Bullying: A Engrenagem Social
Preconceito, Poder e Sociedade: As Raízes Invisíveis do Bullying e Como Desarmá-lo
No artigo anterior, vimos o impacto devastador do bullying na saúde mental, na autolesão e nas taxas de suicídio. Mas para solucionar um problema, precisamos entender o que o alimenta. Afinal: o bullying é apenas um desvio individual ou ele funciona como um espelho das desigualdades da nossa sociedade?
Neste 20 de outubro (Dia da Conscientização sobre o Bullying), examinamos como os preconceitos estruturais — como racismo, misoginia e etarismo — a classe social, o gênero e os modelos socioeconômicos alimentam essa engrenagem de violência. E o que podemos fazer para desarmá-la.
O Bullying reproduz a hierarquia social?
Análises detalhadas da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) em escolas públicas e privadas brasileiras revelam dados marcantes sobre como os privilégios e as opressões afetam o comportamento:
- Classe social e renda: o nível socioeconômico é o marcador social que mais reproduz as hierarquias de poder. Alunos de maior nível socioeconômico têm maior probabilidade de praticar bullying, enquanto estudantes de menor nível socioeconômico estão significativamente mais propensos a sofrer a violência. O poder econômico e o status de elite muitas vezes são usados como ferramentas de dominação simbólica e exclusão do outro.
- Gênero: meninos apresentam taxas mais elevadas de envolvimento direto no bullying (como agressores e também como vítimas de agressões físicas) do que meninas, com diferenças ainda mais acentuadas nas escolas privadas. Contudo, mulheres e meninas enfrentam formas mais sutis de agressão relacional e assédio institucional moral na vida adulta.
O Bullying Discriminatório
Quando a intimidação é motivada por quem a vítima é, ela é chamada de bullying baseado em viés. Sofrer ataques por aspectos identitários gera traumas psicológicos muito mais graves do que o bullying genérico:
- Etarismo (preconceito de idade): a ideia de que idosos são “obsoletos”, “inválidos” ou “fardas sociais” alimenta o bullying praticado por pessoas mais jovens contra idosos. Essa discriminação etária se traduz em piadas pejorativas, infantilização forçada, exclusão de conversas e agressões verbais ou cibernéticas quando o idoso tenta ocupar espaços públicos ou digitais.
- Racismo e xenofobia: estudantes e trabalhadores negros, indígenas, imigrantes ou pertencentes a minorias raciais enfrentam taxas elevadas de humilhações e exclusão cultural.
- LGBTfobia: jovens e adultos LGBTQIAPN+ estão entre os grupos mais vulneráveis a intimidações severas, apresentando altos índices de estresse de minoria e desesperança.
- Misoginia e rigidez de gênero: a cobrança por padrões tradicionais de masculinidade e feminilidade gera a ridicularização de quem não se enquadra nas expectativas sociais.
As raízes estruturais: neoliberalismo e meritocracia
O bullying não nasce no vazio. Ele é impulsionado por valores culturais que incentivam a dominação do mais forte sobre o mais vulnerável:
- Neoliberalismo e hipercompetitividade: a cultura de metas individuais agressivas e a lógica do “vencer a qualquer custo” transformaram escolas, universidades e empresas em arenas predatórias. O resultado é o bullying institucional, onde práticas abusivas são mascaradas como “busca pela excelência” ou “gestão forte”.
- O Mito da Meritocracia: a narrativa de que “todos partem do mesmo lugar” serve frequentemente para responsabilizar a vítima pelo próprio sofrimento (a ideia de que ela “não foi forte o suficiente”), ocultando os privilégios de quem agride.
Como Combater e Desarmar o Bullying?
O combate efetivo exige ações coordenadas em várias frentes:
- Programas escolares e comunitários universais: metodologias comprovadas (como os programas KiVa e Olweus) envolvem a comunidade inteira, capacitam educadores e cuidadores para agir rapidamente e ensinam as testemunhas a não se calarem.
- Ações governamentais e legislação brasileira: o Brasil avançou no tema através do Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Lei nº 13.185/2015) e com a Lei nº 14.811/2024, que tipificou o bullying e o cyberbullying no Código Penal e incluiu a indução ao suicídio virtual no rol dos crimes hediondos.
- Combate ativo ao etarismo e às discriminações: campanhas de conscientização intergeracional e letramento sobre a longevidade ajudam a promover o respeito mútuo entre jovens e idosos.
- Apoio psicológico estruturado: disponibilização de terapias baseadas em evidências (como TCC e ACT) na rede pública de saúde para fortalecer emocionalmente as vítimas e reabilitar os agressores.
Conclusão
Combater o bullying não é apenas ensinar “boas maneiras”, mas construir uma sociedade intergeracional justa, empática e plural. Cada vez que nos recusamos a silenciar diante de uma injustiça, estamos ajudando a quebrar essa engrenagem.
💡 Leia também o artigo sobre Recusa Escolar aqui no blog!
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