Professores dizem que psiquiatria transformou depressão em doença da moda.

Os norte-americanos Jerome Wakefield e Allan Horwitz são professores de universidades e especialistas em diagnósticos de transtornos mentais.

A partir de suas pesquisas, escrevem "A Tristeza Perdida", livro em que esmiúçam a forma como a depressão vem sendo tratada por médicos e psicólogos.

Para os autores, a psiquiatria contemporânea confunde tristeza normal com transtorno mental depressivo. E o faz porque ignora a relação entre os sintomas e o contexto em que eles aparecem. O subtítulo do livro --"como a psiquiatria transformou a depressão em moda"-- marca a posição dos professores em relação ao tema.

Wakefield e Horwitz analisam, ao longo de 11 capítulos, questões como o conceito de depressão e de depressão no século 20, o aumento significativo do consumo de antidepressivos e o impacto da patologia na sociedade.

Examinando evidências históricas, filosóficas e psicologias, ambos questionam se a psiquiatria atual distingue com ética e eficácia o que é normal e o que é patológico.

CLIQUE AQUI e leia o prefácio e as primeiras páginas do livro.

Fonte: Associação Brasileira de Psiquiatria


Elyn Saks e a comovente história de quem superou a esquizofrenia.

A partir deste mês o Blog do Dr Leonardo Figueiredo Palmeira irá abordar através de seus artigos mensais os principais temas da Segunda Conferência Internacional da Sociedade de Pesquisa em Esquizofrenia, realizada em abril deste ano em Florença, Itália.

O primeiro artigo é sobre a conferência de abertura, ministrada pela Doutora Elyn Saks (foto), professora de Direito da Universidade da Califórnia do Sul, autora do livro “The Center Cannot Hold: My Journey Through Madness*” (sem tradução para o português), onde ela conta sua batalha pessoal contra a esquizofrenia.

Elyn Saks adoeceu na adolescência, mas só veio a aceitar a doença vinte anos depois de tentar lutar sozinha contra as alucinações terríveis e as paranóias que tinha. Iniciava e parava os tratamentos, se recusava a tomar as medicações, que, segundo ela, lhe traziam muitos efeitos colaterais e a faziam se sentir artificial.

“Eu tinha um pensamento incontrolável de que meu terapeuta era o demônio e que poderia me matar. Era um delírio que me distanciava do tratamento”, recorda-se.

Na infância lembra-se que tinha algumas manias e obsessões, só podia se levantar da cama se seus chinelos estivessem virados para cima e postos lado a lado. Por muito tempo cismou que havia um homem que durante a noite ficava do lado de fora de sua casa, aguardando-a dormir para entrar e matar sua família.

“O primeiro sinal real de psicose, que eu me lembre, foi aos 15 ou 16 anos, quando eu matei a escola (coisa que eu jamais faria) e corri para casa. No caminho tinha a nítida impressão que as casas da rua me mandavam mensagens: você é má, você é o diabo, tome cuidado, nós vamos te pegar”, conta Elyn.

Ela emagreceu muito, ficou muito abatida, se isolou de todos na escola e, depois, na faculdade. “Eu não queria falar com ninguém, pois achava que assim eu espalharia minha maldade para todo mundo”, explica. “Quando cheguei ao hospital e me olhei no espelho, tomei um susto. Estava irreconhecível, muito abatida, descuidada. Pensei: qualquer um que olhasse para mim perceberia que estava louca”.

Somente aos 40 anos convenceu-se de que a doença não iria embora sozinha e que precisava da medicação e da psicoterapia. “Por 20 anos eu lutei com a aceitação. Ironicamente, quanto mais eu aceitava que tinha uma doença mental, menos a doença me dominava – até o ponto em que me libertei. É como se destrancasse uma porta que sempre esteve à minha frente, mas que, por medo, relutava abrir. Agora sinto que não tem mais volta. Desde então, passei a levar muito a sério a medicação e minha psicoterapia”, enfatiza.

Os médicos diziam lhe que alguém que sofria de esquizofrenia não tinha qualquer esperança de sucesso profissional e alguns lhe pediram que abandonasse a faculdade de direito. Mas Elyn continuou seus estudos, não só se formou, como hoje é uma renomada professora e pesquisadora de sua área. Em 2001 casou-se com Will, “que trouxe mais humor para a sua vida”. É o companheiro que a ajuda nos momentos mais difíceis e de maior estresse. “É ele quem me alerta de possíveis sinais e comportamentos que indiquem alguma recaída”, acrescenta.

Mesmo em tratamento e bem, ela não se descuida. “A psicose não é como um botão que você liga ou desliga, é como um dimmer, que você regula o nível de intensidade. Neste momento eu conheço minha doença muito bem e não é tão incomum assim eu ter algum tipo de pensamento psicótico. Então eu falo para mim mesma: é apenas a minha doença atuando. Mesmo nos períodos em que começo a acreditar nas minhas maluquices, penso no que as outras pessoas vão pensar e me controlo para não parecer louca. É a forma como procuro me livrar dos sintomas”.

Ela escreveu este livro para dar esperança às pessoas que sofrem de esquizofrenia e para que as outras pessoas compreendam melhor a doença. “Espero que esta história ajude a implodir os mitos que cercam a doença mental”, conclui.
Ao final de sua palestra, Elyn listou aquilo que considera ser fundamental na recuperação de uma pessoa que sofre de esquizofrenia:

1) Tomar a medicação corretamente
2) Viver com a família ou com animais de estimação: ela destaca o papel dos bichos de estimação, como cães e gatos, na recuperação de esquizofrênicos.
3) Evitar o isolamento
4) Envolver-se espiritualmente (igreja, religião)
5) Hábitos saudáveis de vida como exercícios físicos e alimentação saudável
6) Evitar drogas e álcool
7) Evitar atividades e ambientes superestimulantes ou estressantes
8) Evitar ambientes com muita gente e viagens muito longas
9) Trabalhar em um ambiente acolhedor
10) Participar de serviços ou grupos de recuperação/ressocialização
11) Fazer psicoterapia

*O livro de Elyn Saks ainda não foi traduzido para o português, mas pode ser encontrado em inglês em livrarias que vendem pela internet.


Congresso Mundial sobre Esquizofrenia

Especialistas do mundo inteiro se reúnem em Florença, Itália, para o segundo congresso da Sociedade Internacional de Pesquisa em Esquizofrenia, entre 10 e 14 de abril. Os maiores pesquisadores da área são esperados num evento que discutirá amplamente os avanços no campo da pesquisa, como promessas de novos medicamentos, estratégias de reabilitação psicossocial e de terapia familiar e novas descobertas da genética e da neurobiologia da esquizofrenia.
Estarei lá e enviarei as principais novidades através do Portal Entendendo a Esquizofrenia e do blog! Em função disso, peço desculpas por eventuais atrasos nas respostas às mensagens aqui postadas. Retorno em 25 de abril.


Achado gene relacionado à esquizofrenia.

Uma mutação genética que bloqueia a comunicação entre duas áreas do cérebro responsáveis pela memória seria uma das causas da esquizofrenia, segundo revelou estudo publicado ontem na “Nature”.

O trabalho mostrou que a alteração conhecida como 22q11, comum em pacientes esquizofrênicos, impede o fluxo de informação entre o hipocampo e o córtex pré-frontal.

— Mostramos que essa mutação específica atrapalha a comunicação entre essas duas regiões cerebrais, provocando problemas cognitivos — afirmou Joshua Gordon, da Universidade de Columbia. — Este é o primeiro passo. Com um pouco mais de estudo e compreensão sobre o que ocorre nessas áreas, poderemos desenvolver terapias que ajudem a restabelecer a comunicação entre essas regiões.

Caracterizada por alucinações e pensamentos desordenados, a esquizofrenia é bem mais comum em homens do que em mulheres e, normalmente, é diagnosticada no fim da adolescência ou início da idade adulta. Estima-se que a condição afete uma em cada 100 pessoas.
Embora existam drogas no mercado capazes de controlar a doença, elas não curam a desordem e podem ainda provocar efeitos colaterais severos, como ganho de peso excessivo.

O estudo foi feito com camundongos — metade deles com a mutação comumente presente nos pacientes esquizofrênicos.

Os cientistas registraram a atividade mental dos roedores submetidos a um teste de memória. O sucesso na tarefa dependia diretamente da comunicação entre as duas regiões do cérebro. Os registros feitos revelaram que os animais portadores da mutação não conseguiam realizar o teste.

Fonte: Jornal O Globo (01/04/10)


Entrevista no Portal Consulte sobre Esquizofrenia.

Parte 1 – Estima-se que a esquizofrenia atinja 1% da população, entre homens e mulheres de todas as classes sociais. De difícil diagnóstico, quanto antes for descoberta, melhor e mais rapidamente o paciente estará curado. Acompanhe aqui a entrevista com o autor do livro Entendendo a Esquizofrenia, o psiquiatra Dr. Leonardo Figueiredo Palmeira, que explica o que é a doença, quais suas causas e sintomas.

1. O que é a Esquizofrenia?
É uma doença mental, cuja característica fundamental é uma dissociação entre pensamento, emoção e percepção. A pessoa perde a capacidade de integrar suas vivências psíquicas internas e externas e com isso acaba tendo sintomas como delírios - que são crenças irreais, fantasias nas quais a pessoa acredita como se elas fossem de fato reais, alucinações - que são percepções falsas do meio, então a pessoa pode escutar vozes, ver coisas, ver vultos que não existem, sentir sensações estranhas no corpo. Enfim, a pessoa, por esta dissociação das suas funções psíquicas, tem vivências que são falsas, mas que ela toma como realidade. Então ela acaba perdendo o juízo crítico da realidade. Não consegue mais discernir a fantasia da própria realidade. Isto leva a outros sintomas comportamentais, dificuldade de relacionamento, introspecção, retraimento emocional, isolamento social que são outros sintomas que compõem a esquizofrenia.

2. Quais os fatores causadores da doença?
Ainda não há uma causa totalmente conhecida. Mas o que se sabe hoje é que a metade do risco da doença é composta por fatores genéticos e a outra metade por fatores ambientais. Existem possivelmente centenas de genes que predispõem a pessoa a desenvolver a esquizofrenia, mas não basta ter esses genes. A doença surge de uma combinação de fatores genéticos e ambientais, principalmente fatores que ocorrem precocemente ao longo da vida da pessoa, como durante a gestação, o parto e a primeira infância. Esses fatores ambientais ativam os genes de predisposição à doença, gerando uma vulnerabilidade da pessoa adoecer ao longo da vida. Alguns exemplos de fatores ambientais seriam:

a) Durante a gravidez - infecções maternas como pelo vírus da gripe, rubéola, toxoplasmose, depressão materna, problemas do parto (parto difícil, parto de emergência, hipóxia neonatal, prematuridade, baixo peso ao nascer).
b) Na primeira infância - traumas psíquicos, maternagem deficiente, perda dos pais, infecções do Sistema Nervoso Central.

Esses genes, na presença dos fatores ambientais, seriam ativados e interfeririam no desenvolvimento cerebral criando esse estado de vulnerabilidade. A pessoa fica, então, vulnerável e, na presença de fatores estressantes, ela pode desencadear um surto. Isso é mais comum na adolescência, por ser o momento de formação da personalidade, de cobranças e responsabilidades, aumentando o estresse. Essa pessoa não suporta a sobrecarga e entra num processo de adoecimento, de surto.

3. Fatores genéticos ou fatores ambientes isoladamente podem levar à esquizofrenia?
Veja, a combinação de fatores genéticos e ambientais leva a pessoa a desenvolver uma vulnerabilidade à doença. Ela precisa ter ao longo da vida alguma situação de sobrecarga social ou cotidiana que a leve a desencadear a doença. Há pessoas com predisposição genética, mas que não desenvolvem a doença por não possuírem os fatores ambientais que deflagram todo o processo. Também existem pessoas que têm os genes para a doença, passaram por fatores ambientais de risco, ou seja, possuem a vulnerabilidade, mas que ao longo da vida não foram submetidas a situações de estresse suficientes para o início da doença. Então, existem vários cenários possíveis, em que mesmo tendo a predisposição, a pessoa não adoece. Por exemplo, um pai esquizofrênico não necessariamente vai ter um filho esquizofrênico; ele herda os genes do pai, como herda os genes da mãe, pode ter uma predisposição hereditária, mas pode não ter todos os ingredientes necessários para o adoecimento.

4. Então quem tem um familiar com a doença tem mais chance de também ter a doença?
Esta é uma dúvida muito freqüente que as pessoas perguntam no site: ‘Meu pai ou irmão é esquizofrênico. Qual a possibilidade de eu ser ou do meu filho ser esquizofrênico?’. Estatisticamente essa chance é pequena, tem estudos mostrando que no caso de um dos pais esquizofrênico, o risco do filho ser esquizofrênico é de 12%, o que não é um risco grande, justamente porque o que causa a doença é a combinação de todos os fatores citados. Em outros estudos com gêmeos idênticos, que têm, portanto, o mesmo DNA e teoricamente o mesmo risco de adoecimento, que foram criados no mesmo ambiente, a taxa de concordância para a esquizofrenia é de 50%, ou seja, um gêmeo tem esquizofrenia e o outro vai desenvolver a esquizofrenia apenas em 50% dos casos. Então isso mostra que o peso da hereditariedade é 50% assim como o peso dos fatores ambientais, sejam os fatores precoces que vão alterar o desenvolvimento da pessoa e deixá-la vulnerável à doença, sejam os fatores posteriores que vão desencadear o surto.

5. Qual é a faixa etária mais atingida?
É uma doença que acomete pessoas jovens. A faixa de idade na maior parte dos casos é dos 15 aos 35 anos, sendo que, os homens adoecem mais precocemente do que as mulheres. O pico de incidência nos homens é dos 15 aos 25, nas mulheres dos 25 aos 35 anos. Podem acontecer casos fora desta faixa etária, mas são raros. A esquizofrenia raramente acorre na infância, acredita-se que menos de 1% dos esquizofrênicos desenvolvam a esquizofrenia antes dos 10 ou 12 anos de idade. Existem casos posteriores aos 35 anos, podendo ocorrer aos 40, 45 anos, mas são raros. Dentro do conceito de vulnerabilidade, imagina-se que uma pessoa aos 35 ou 40 anos de idade já tenha passado por fatores externos estressantes suficientes para desencadear a doença. Basicamente são pessoas em idade jovem, em idade produtiva, pessoas em que se espera uma autonomia, uma força de trabalho, formação de família. Enfim, isso é para mostrar como a esquizofrenia pode interferir diretamente com a qualidade de vida e com as perspectivas que a pessoa tem de ter uma vida produtiva e saudável.

6. Como identificar os sintomas da doença, de forma a procurar um especialista e iniciar o tratamento o mais rápido possível?
Essa é uma questão crucial e também difícil de responder, porque quanto mais rápido você iniciar um tratamento, melhor o prognóstico, menor as chances da pessoa desenvolver um surto mais grave, maior a probabilidade dela se recuperar plenamente, de voltar às suas atividades normais.

O primeiro sintoma da esquizofrenia geralmente é o retraimento e o isolamento social. O adolescente acometido pela esquizofrenia - antes de entrar em delírio, alucinações, maiores deturpações da realidade - se fecha, fica muito introspectivo, absorto em seus próprios pensamentos, dúvidas, angústias, ansiedades. A pessoa perde referenciais de vida, começa a questionar coisas absurdas como sua própria existência, a razão das coisas, explicações para fatos naturais, começa se interessar por temas mais exóticos ou mais científicos, acaba se envolvendo com literaturas que tratam do assunto, pode ter interesses específicos em religião, astronomia, física, enfim, buscando uma resposta para o estado interno. Esse estado chamamos de humor delirante difuso, que ainda não é o próprio delírio, mas o estado inicial de angústia que leva a pessoa a entrar no surto psicótico. Então, a pessoa começa se isolar, fica introspectiva, não quer ir à escola ou trabalho, não quer mais se socializar, se isola no quarto e se fecha para o mundo.

7. Estes sintomas podem ser confundidos com uma depressão?
Muitas vezes a família vê isso como um estado de depressão ou até mesmo como algo passageiro da adolescência, uma crise existencial. É por isso que é difícil diagnosticar a doença nesse período, pois dificilmente a família vai levar a pessoa ao médico, ao psiquiatra. Além da resistência natural que todo familiar tem em relação a isso, somente famílias que já sabiam de outros casos de esquizofrenia, que já tenham passado por essa experiência, é que vão acender a luz de alerta. Mas a grande maioria dos casos passa como uma depressão, uma crise normal, passageira. E aí, então, a família só vai despertar para o problema quando o surto eclodir, por ser o momento em que a pessoa começa a falar de suas crenças irreais, de coisas sem sentido, com um comportamento mais alterado e desorganizado. Mas os primeiros sinais, antes do primeiro surto, são esses: isolamento, introspecção, retraimento, dúvidas existenciais, procura por explicações para tudo, a necessidade de vivenciar significados em tudo que acontece.

É importante e desejável que se faça o diagnóstico antes do surto para atuar preventivamente e, com isso, evitar todas aquelas perdas que a pessoa tem, em que o indivíduo se desconecta da realidade, não se relaciona normalmente com as pessoas, se afasta de todos e de tudo, como trabalho e estudo, evitando assim grandes repercussões que uma crise psicótica pode ter para o funcionamento da pessoa.

Parte 2 – A esquizofrenia, uma vez diagnosticada e devidamente tratada, pode permitir que o paciente volte a levar uma vida normal. Acompanhe nesta entrevista com o Dr. Leonardo Figueiredo Palmeira algumas informações importantes sobre as crises, os diferentes tratamentos e a possibilidade de cura da doença.

1. Os pacientes em crise podem ser violentos chegando ao ponto de agredir as pessoas?
Pacientes podem se tornar violentos em uma crise psicótica, mas a violência não é comum a todos os casos. Um dos grandes estigmas da esquizofrenia é justamente achar que o esquizofrênico é violento, que oferece um risco à sociedade, mas isso não é verdade. Se fizermos um levantamento dos casos de esquizofrenia, veremos que a grande parte dos pacientes – 70% a 80% dos pacientes - é muito mais vítima do que algoz de alguma violência. Então, até pelo estado de vulnerabilidade que os indivíduos se encontram, pelo estado de apreensão que o surto psicótico traz, eles se acuam. Às vezes se tornam violentos para se proteger, porque se sentem ameaçados. É preciso saber se a pessoa se sente ameaçada ou não e pra isso é preciso conversar com a pessoa, saber exatamente o que está se passando na sua mente, se está se sentindo perseguida por alguém, se ela acha que vão invadir seu apartamento ou se acha que vão fazer algum mal para sua vida. É natural que a pessoa se arme, se defenda de possíveis invasores. Então, neste sentido, a pessoa pode se tornar violenta, mas na maioria dos casos não funciona desta forma.

2. E quanto ao suicídio, o paciente em crise corre este risco?
O risco de suicídio na esquizofrenia é grande, depois da depressão e do transtorno bipolar é a doença mental que mais tem risco de suicídio. Então é importante conversar com o médico do paciente para que este risco seja melhor investigado. Existem pacientes que podem tentar o suicídio durante o surto, às vezes até em obediência a alucinações que mandam se jogar, se ferir. Podem ter um comportamento suicida após o surto, por uma depressão ou quando caem na realidade e vêem que tudo aquilo faz parte de uma doença e que terão que conviver com a rotina de tratamentos. Tomar consciência do problema também pode de alguma maneira levar à depressão e ao suicídio. Realmente são situações em que tanto a família quanto os profissionais precisam ficar atentos. Existem estudos que mostram que até metade dos pacientes com esquizofrenia podem vir a tentar o suicídio em algum momento de sua vida e as taxas de suicídio na esquizofrenia giram em torno de 10%. Então realmente é motivo para termos certa preocupação, naturalmente sem exagerar, mas sabendo que isso pode ocorrer, para poder prevenir, conversar melhor com o paciente, dar apoio à família, o suporte necessário para que isso não aconteça.

3. Quais são os tratamentos possíveis para a doença?
A esquizofrenia possui o tratamento químico (medicamentoso) e tratamento psicossocial, através de terapia individual, reabilitação social e terapias ocupacionais. No tratamento medicamentoso, existem medicamentos que são antipsicóticos, que atuam no cérebro bloqueando receptores de dopamina. Isto porque uma das principais alterações químicas cerebrais que ocorre na esquizofrenia é o excesso de dopamina e que causa delírios, alucinações e alterações de comportamento. Portanto, esses medicamentos corrigem este desbalanço de dopamina e com isso tratam efetivamente a doença, melhorando a capacidade do paciente se relacionar com as demais pessoas e de retomar suas atividades.

Mas existem pacientes que além da questão psicótica, possuem o que chamamos de sintomas negativos – outro ponto bastante importante a ser abordado. Esses sintomas negativos são a apatia, a dificuldade de iniciativa, o isolamento social, a dificuldade de se envolver em atividades produtivas como trabalho ou atividades sociais. Enfim, pessoas que vão melhorar do surto, sair daquele estado psicótico, mas vão ter dificuldade de retomar suas atividades normalmente. Para esses pacientes é importante que além da medicação se ofereça terapias de reabilitação. Elas incluem a psicoterapia, para ajudar a pessoa a ter mais consciência de sua doença e de seus pontos fortes e pontos fracos, para trabalhar melhor sua capacidade de enfrentamento, sua auto-estima e o seu envolvimento em atividades, e terapias ocupacionais, através de oficinas e atividades que possam recuperar a capacidade da pessoa de se relacionar socialmente e de exercer atividades produtivas. Para isso existem os centros de atenção psicossocial e os hospitais-dia, onde os pacientes freqüentam as atividades de reabilitação social. Existe também a reabilitação neuropsicológica, porque a esquizofrenia tem sintomas cognitivos, como dificuldade de atenção, memória, concentração, dificuldade de planejamento e de organização de suas atividades, que podem ser recuperados com um treinamento adequado.

4. A eletroconvulsoterapia (eletrochoque) é indicada?
É um tratamento polêmico, até porque já foi muito mal utilizado no passado, usado inclusive como medida punitiva para mau comportamento em clínicas psiquiátricas, ou seja, foi um tratamento que acabou ficando muito estigmatizado, embora seja um tratamento eficaz do ponto de vista médico. Existem pacientes que precisam do eletrochoque e realmente melhoram como não melhorariam com medicamentos convencionais.

Os critérios de indicação para o eletro-choque são os seguintes:
a) Primeiro - quando o quadro é grave e o paciente não responde à medicação ou quando não se pode esperar pela resposta à medicação. A medicação pode demorar de 8 a 12 semanas para fazer efeito. E há casos que são graves, em que a pessoa corre risco de vida e não se pode perder tempo. Nestes casos, o eletrochoque acaba sendo indicado por ser um tratamento relativamente rápido. Uma pessoa submetida a 3 ou 4 sessões de eletrochoque – o que se dá aproximadamente em uma semana - tem uma melhora substancial do quadro.

b) Outras indicações - quando há catatonia, ou seja, quando o paciente fica imóvel, numa mesma posição, não interage e, portanto, não se alimenta, não ingere líquidos. Este estado traz riscos de problemas físicos, como desidratação e desnutrição, sendo necessário intervir rapidamente. Na gravidez, quando a paciente não pode usar a medicação, ou quando ela coloca em risco a saúde do feto.

É importante que se diga que a eletroconvulsoterapia hoje em dia é feita em condições totalmente diferentes do que no passado, em ambiente hospitalar, com o paciente anestesiado, monitorado através de aparelhos que controlam a pressão e os batimentos cardíacos e através do eletroencefalograma para ver se o estímulo elétrico aplicado foi eficaz. É um procedimento que está regularizado tanto pelo Ministério da Saúde como pelo Conselho Federal de Medicina, portanto é um procedimento legal, feito também em outros países. Existem alguns efeitos colaterais, sendo o principal deles as alterações de memória. Durante o período em que faz as sessões, o paciente pode ter problemas de memória recente, não se recordando de coisas que acontecem nos dias próximos às sessões, mas depois do tratamento ele a recupera plenamente.

5. O paciente pode ficar 100% curado, inclusive não necessitando mais de medicamentos? Recaídas são comuns?
Esta resposta é muito variável e, naturalmente, depende do caso. Em torno de 20% das pessoas que desenvolvem esquizofrenia tem um único surto, se recuperam fazendo o tratamento por um período de 1 ou 2 anos, melhoram e podem ficar sem medicação, podem viver uma vida normal e sem uma nova recaída. Neste caso, estamos falando de pessoas que têm uma forma mais leve da doença e que, portanto, são pessoas menos vulneráveis, mais resistentes às sobrecargas cotidianas e que terão menos chances de recaídas.

Porém, a maior parte dos pacientes tem um curso que é recorrente, ou seja, pode sim desenvolver novas crises e aí a evolução vai depender de diversos fatores. Primeiro, do próprio tratamento, tanto medicamentoso, quanto psicoterápico e psicossocial, que precisa ser mantido por um período. Esse tratamento vai fortalecer a pessoa quanto à sua vulnerabilidade. Portanto, a esquizofrenia não é uma doença necessariamente crônica, com a qual a pessoa terá de conviver para o resto da vida. O que é pra vida inteira é a vulnerabilidade. Então, se a pessoa passa futuramente por um período de estresse, por algum trauma ou situação de desequilíbrio, pode sim desencadear uma nova crise. Mas se estiver em tratamento, se fortalecendo, as chances de recaída são menores.

6. Quais são os fatores desencadeantes destas recaídas e como evitá-las?
Os fatores que influenciam as recaídas são o próprio tratamento e o ambiente em que a pessoa vive. A família se coloca em uma posição de muita importância, porque as sobrecargas advindas da convivência familiar, muitas vezes por cobranças excessivas, críticas, brigas e desentendimentos vão, ao longo do tempo, se tornando uma sobrecarga emocional e um fator de desequilíbrio a mais e que pode levar o paciente a recair mais vezes, apesar do tratamento. Alem disso, temos os fatores sociais que se relacionam à vida da pessoa, como o trabalho, por exemplo. A pessoa que se recupera de um surto e começa um trabalho muito estressante, onde as cobranças excedem sua capacidade de corresponder às demandas, pode também ter uma nova crise.

Então é importante que os pacientes com esquizofrenia não só façam o tratamento do surto, mas sejam acompanhados ao longo do tempo para saber quais são as suas necessidades, fragilidades, para fortalecer sua capacidade de enfrentar o estresse, saber manejar os conflitos da melhor forma possível para evitar uma reincidência da doença.


A vulnerabilidade ao estresse: onde começa e onde termina a doença mental?

Pouco se sabe sobre a origem dos transtornos mentais, mas já é bem estabelecido que fatores genéticos e ambientais convergem para o adoecimento. A hereditariedade é um aspecto importante, já que muitos pacientes apresentam um histórico familiar positivo para distúrbios mentais. Entretanto, é comum que os transtornos mentais na família sejam diferentes, por exemplo, um tem depressão, o outro tem Transtorno do Pânico e um terceiro é bipolar.

Estudos genéticos têm associado diversos genes a diferentes distúrbios mentais, mas têm encontrado genes comuns a mais de um transtorno. No caso da esquizofrenia e do transtorno Bipolar (TBH), onde se tem maior robustez científica, vários genes (disbindina, DISC I, COMT, neuroregulina, dentre outros) foram encontrados tanto em pacientes esquizofrênicos como bipolares.

Isto nos leva a um questionamento: seriam os genes específicos para o transtorno A ou B ou eles predisporiam a pessoa ao adoecimento qualquer que fosse a síndrome? E sendo esta segunda hipótese verdadeira, o que faria com que a pessoa desenvolvesse depressão e a outra esquizofrenia?

Isso poderia explicar também porque familiares com a mesma carga genética não adoecem, enquanto outros desenvolvem transtornos mentais graves. Ou seja, embora a genética seja importante, ela não é preponderante. Entram em jogo fatores ambientais, o temperamento e a personalidade da pessoa, que podem tanto protegê-la, como empurrá-la para uma síndrome.

É neste contexto que entra um conceito da década de 70, a vulnerabilidade da pessoa ao estresse, ou seja, sua incapacidade de resistir às pressões, traumas e desgostos da vida, aos quais todos estamos expostos. Naquela época já se dizia que o que poderia ser inato não era a doença mental, mas a vulnerabilidade pessoal de desencadeá-la. E que ter ou não a doença dependeria de inúmeras variáveis, como criação, temperamento, personalidade, posturas e hábitos de vida, traumas, etc.

Pelo conceito de vulnerabilidade, um dos princípios fundamentais para a saúde de um organismo, é manter sua homeostase, seu equilíbrio fisiológico. Se estamos com sede ou precisamos saciar nossa fome, é porque nosso organismo detectou alguma ameaça à nossa homeostase e nos alertou a prontamente agirmos para seu reequilíbrio. As células do nosso corpo também agem sob este princípio. Este seria uma espécie de pulsão vital.

Quando algo de estressante ou desagradável nos ocorre, também agimos para buscar um alívio e restabelecer as condições de felicidade. Experimentamos, nestes momentos, mesmo que seja por um breve período, uma sensação de angústia ou aflição, perdemos algumas noites de sono, ficamos sem apetite, mas logo nos recuperamos e estabelecemos o status quo.

Nessa hora entram em cena o que psiquiatras chamam de disposição e capacidade de enfrentamento. São ferramentas que utilizamos para resolver assertivamente os problemas da vida. O que ocorre em pessoas vulneráveis, é que a disposição e sua capacidade para solucionar seus problemas não são suficientes para recuperar a homeostase, seja porque o trauma ou o infortúnio da vida é muito grande, difícil de transpor, seja porque sua disposição e capacidade de enfrentamento não estão adequadas. O sofrimento psíquico, então, se prolonga e ganha contornos dramáticos, uma vez que a pessoa não vê saída.

A genética pode explicar, em parte, porque alguns são mais vulneráveis, porque uns surtam diante de um problema e outros apenas se abalam, mas conseguem se reequilibrar. Mas certamente que a genética não atua isoladamente. As influências do temperamento (também inato) e da personalidade (adquirida através da criação, das experiências emocionais no início da vida) são de suma importância. Algumas pessoas têm verdadeiro tropismo para problemas, envolvem-se em relacionamentos conturbados, têm condutas de risco, expõem-se a drogas, enfim, criam consciente ou inconscientemente uma atmosfera propícia para o estresse e se colocam em risco o tempo todo para o adoecimento psíquico. É como se colocassem em cheque toda a sua capacidade de enfrentamento, mas se esquecem que o estresse crônico mina sua própria resistência.

O tratamento psiquiátrico, através de medicamentos, procura aliviar os sintomas para aguçar a percepção e permitir que a pessoa possa recuperar suas habilidades de enfrentamento para lidar com a situação adversa. Muitos quadros psiquiátricos vêm acompanhados de alterações cognitivas, como da atenção e da memória, que dificultam à pessoa planejar sua vida e tomar decisões acertadas para reestruturá-la. Neste sentido, a manutenção dos sintomas aprisiona a pessoa em seu marasmo atual, impedindo que ela evolua e saia do quadro.

A psicoterapia é outro ponto fundamental. Medicações podem atuar a curto prazo e devolver à pessoa alguma estabilidade, mas é através da psicoterapia, compreendendo seus pontos fracos e trabalhando para aperfeiçoar suas habilidades de enfrentamento, que a pessoa reunirá condições psicológicas para um dia interromper os medicamentos e seguir sua vida.

Mas as medicações podem ser essenciais para que a psicoterapia de fato aconteça. É comum que num quadro agudo a pessoa circule em círculo, sem conseguir perceber e elaborar suas questões, impedindo, assim, a progressão do tratamento. Por isso o tratamento aliado (medicação e psicoterapia) é comprovadamente mais eficaz do que os tratamentos isolados.

Um aspecto que considero fundamental na recuperação de longo prazo é a mudança de hábitos, comportamentos e atitudes diante das situações de vida, como trabalho, relacionamento, família. Muitos pacientes perceberão, através do tratamento, erros que podem predispô-los a um novo episódio e imprimirão mudanças em seus comportamentos para evitar a repetição.

A maior parte das recaídas ocorrem por fatores sociais ou biológicos que se repetem ao longo dos anos. No caso dos fatores biológicos, a identificação é importante para determinar se aquela pessoa precisa de um tratamento preventivo, inclusive através de medicamentos. É o caso das depressões sazonais, em que a pessoa desenvolve um episódio depressivo sempre no inverno e isso independe de outros fatores sociais. É o caso de algumas apresentações de transtornos cíclicos, como o transtorno bipolar e a esquizofrenia, em que a pessoa, p.ex, tem um episódio uma ou duas vezes por ano. Quando se percebe um padrão de recorrência claro, talvez seja negócio tratar continuamente a fim de se evitar a próxima recaída.

Mas grande parte dos quadros psiquiátricos não apresenta um padrão claro de recorrência (embora possa ser recorrente) que sugira um gatilho biológico para uma nova crise. Eles recorrem muitas vezes por repetição ou manutenção de fatores psicossociais geradores de estresse. A esquizofrenia, doença mental mais consolidada pelas pesquisas científicas, sofre fortes influências do meio em que a pessoa vive. Tem sido comprovado que o estresse proveniente da convivência familiar pode determinar se um paciente terá mais ou menos crises psicóticas. Esquizofrênicos com famílias compreensivas e colaborativas com o tratamento e a reabilitação tem até 70% menos recaídas e hospitalizações do que aqueles que possuem famílias críticas ou hostis. O mesmo pode ser aplicado a pacientes com outros transtornos, como TBH, TOC, Borderline, entre outros.

Então, um dos enfoques do tratamento é mudar os fatores do ambiente sócio-familiar que estão interferindo no processo de adoecimento. Ambientes como trabalho, círculos sociais, amizades prejudiciais seguem o mesmo raciocínio. Sempre que houver uma sobrecarga emocional ou estresse, pode ocorrer um desequilíbrio da homeostase, aumentando a vulnerabilidade da pessoa a um novo episódio da doença.

E porque muitas pessoas tomam remédios a vida toda? Primeiro é preciso separar aquelas que precisarão da medicação por apresentarem doença mais grave, crônica ou recorrente, sendo a medicação um fator preventivo de suma importância. Mas mudar comportamentos, hábitos, estilos de vida não é simples e muitos relutam e, por isso, agarram-se às medicações. É como emagrecer. A maioria quer tratamentos de resultados rápidos, como medicamentos, cirurgias, em detrimento de dietas demoradas e atividades físicas. Porém, qual resultado durará mais tempo? Emagrecimentos rápidos estão relacionados a ganho posterior de peso, enquanto àqueles com mudança real dos hábitos alimentares e do estilo de vida mantém-se magros para a vida toda. Vinte anos após o surgimento da cirurgia bariátrica (para redução de peso) já assistimos a pacientes operados que recuperaram seu peso antes da cirurgia.

Em suma, a transformação pessoal para uma vida mais feliz e sem episódios psiquiátricos precisa partir de dentro para fora, com a ajuda de medicamentos e psicoterapia, mas não pode se furtar de mudar o meio em que a pessoa vive. A cura está na capacidade de reduzir a sua vulnerabilidade e de aumentar sua capacidade de enfrentamento às situações da vida.

Para entender mais sobre a biologia dos transtornos mentais CLIQUE AQUI


Ômega 3 previne doenças mentais, inclusive esquizofrenia.

Pesquisa diz que a gordura ômega 3 de espécies como o salmão previne psicoses

Um novo estudo mostra que consumir cápsulas de óleo de peixes de água fria, como salmão, atum e sardinha, ricos em ácidos graxos ômega 3, ajudaria a prevenir problemas mentais. Em artigo publicado na revista especializada “Arquivos de Psiquiatria Geral”, os autores afirmam que o uso desses suplementos por três meses parece ser tão eficaz quanto remédios. Este tipo de gordura reduziu em 25% o índice de doenças psicóticas, incluindo esquizofrenia.

Os cientistas realizaram a experiência com 81 indivíduos, de 13 a 25 anos, com um alto risco para transtornos psicóticos. Eles já apresentavam sintomas moderados de psicoses ou tinham história familiar de transtornos mentais, como esquizofrenia. Metade tomou suplementos de óleo de peixe (1,2g de ácidos graxos ômega 3) durante 12 semanas.

A outra parte recebeu apenas placebo (substância inócua). Os grupos foram acompanhados por um ano pela equipe de Paul Amminger, principal autor do estudo.
Embora o número de participantes não seja muito alto, o resultado foi significativo.

No grupo que ingeriu suplementos, dois manifestaram transtorno psicótico. No grupo placebo, este número chegou a 11. Para os autores, o ômega 3 interfere de forma positiva, restaurando os neurônios no cérebro, e a descoberta oferece esperança de ter opções além de fármacos, que causam efeitos adversos importantes, como aumento de peso e disfunção sexual.

Estudo brasileiro tem resultado semelhante No início deste mês, um estudo com ratos, no laboratório da Disciplina de Neurologia Experimental da Unifesp, revelou que o ômega 3 é capaz de regenerar neurônios, o que pode abrir caminho para o desenvolvimento de drogas para regenerar o cérebro de pessoas com epilepsia e alguns tipos de demência. Os resultados são promissores, mas precisam ser confirmados.

Fonte: O Globo (03/02/10)


O estresse posto à mesa: pessoas estressadas comem mais.

Leiam o artigo publicado no site sobre saúde e bem estar Vya Estelar, que aborda muito bem como o estresse pode estar associado à obesidade e compulsão alimentar.
Pessoas expostas ao estresse comem mais
Dentre as queixas mais comuns entre os pacientes que procuram tratamento médico e nutricional para a obesidade, cerca de 80% relacionam seu ganho de peso ao estresse. “Na verdade, algumas características da vida moderna podem estar intimamente relacionadas a um balanço energético positivo, levando ao ganho de peso.
Dentre elas, podemos citar alimentação inadequada, sedentarismo e mais recentemente, o estresse”, diz a endocrinologista Ellen Simone Paiva.
Os fatores estressores da sociedade moderna são frutos da rotina puxada das empresas, das relações familiares e sociais, além de fatores intrínsecos, como a privação de sono, por exemplo. Geralmente, o corpo humano responde ao estresse através de adaptações físicas ou comportamentais, aumentando o estado de alerta diante de novas situações, a tolerância à dor e a produção e liberação de substratos energéticos dos estoques corporais, principalmente sob a forma de glicose e gordura. “Esses substratos em excesso são conhecidos por causarem alterações metabólicas ligadas à obesidade e ao diabetes. Será esta a relação possível? Ou seja, será esse o elo que liga a obesidade ao estresse da vida moderna?”, questiona a médica.
A reação normal e a patológica ao estresse
Até certo ponto o estresse pode ser benéfico e conduzir o indivíduo a alcançar metas importantes no trabalho e na vida pessoal. A curto prazo, na maioria das vezes, o organismo se reequilibra, sem comprometimento da saúde física e mental. A reação normal esperada a um fator estressor pode se manifestar com enfretamento ou fuga. “Algumas vezes, a resposta não atende a nenhuma dessas condições e o indivíduo não consegue nem se engajar na luta, nem na fuga do agente estressor, sofrendo as consequências do estresse de maneira a gerar um estado de fragilidade a várias doenças, principalmente quando ele é intenso e prolongado”, afirma.
Exposição ao estresse e compulsão alimentar
O hábito de comer talvez seja um dos fatores que mais sofre as repercussões do estresse da vida moderna. “Os relatos são unânimes: as pessoas comem muito mais quando expostas a fatores estressores, podendo ocorrer queixas de fome excessiva, comportamento beliscador e até uma necessidade patológica de consumir grandes volumes de alimentos: a compulsão alimentar”, destaca a endocrinologista.
Um fato intrigante, relata Ellen Paiva, são os relatos de alguns pacientes, que não encontram explicação para o volume alimentar consumido e afirmam categoricamente que mesmo comendo pouco, ganham peso. Esse fato tem levantado a questão do papel do estresse na origem da obesidade, independentemente da alimentação
Efeitos da privação do sono
Nos últimos 30 anos, a média de sono noturno das pessoas sofreu uma redução de 8/9 horas para 6/7 horas. Entre os americanos, a média de sono é ainda menor, uma vez que 30% deles dormem menos do que 6 horas por noite. Vários estudos recentes têm relacionado a privação do sono com a ocorrência aumentada de obesidade e de diabetes tipo 2. “A privação do sono pode estar relacionada à obesidade através de vários fatores. O primeiro deles trata-se de um estado de estresse crônico. Além disso, várias alterações hormonais induzidas pela privação de sono podem influenciar o ganho de peso, como é o caso da grelina e leptina, hormônios relacionados ao controle da fome e da saciedade”, diz.
Hormônios do estresse e o ganho de peso
Um fator importante na busca pelas causas da obesidade foi a constatação de que nos quadros de estresse, notamos um aumento de alguns hormônios relacionados à obesidade. Tratam-se dos corticoides, ou a conhecida cortisona, que tem a capacidade de aumentar o peso de pacientes, quanto utilizada sob a forma de medicamento, e até quando produzida em excesso pelo organismo, em algumas doenças. “Será que o estressado crônico poderia engordar pelo excesso de corticoide, mesmo sem comer muito?”, questiona a médica.
“Nossas dúvidas não estão sanadas a esse respeito, uma vez que muitos indivíduos estressados e com elevação da cortisona não engordam e, por outro lado, muitos obesos estressados não expressam aumento do seu corticoide endógeno. Por isso, muito provavelmente, a diferença entre esses pacientes é o volume de alimentos ingeridos”, afirma Ellen Paiva.
A conclusão é que o estresse pode sim ser um fator favorecedor da obesidade, principalmente pelo aumento da resistência insulínica, pelas alterações dos hormônios relacionados à fome e à saciedade, pela privação do sono e até mesmo pelo excesso de corticoide. “Mas o maior fator associado ao ganho de peso é comportamental. O que engorda é o balanço energético desfavorável: a associação da ingestão excessiva de calorias somada ao sedentarismo”, conclui a endocrinologista.
Fonte: Vya Estelar


Notícia: remédio mais popular para emagrecimento, a sibutramina, tem sua venda proibida na Europa

A notícia saiu no jornal O Globo de hoje (26/01/10) e alerta para riscos de infarto e derrame causados pela sibutramina. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) irá analisar até o final desta semana se também proibe a venda da substância no Brasil, atualmente a lider de vendas para emagrecimento. Nos EUA, o FDA, órgão regulador, restringiu a prescrição de sibutramina e alertou os médicos sobre possíveis riscos à saúde.
A Agência Europeia de Medicamentos proibiu esta semana a venda da sibutramina, atualmente a droga para emagrecer mais usada no Brasil e nos Estados Unidos, de acordo com informações do British Medical Journal (BMJ). Nos EUA, o medicamento teve sua venda restrita em dezembro após uma avaliação da Food and Drug Administration (FDA), que observou que a droga aumenta o risco de infartos e derrames.

Segundo a agência europeia, os riscos da sibutramina superam seus benefícios. Junto com a proibição, foram divulgados dados do estudo "sibutramine cardiovascular outcomes trial (SCOUT)", que mostrou que o risco de infarto do miocárdio aumenta 16% em pessoas que tomam o medicamento. Em artigo publicado no BMJ, os pesquisadores da Agência Europeia de Medicamentos afirmam que "médicos não devem mais prescrever este medicamento, e farmacêuticos não devem tê-lo em estoque. Pacientes que tomam a sibutramina devem consultar um médico e discutir formas alternativas de perder peso". Fonte:http://oglobo.globo.com/vivermelhor/mat/2010/01/25/sibutramina-remedio-de-emagrecimento-mais-popular-no-mundo-tem-venda-proibida-na-europa-915698597.asp
EM TEMPO: A ANVISA DECIDIU NÃO PROIBIR A SIBUTRAMINA NO BRASIL, MAS PROPÔS ALGUMAS RESTRIÇÕES:
A partir da análise do estudo, a Anvisa recomenda a contra indicação do uso de medicamentos à base de sibutramina para pacientes com perfil semelhante aos incluídos no estudo SCOUT:
a) Pacientes que apresentem obesidade associada à existência, ou antecedentes pessoais, de doenças cardio e cerebrovasculares;
b) Pacientes que apresentem Diabetes Mellitus tipo 2, com sobrepeso ou obesidade e associada a mais um fator de risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares.
A Anvisa, por meio da Câmara Técnica de Medicamentos (Cateme) fará nova avaliação do estudo, com o objetivo de investigar os níveis de segurança do medicamento em pacientes com perfis distintos dos já estudados. Essa avaliação poderá levar a Agência a determinar outras medidas restritivas ao uso da substância. Fonte: site ANVISA


Leite materno previne problemas mentais em crianças

Sempre é bom lermos estudos que comprovam aquilo que todos já imaginavam. A amamentação é fundamental para a saúde psíquica de uma criança, inclusive com repercussões positivas para a vida adulta. A Organização Mundial de Saúde recomenda a amamentação exclusiva até os 6 meses de idade e depois até os 2 anos de idade
Bebês amamentados por mais de seis meses apresentam melhor saúde mental

Estudo feito por pesquisadores australianos diz que o leite materno protege as crianças de transtornos mentais, como depressão, ansiedade, problemas de comportamento, entre outros. Eles afirmam que bebês amamentados por mais de seis meses apresentam melhor saúde mental.
Uma hipótese é que o contato com a mãe tem um efeito positivo no desenvolvimento de aspectos neuroendócrinos necessários à resposta ao estresse (fator de risco para danos psiquiátricos). Outra explicação é que o leite materno tem ácidos graxos e componentes bioativos essenciais para o desenvolvimento.
A equipe de Wendy Oddy, do Instituto Telethon de Investigação da Saúde Infantil, iniciou a pesquisa em 1989, acompanhado 2.900 mulheres na metade da gestação. Os autores anotaram todos os dados da família e a forma de alimentação dos bebês (leite materno ou artificial) e período de amamentação. De 2.366, 11% não receberam leite do peito; 28% tomaram leite materno de seis meses a 12 meses, e 24% mais de um ano.
As mães mais jovens, com 12 anos ou menos de estudos, mais estressadas e que fumaram durante a gravidez estão no grupo que deram o peito por menos de seis meses. E, segundo os autores, um curto período de amamentação está relacioanado com aumento da incidência de doenças mentais. Fonte: O Globo, 19/01/10


Avalie seu temperamento e participe da pesquisa online.

Esta é uma pesquisa séria do grupo do Dr. Diogo Lara, da PUC de Porto Alegre, e que quer avaliar o temperamento dos brasileiros para relacioná-lo aos principais distúrbios mentais.
Foi baseado em um de seus livros, Modelo de Raiva e Medo, que desenvolvi o teste de temperamento deste blog. É muito útil na prática clínica conhecer melhor o temperamento do paciente. Isso ajuda no tratamento, tanto psiquiátrico como psicoterápico, como orienta o paciente quanto aos pontos fortes e fracos que precisam ser melhorados para uma vida mais tranquila e feliz.
A pesquisa está disponível pela internet e recomendo a todos que participem. Basta acessar www.temperamento.com.br
Veja abaixo a reportagem que foi ao ar hoje no Jornal Hoje, da TV Globo.

Médicos brasileiros estão desenvolvendo uma pesquisa que pode ajudar no tratamento de doenças comportamentais, como depressão, ansiedade e estresse. O estudo procura voluntários em todo país. Você pode participar de casa porque as informações são colhidas pela internet. E você recebe, de graça, a avaliação de uma equipe médica.
Os médicos já sabem: de 35% a 50% da população têm algum tipo de transtorno psiquiátrico. O problema é que a maioria não procura ajuda por falta de informação ou preconceito.
“Cada vez mais estão surgindo evidências de que o comportamento da pessoa, seu jeito de ser, está relacionado com as doenças mentais que a pessoa pode vir a manifestar e também com a forma que essa doença se manifesta na pessoa”, esclarece Gustavo Ottini, psiquiatra.
E há vários tipos de transtornos. Por exemplo, 10% da população já teve ou terá depressão ao longo da vida. Mulheres, pessoas com stress provocado por doenças ou que tiveram perdas em geral, como relacionamentos ou trabalho são as mais afetadas. Elas apresentam sintomas como falta de vontade, tristeza e perdem o prazer em atividades que antes gostavam de realizar.
Entre os homens a irritabilidade também chama a atenção e para saber como o temperamento influencia ou é influenciado pelos transtornos psiquiátricos um grupo de pesquisadores da PUC, de Porto Alegre, criou uma pesquisa na internet.
Qualquer pessoa com mais de 18 anos pode participar. Bastar ter um computador ligado à internet e um endereço eletrônico. O voluntário não precisa se identificar. E depois de responder o questionário, ele recebe na hora uma avaliação psicológica.
Uma espécie de mapa comportamental. A pessoa fica sabendo como estão os níveis de medo, sensibilidade, controle, vontade, se está ansioso, apático. Um diagnóstico rápido que pode servir para o início de um tratamento. A ideia é coletar os dados de 50 mil voluntários. Para os médicos, a estatística final pode ajudar nos consultórios.
“A escala de temperamento que a gente desenvolveu pode ser útil depois para consultórios de psicólogos e psiquiatras para antecipar o perfil do paciente e de que maneira aquela pessoa pode ter mais ou menos chances de desenvolver os transtornos psiquiátricos. Então abreviaria e ao mesmo tempo deixaria mais completa a avaliação, em pouco tempo”, diz Diogo Lara, psiquiatra.
Heloísa comemora os avanços que teve depois que descobriu e começou a tratar a depressão. Para ela, se conhecer é o primeiro e mais importante passo para viver melhor. “Tem coisas que são do temperamento, que de repente é normal. E outras que seriam transtornos psiquiátricos e a pessoa já vai se encaixar nisso e talvez procurar ajuda. Fica muito mais fácil”, comenta Heloísa Galvão, aposentada.
Fonte: Site G1 - Jornal Hoje - 12/01/2010


Nem tudo é depressão.

Vale a pena ler o texto do juiz Afif Simões Neto, publicado no jornal Zero Hora do dia 05/01/10, que aborda como a depressão caiu no senso comum das pessoas.
Tristeza já era. Agora tudo é depressão.
Faleceu a estimada tristeza, uma senhora de gestos comedidos, vestimenta adequada às circunstâncias, exemplo de sobriedade. Não se dá mais o direito ao necessário exílio voluntário, à espera de que o desencanto decorrente de algum infortúnio pessoal vá embora tal como de manso se chegou. Antes, quando os anos transcorriam a passo de boi de canga, a melancolia era encarada como um estado de espírito variável, influenciado inclusive pela mudança da lua, das estações, da chegada esguia do vento norte.
Agora tem sempre por perto um entendido em curto-circuito mental para sentenciar: o que tu tens é um profundo quadro de depressão. Pra quê! Começa aí, caso o veredicto seja aceito sem o esboço da reação, a vagarosa caminhada em direção ao autoaniquilamento, triste fim para quem estava apenas triste com determinado fim.
Nos memoráveis tempos da brilhantina, se um sujeito levava da namorada um bicudo bem dado no traseiro, recolhia-se em copas, tomava de dois a três porres bem tomados e partia pra outra, sem muita encucação ou crises existenciais. Era bola pra frente e zero a zero no placar do jogo temerário do amor. Hoje, a perda da mulher amada exige acompanhamento psicológico e psiquiátrico, como se dor de guampa pudesse ser curada com antidepressivos ou conversa no divã. Virou chiquérrimo estar deprimido. Coisa de gente endinheirada, dos famosos da televisão, de quem tem café no bule. Ou vocês conhecem um único auxiliar de pedreiro – também conhecido nas hostes da construção civil como meia-colher – que padeça desse mal? Pobre tem outras preocupações, incuráveis todas elas sob o ponto de vista da medicina ortodoxa. Pagar a conta da água, da luz, de arrumar comida pra miuçalha que berra de fome, isso quando ainda existe gás no bujão.
Mas é nos velórios que aflora toda a tristeza geneticamente escandalosa daquela gente humilde que o Chico cantou como perito. Grita, sapateia, abraça o morto com caixão e tudo. Na hora de fechar a tampa, acena com a possibilidade de ir junto, ainda que o espaço na condução seja reduzido. Passada a fase do luto fechado, a vida vai adquirindo aos poucos o seu tranco rotineiro, dispensada a ajuda da indústria farmacêutica. Já o esnobe abonado emergente – ou o que se acha como tal – sai direto do cemitério para a sala de espera dos consultórios médicos, devidamente “paleteado” por algum membro da família. E, então, dê-lhe se entupir de remédios de tarja preta, cujos efeitos colaterais transformam-se lentamente na própria depressão que se pretende combater. É a degradação causada pela cura. Troço meio doido, mas é assim mesmo que funciona, embora simplória a comparação.
Sobre isso, a propósito, li um comentário na internet muito interessante. Um cara deu a ideia – coisa de gênio – de que a sociedade politicamente organizada bem que poderia treinar pobres para ajudar ricos deprimidos a ficarem curados! Assim, pelo menos criaria emprego e geraria renda para a penúria dos casebres. Além do bolsa-família e do vale-pílula, haveria o bolsa-banzo!
Sem querer me tornar presunçoso, a figura do violão é capaz de explicar essas diferenças anímicas. Qualquer música pode-se tirar das cordas tangidas, desde a valsa dolente até um limpa-banco, de acordo com a vontade de quem a faz ressoar. Enquanto a corda estiver inteira, haverá ruído, harmonioso ou desagradável ao ouvido, divertido ou tristonho. Mas quando a corda explodir, não adianta nem tentar amarrar a parte rompida, pois a sonoridade foi pro saco. Isso seria a depressão. A corda que se rompe sem conserto. O som que se cala. Antes que tal aconteça, toca a vida como se fosse a corda que ainda vibra. Não esperes que ela arrebente nos teus dedos...


Drogas contra depressão são pouco eficazes em caso leve a moderado

Esta notícia foi publicada no último dia 7 por alguns jornais e na internet. A fonte que cito é o Globo Online. Serve de alerta à população que faz uso indiscriminado de antidepressivos, com certeza não se refere às pessoas que estão se tratando adequadamente com seus médicos. Mas vamos abordar mais este tema aqui no blog este mês. São muitos os pacientes que me procuram após anos de antidepressivos sem uma melhora clara e isto merece mais reflexão de nós profissionais.
Nova investigação é a primeira a analisar as respostas de centenas de pessoas em tratamento de sintomas moderados. O Globo Online - Seção: Viver Melhor - 07/01/2010
NOVA YORK - Algumas drogas amplamente receitadas para aliviar os sintomas de depressão não são mais eficazes do que placebos na maioria dos casos, segundo uma nova pesquisa publicada na revista da Associação Médica Americana.
Os resultados do estudo, realizado nos EUA, podem ajudar a esclarecer o longo debate sobre o uso de antidepressivos, embora os autores não afirmem que esses medicamentos são inúteis para indivíduos com depressão moderada a grave. Porém, a nova investigação é a primeira a analisar as respostas de centenas de pessoas em tratamento de sintomas moderados.
- O estudo pode diminuir o entusiasmo com relação a antidepressivos, o que pode ser uma coisa boa - diz o psiquiatra Erick H. Turner, da Universidade de Ciência e Saúde do Oregon. - As expectativas das pessoas para as drogas não serão tão elevadas, e os médicos não serão surpreendidos se não conseguirem curar todos os pacientes com medicamentos. Foram revistos seis grandes estudos sobre o tema.
Mas Turner diz que os resultados não devem desestimular pacientes, a ponto de se recusarem a tentar tratamento com esse tipo de droga. A equipe - incluindo psicólogos que defendem a terapia e médicos ligados a fabricantes de medicamentos - avaliou seis grandes estudos clínicos, feitos com 728 homens e mulheres; metade deles com depressão grave e a outra parte com sinais moderados.
Três dos ensaios foram com o Paxil, da GlaxoSmithKline, um inibidor seletivo da recaptação da serotonina (SSRI, sigla em inglês), como o Lexapro e o Prozac etc, e os outros três com imipramina, genérico mais antigo da classe dos triíclicos. O grupo, liderado por Jay C. Fournier e J. Robert DeRubeis, da Universidade da Pensilvânia, descobriu que, comparados com placebos, as drogas causaram alívio mais acentuado nos sintomas de depressão grave, com pontuação de 25 ou mais na escala padrão de gravidade. Pacientes com pontuação inferior a 25 tiveram pouco ou nenhum benefício adicional.


Campanhas na TV em Portugal combatem o estigma contra as doenças mentais.

A Associação Encontrar+se está empenhada em combater o estigma da doença mental em Portugal. Este ano, incomodada com a repetida utilização da palavra autista pelos políticos portugueses, desenvolveu uma campanha contra a utilização do termo através de anúncios na televisão, estimulando um acordo entre os líderes parlamentares para coibir o mau uso da palavra.

A associação é conhecida também por outras campanhas, como sobre a esquizofrenia. No Brasil não assistimos na TV anúncios como estes, mas deveríamos, pois não se combate o estigma sem mobilização social. Por aqui, no Congresso e na mídia em geral é comum ouvir o termo esquizofrenia aplicado de forma pejorativa quando se quer dar a conotação de algo ruim ou "sem pé nem cabeça". Vale a pena assistir aos vídeos.

Short-cuts: Solidão pode ser contagiosa como gripe.

Essa pesquisa é muito interessante e mostra como a rede social é crucial tanto para manter nossa saúde mental como no desencadeamento de processos mórbidos, como a depressão. Agora, o surpreendente desta pesquisa é a conclusão de que pessoas solitárias transmitem a solidão umas às outras, tornando-se progressivamente mais isoladas. Imaginem isso numa família, num grupo de amigos. Tenho certeza de que todos nós já presenciamos isso e, muitas vezes, nos afastamos para evitar que o ânimo do outro nos "contamine". Fonte: BBC Brasil

A pesquisa da Universidade da Califórnia San Diego, Universidade de Chicago e de Harvard descobriu que as pessoas solitárias tendem a dividir a solidão com outras pessoas. Gradativamente, durante um período de tempo, essas pessoas acabam, em grupo, se afastando dos seus círculos socias.

"Detectamos um padrão extraordinário de contágio, que leva as pessoas à fronteira da rede social quando ficam solitárias", afirmou o psicólogo John Cacioppo, da Universidade de Chicago, um dos pesquisadores que participou do estudo. "Na periferia (da rede social) as pessoas tem menos amigos, e a solidão destas pessoas ainda as leva a perder os poucos laços que ainda tem."No entanto, antes de cortar as relações, as pessoas que já estão na periferia das redes de contato social transmitem os sentimentos de solidão para os amigos que restaram, que também se transformam em pessoas solitárias."Estes efeitos significam que nosso tecido social pode se desgastar nas pontas, como um fio que está solto na ponta de uma blusa de malha", acrescentou Cacioppo.

O artigo foi publicado na revista especializada Journal of Personality and Social Psychology. Os cientistas americanos examinaram os registros de um estudo realizado no Estado de Massachusetts, desde 1948. Esta pesquisa foi realizada originalmente em Framingham para acompanhar um grupo de 5.209 pessoas, para avaliar o risco de doenças cardiovasculares. Desde então o estudo se expandiu para incluir cerca de 12 mil pessoas, filhos e netos do grupo original e outras pessoas, para diversificar a amostra populacional e também para incluir testes com objetivo de medir a solidão e depressão. Os pesquisadores entravam em contato com os voluntários a cada dois a quatro anos e coletavam os nomes de amigos que conheciam os pesquisados. Estes registros se transformaram em uma fonte de informação sobre a rede social dos pesquisados. Os pesquisadores elaboraram gráficos com a história das amizades dos pesquisados e sobre seus relatos de solidão. Com isso, conseguiram estabelecer uma forma de mensurar a solidão. As informações mostravam que os solitários "infectavam" as pessoas à sua volta com a solidão, e que estas pessoas se moviam para as periferias do tecido social. Por exemplo, os pesquisadores descobriram que a solidão se espalhou entre vizinhos que eram amigos próximos. A pesquisa também mostrou que, quando as pessoas ficam solitárias, elas confiam menos nas outras e dão início a um ciclo que torna ainda mais difícil para estas pessoas iniciarem uma amizade.

Segundo Cacioppo, "a sociedade poderá se beneficiar ao cuidar das pessoas que se afastaram dos círculos sociais, para ajudar a reparar suas redes sociais e criar uma barreira protetora contra a solidão, que possa evitar que toda a rede seja prejudicada". Richard Suzman, diretor da Divisão de Pesquisa Comportamental e Social do Instituto Nacional de Envelhecimento dos EUA, um dos que financiou a pesquisa, lembrou que "pesquisas anteriores mostraram que a solidão e a falta de conexão social podem ter um efeito negativo na saúde e bem-estar de pessoas idosas".


Erros e acertos da reforma da assistência psiquiátrica brasileira: para onde vamos?

A reforma psiquiátrica brasileira transformou a assistência à saúde mental no país, fechando leitos em hospitais psiquiátricos e criando dispositivos alternativos na comunidade, como os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e as residências terapêuticas, com objetivo de aproximar portadores de transtornos mentais graves da sociedade, permitindo maior integração social e resgatando sua cidadania. Inspirado no modelo de reforma italiana por Franco Basaglia, que praticamente acabou com os hospitais psiquiátricos naquele país, a reforma brasileira é hoje motivo de polêmica e de muita discussão acerca de seus erros e acertos.

Em 1941, o Brasil possuía 5,8 leitos para cada 10 mil habitantes. No período da ditadura houve uma grande ampliação do número de leitos com a criação de clínicas privadas e conveniadas ao SUS, chegando a 8,8 leitos para cada 10 mil habitantes. Com a reforma psiquiátrica, iniciada na década de 80, houve redução dramática de leitos para 4,4 por 10 mil habitantes em 1998 e, posteriormente, para 2,5 leitos por 10 mil habitantes em 2005 (pouco mais de 40 mil leitos em todo país). Um programa de avaliação hospitalar criado pelo governo federal (PNASH) avaliou os hospitais psiquiátricos em todo o país e fechou clínicas que não tinham os pré-requisitos necessários ao seu funcionamento e restringiu leitos em outras que precisavam se adequar às novas normas. Paralelamente a isso, foram implantados CAPS e residências terapêuticas, que seriam os serviços substitutivos ao fechamento dos hospitais, porém em velocidade muito inferior. Em 2002 existiam no país apenas 424 CAPS e este ano são 1394, responsáveis por apenas 57% da cobertura populacional, ou seja, quase metade dos brasileiros não tem acesso aos serviços, continuam recorrendo aos hospitais, sendo que há grande carência de profissionais e de leitos.

A redução de leitos psiquiátricos ocorreu também em outros países. Após a Segunda Grande Guerra, com o advento dos medicamentos antipsicóticos e dos movimentos pelos direitos humanos, muitos governos criaram serviços comunitários para substituírem o modelo de assistência centrado nos hospitais. Entretanto, como a internação continuava sendo necessária em muitos casos, como nas crises agudas, em que os recursos para tratamento extra-hospitalar não são suficientes, foram criados novos leitos em hospitais gerais. Em vários países ocorreu reestruturação da rede hospitalar geral para receber alas psiquiátricas, como nos EUA, Canadá, Inglaterra, Alemanha, França e Itália, inclusive. Este processo é mais moroso em países em desenvolvimento, como Brasil, Uruguai e Argentina. No Brasil, o número de leitos psiquiátricos em hospitais gerais não ultrapassa 5% do total de leitos (0,12 leitos/10 mil habitantes). Veja a tabela comparativa com a proporção de leitos para tratamento de transtornos mentais em alguns países:

 Leitos / 10.000Hospitais PsiquiátricosHospitais GeraisComunidade
Brasil2,52,440,12...
Uruguai5,44,780,62...
Argentina6,05,40...
EUA7,73,11,33,3
Canadá19,349,15,065,18
Cuba7,365,721,541,0
Itália4,6300,923,7
França12,07,03,0...
Alemanha7,54,52,9...
Austrália3,91,22,7...

O que muitos se perguntam é se a reforma psiquiátrica no Brasil tem gerado mais desassistência do que melhorado a atenção à saúde daqueles que sofrem de doenças mentais. A resposta a essa pergunta não é simples. Oferecer serviços abertos, próximos a comunidade e com a participação ativa de seus usuários é um inegável avanço. No caso da esquizofrenia, as internações prolongadas agravam os sintomas negativos e crônicos da doença e dificultam a recuperação do paciente, que para isso depende também da retomada de suas atividades sociais. Porém, no caso de crises agudas, a demora para um tratamento adequado, que inclui a dificuldade em internar alguém quando necessário, pode ser tão ou mais agravante para a sua saúde. A ciência tem demonstrado que numa crise psicótica ocorre liberação de moléculas inflamatórias (semelhante ao que ocorre na sepse – estado infeccioso generalizado), gerando um ambiente tóxico às células nervosas, provocando a perda de conexões sinápticas e a morte de neurônios. Isso torna o quadro mais grave, com muitas recaídas e pior recuperação. Por isso, especialistas do mundo todo têm enfatizado a necessidade de resposta rápida à crise, com providências imediatas que restaurem os tratamentos e possibilitem a recuperação plena.

A ênfase em dispositivos comunitários de tratamento, como os CAPS, é correta, pois possibilita a reabilitação social das pessoas em sua comunidade, porém os serviços precisam ser ampliados para uma maior cobertura e estar preparados para lidar com toda a complexidade da crise, o que requer leitos para internações curtas e profissionais qualificados. Por outro lado, é urgente criar novos leitos em hospitais gerais e na comunidade, através das residências terapêuticas, para assistir as pessoas em surto ou que não possam voltar às suas casas pela falta do suporte familiar ou porque se recusam a morar com a família. A saúde mental também não avançará se não forem criados incentivos para que pacientes em condições possam retornar ao mercado de trabalho e ter uma vida mais autônoma e independente. O Brasil não possui uma legislação específica que contemple o trabalho para portadores de transtornos mentais crônicos, com incentivos fiscais às empresas, como o que ocorre na deficiência física e mental.

Tanto se fala em reabilitação psicossocial, mas é necessário criar uma atmosfera social favorável a isso, para combater o estigma e o preconceito. E isto parte do princípio de termos serviços de qualidade e que acolham a totalidade de pacientes que deles necessitam, mostrando que a doença mental pode ser tratada, que as pessoas podem se recuperar e ocupar seus espaços na sociedade. A transformação desta realidade exige um investimento muito maior do que é feito hoje, quando os gastos com saúde mental não ultrapassam 2,5% do total de gastos do Governo com a saúde pública.

→ Assista ao programa Sem Censura especial sobre a reforma psiquiátrica no Brasil!