Ganho de peso com medicações psiquiátricas.

Sem sombra de dúvida este é o efeito colateral mais temido e menos tolerado por pacientes que estão em tratamento com medicações psiquiátricas. Por este motivo decidi escrever mais sobre o tema, com as informações e orientações que costumo passar aos meus pacientes.

Primeiramente é preciso entender que este efeito colateral é o mais pessoal de todos, o que significa que um mesmo medicamento pode provocar ganho de peso em uns e não em outros. Geralmente alguns aspectos individuais contribuem para esta diferença:

– Facilidade para ganhar peso: algumas pessoas têm mais facilidade de engordar do que outras. Isto pode ser determinado geneticamente, por questões hormonais e do metabolismo de cada um, por hábitos como dieta e atividades físicas, por doenças pré-existentes, dentre outros motivos. Neste caso pacientes com maior facilidade para ganhar peso terão também mais risco de engordar com alguns medicamentos.

– Sedentarismo: a falta do hábito de uma atividade física regular, ao menos quatro vezes na semana, contribui para o aumento de peso, mesmo que o paciente não esteja em uso de medicações ou tenha modificado sua dieta, portanto, pacientes sedentários terão também maior probabilidade de ganho de peso com o tratamento.

– Hábito alimentar: pacientes que não costumam se alimentar em horários regulares ou fazem longos períodos de intervalo entre as alimentações estão mais sujeitos ao ganho de peso, pois o organismo quando passa muito tempo sem receber alimento entende que o mesmo está escasso, que passará por privações e o resultado é um aumento do apetite para carboidratos, gorduras e açucares (alimentos com maior teor calórico que permitem o armazenamento de gorduras no tecido adiposo). Todo o indivíduo com fome fará em sua próxima refeição escolha por carboidratos ou terá mais vontade de “beliscar” doces e salgados com alto teor calórico (isto pode ocorrer sem que o paciente se dê conta). A melhor dica é se alimentar de 3 em 3 horas em pequenas quantidades ou interpor às principais refeições (café, almoço e jantar) uma fruta ou um lanche leve. Os pacientes que comem espaçadamente, fazem apenas uma ou duas grandes refeições ao dia ou são “beliscadores” tenderão a ganhar peso também com as medicações psiquiátricas.

– Compulsão alimentar: indivíduos obesos ou com sobrepeso que já tenham dificuldade para controlar o peso por apresentar algum transtorno alimentar, seja compulsão alimentar periódica, bulimia ou anorexia nervosa, precisam tratar do transtorno alimentar independentemente de tratarem também do outro transtorno mental. Da mesma forma os pacientes que descontam a ansiedade na comida (geralmente “beliscadores compulsivos”) precisam relatar ao médico este sintoma para um tratamento específico.

– O próprio transtorno: existem transtornos psiquiátricos que causam aumento de peso, p.ex. transtorno bipolar, algumas formas de depressão (principalmente as ansiosas), outros transtornos de ansiedade e, claro, os transtornos alimentares. A melhor forma de perder peso é tratar o transtorno de base.

Em segundo lugar deve-se ter em mente que o fato de um medicamento “poder causar ganho de peso” não deve inviabilizar o tratamento. A grande maioria dos medicamentos psiquiátricos pode provocar ganho de peso. Um maior exemplo disso é a fluoxetina, antidepressivo usado com frequência por endocrinologistas para emagrecimento. Embora a fluoxetina cause emagrecimento nos primeiros meses, por um efeito colateral de enjoo e perda do apetite, a maioria dos pacientes ganha peso após 1 ano de uso da fluoxetina.

Se você for se preocupar mais com o possível efeito colateral do que com o efeito terapêutico do medicamento, não vai conseguir se tratar. Você pode iniciar o medicamento e paralelamente monitorar seu peso. Em caso de ganho de peso, deve relatar ao médico e discutir com ele as alternativas, sem precisar abrir mão do seu tratamento e de sua estabilidade.

Muitos argumentam que aumentando o peso sentir-se-ão pior psicologicamente (com o que concordo plenamente, não é agradável para ninguém ganhar peso!). Porém é preciso considerar que este ganho pode ser transitório, que você pode vir a perder peso novamente e, por se sentir melhor de seu transtorno de base, conseguir manter hábitos de vida mais saudáveis e compatíveis também com um corpo mais em forma.

Costuma ser assim com grande parte dos medicamentos psiquiátricos que causam aumento do peso. Após um período, que geralmente não ultrapassa os 6 meses, esse ganho se estabiliza e o paciente começa a perder. Claro que no início do tratamento, dependendo do ritmo de ganho de peso, será possível decidir se podemos ou não aguardar este prazo.

Portanto:

1) Não se desespere ou desista do tratamento antes de tentá-lo. Você pode estar “queimando” um medicamento que pode fazer grande diferença no seu transtorno e você nem sabe ainda se ele terá ou não consequências no seu peso.

2) Não se deixe levar por fóruns na internet, geralmente as pessoas que postam lá são as que estão insatisfeitas com o medicamento ou não o toleraram.

3) Lembre-se de que cada caso é um caso. Existem pessoas que ganham peso, outras que perdem, outras que ganham por um período e depois perdem, enfim, você só poderá perceber qual o seu caso se experimentar o medicamento.

4) Seu médico vai ouvi-lo e acompanhá-lo passo a passo, caso esteja ganhando peso além do esperado isto será considerado e alternativas serão discutidas com você.

5) Procure fazer a sua parte: faça uma atividade física regular, cuide de sua dieta, não passe muito tempo sem se alimentar, se estiver beliscando muito, peça uma ajuda para controlar este comportamento, dose seus hormônios, pesquise se existem outras causas para o ganho de peso.

Não vamos fazer do ganho de peso mais um tabu para não cuidar da saúde mental. Já basta a resistência de aceitar o transtorno e a necessidade de tratamento psiquiátrico. Juntos podemos encontrar as alternativas e vencer o problema.

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Autor: Dr. Leonardo Palmeira

Psiquiatra pela faculdade de medicina da UFRJ com especialização e pós-graduação em Psiquiatria pelo Instituto Philippe Pinel, Rio de Janeiro. Membro Titular da Associação Brasileira de Psiquiatria e Membro da Sociedade Internacional de Pesquisa em Esquizofrenia (Schizophrenia International Research Society) desde 2005. Autor do livro "Entendendo a Esquizofrenia.

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