uso de álcool, drogas e outras substâncias, que se encontram em situações de crise ou em processos de reabilitação psicossocial.

Nos estabelecimentos atuam equipes multiprofissionais, que empregam diferentes intervenções e estratégias de acolhimento, como psicoterapia, seguimento clínico em psiquiatria, terapia ocupacional, reabilitação neuropsicológica, oficinas terapêuticas, medicação assistida, atendimentos familiares e domiciliares, entre outros.

O Serviço Residencial Terapêutico (SRT) são casas localizadas no espaço urbano, constituídas para responder às necessidades de moradia de pessoas portadoras de transtornos mentais graves.

17ª Conferência Nacional de Saúde

As conferências de saúde são espaços de participação popular e diálogo entre gestores e sociedade. Realiza-se a cada quatro anos, desde 1986, para definição e construção conjunta das políticas públicas do SUS. Gestores, fóruns regionais, organizações da sociedade civil, movimentos sociais e muitos outros atores se reúnem neste evento organizado pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS) e o Ministério da Saúde.

A edição deste ano tem o lema "Garantir Direitos e Defender o SUS, a Vida e a Democracia – Amanhã vai ser outro dia". Mais de 2 milhões de pessoas participaram das etapas preparatórias e cerca de 6 mil são esperadas durante os dias de evento em Brasília. Serão debatidas 1 diretrizes e 329 propostas que devem auxiliar a nortear as decisões do Governo Federal para o SUS nos próximos anos.

“Ontem, no primeiro dia do evento, nos sentimos como fênix, renascendo das cinzas. Esse é o nosso sentimento. É uma reunião de várias gerações, com especial destaque para os jovens, que participam dessa conferência. Esse é um momento histórico, num país onde há o maior índice de homicídios de lideranças de movimentos sociais na cidade e no campo. Apesar do clima de alegria desse evento, não posso deixar de reforçar a importância de retomar a democracia com a forte participação social. E a saúde mental é um tema central nessa agenda”, concluiu a ministra Nísia Trindade.

Confira a apresentação em slides na íntegra

Fonte: Ministério da Saúde - Governo Federal


Novamente a esquizofrenia?

Vários sites de notícias da grande mídia estão vinculando o ataque ao Colégio Estadual Professora Helena Kolody, em Cambé, norte do Paraná, à esquizofrenia. Segundo eles, a Secretaria de Segurança Pública do Paraná teria revelado que o assassino sofria de esquizofrenia e estava em tratamento para esta condição. Esta precipitação em associar um crime bárbaro à esquizofrenia não é algo novo e lembra o episódio do massacre da escola em Realengo, Rio de Janeiro, no ano de 2011, em que um assassino entrou a tiros num colégio municipal matando 12 adolescentes e ferindo outros 22. Na época a grande mídia fez uma grande cobertura associando precocemente o crime ao fato do assassino ter esquizofrenia, fato que depois não se sustentou pela falta de evidências do material que se dispunha e da impossibilidade de perícia do criminoso que se matou ao ser interceptado por policiais.

Na época o Portal Entendendo a Esquizofrenia publicou um artigo sobre estigma, que demonstra que crimes violentos associados na mídia à esquizofrenia estão entre as principais causas de aumento do preconceito contra pessoas com esquizofrenia e que tal fato não encontra respaldo na comunidade científica, uma vez que crimes como esses são raros entre pessoas com esquizofrenia e que, ainda que o diagnóstico seja procedente, existem outros fatores sociais e ambientais envolvidos que podem ter associação com o ato violento, ao invés de se atribuir a responsabilidade unicamente a um transtorno.

Jobim Lopes (2012) publicou um artigo na Revista Estudos de Psicanálise em que faz uma análise cuidadosa do material disponibilizado pela mídia sobre o assassino de Realengo e refuta o diagnóstico de esquizofrenia, alencando outros fatores que podem ter sido mais decisivos para o comportamento violento, como a história de vida do assassino, o seu fundamentalismo religioso, o passado de bullying, as dificuldades com sua sexualidade, as influências da internet e o relacionamento simbiótico com sua mãe adotiva que havia falecido meses antes do crime. É uma boa leitura crítica de como a mídia e o público em geral se ocupam rapidamente de oferecer respostas simples e prontas para crimes bárbaros sem considerar a complexidade da mente e do comportamento humano.

Ainda que a informação diagnóstica do assassino do colégio no Paraná seja verdadeira, há de se investigar a história pregressa dessa pessoa, seus relacionamentos, seus hábitos, suas crenças religiosas, as influências que teve da internet e de outras pessoas, além de submetê-la a uma perícia forense para um diagnóstico adequado de suas condições psíquicas. Estudos mostram que a esquizofrenia frequentemente é diagnosticada precipitadamente quando ocorrem sintomas psicóticos, sem a consideração de outras causas ou diagnósticos, com uma baixa estabilidade diagnóstica, ou seja, muitos pacientes podem ser diagnosticados incorretamente no início e depois necessitarem de reavaliação diagnóstica. Um diagnóstico de esquizofrenia é uma tarefa complexa, que exige experiência e tempo, muitas vezes levando de 6 meses a anos de acompanhamento.

Quando se atribui apressadamente um crime a uma condição psiquiátrica presta-se um desserviço à sociedade, aumentando o estigma e o preconceito contra pessoas com transtornos mentais, a grande maioria incapaz deste tipo de violência e na maioria das vezes vítima de uma sociedade violenta, excludente e desigual.

Fontes:
Fusar-Poli et al. Diagnostic Stability of ICD/DSM First Episode Psychosis Diagnoses: Meta-analysis - Schizophrenia Bulletin vol. 42 no. 6 pp. 1395–1406, 2016
Jobim Lopes, A. Considerações sobre o massacre de Realengo - Estudos de Psicanálise, Belo Horizonte-MG, n. 37, p. 25–44, Julho/2012
Palomar-Ciria, N. et al. Diagnostic stability of schizophrenia: A systematic review. Psychiatry Research, Volume 279, September 2019, Pages 306-314. https://doi.org/10.1016/j.psychres.2019.04.020