Dependente em tecnologia lembra uso diário de 15 horas e demissão por 'baixa produtividade'

Ainda que planejasse a rotina, a empresária Luísa, de 28 anos, percebeu que não conseguia cumprir as tarefas programadas devido ao uso excessivo de tecnologia. Ela admite que sacrificava coisas importantes da vida para assistir vídeos e relembra os piores momentos, quando passava de 12 à 15 horas diárias em frente às telas e vivia isolada.

— Eu acredito que o oposto da adicção é a conexão. Eu não conseguia me relacionar ou controlar a minha dependência. Pensava que iria assistir só um episódio, jogar uma fase, usar meu telefone por 10 minutos. Mas nunca conseguia parar por aí e percebi que precisava de cada vez mais estímulo para sentir o mesmo prazer — diz.

Luísa (nome fictício para preservar a identidade da entrevistada) percebeu que era compulsiva em 2017 e decidiu contar para a terapeuta. Porém, ela acredita que “não conseguiu se expressar bem”, o que provocou demora no diagnóstico.

— Minha terapeuta não entendeu a gravidade da questão logo de início. Ela achava que era algo passageiro e resultado de uma fase ruim — conta.

A adicta revela ter tentado diminuir o uso de tecnologia de inúmeras formas, mas todas falharam e provocaram uma recaída ainda maior. Ela percebeu que quando reduzia o tempo de contato com o seu principal gatilho, imagens em movimento, canalizava a atenção nas redes sociais.

Doutora em Saúde Mental e Professora da Pós-graduação do Instituto Delete/UFRJ, Anna Lucia Spear King explica que as tecnologias ativam a área de recompensa do cérebro. Segundo a psicóloga, o dependente passa a viver em um mundo virtual, onde pode esquecer os problemas da vida real.

— No caso dos videogames, por exemplo, os adictos passam a não querer sair do quarto e a urinar em garrafas. Isso tudo para não perderem o jogo. O meio virtual é uma vida paralela e muitas vezes melhor que a normal — aponta.

A dependência também prejudicou o trabalho de Luísa e causou uma perda contínua de eficiência, principalmente quando começou o home office, na pandemia. Ela relembra os dias em que abria o computador e não trabalhava.

Segundo a adicta, a baixa produtividade "gerou muitos problemas para a empresa" e provocou a sua demissão.

— Um dia acordei, tomei banho e o café da manhã. Faltava apenas sentar e trabalhar. Eu não conseguia fazer isso, então menti para a minha chefe. Falei que estava doente. Passei dois dias trancada no meu quarto assistindo televisão e mal me levantava até para comer — afirma.

Além dos prejuízos no meio profissional, o dependente também pode ter problemas na vida pessoal e na saúde. Anna Lucia aponta ser comum que adictos deixem de se relacionar com parentes e amigos. Problemas físicos como artrite e tendinite são motivos de preocupação.

Foi em 2022 que Luísa encontrou o ITAA (https://internetaddictsanonymous.org/pt/), um grupo de ajuda que segue os métodos do Alcoólicos Anônimos (A.A.) para atuar na recuperação da adicção em internet e tecnologia.

O programa de 12 passos adotado pelo ITAA - também chamado de DITA (Dependentes de Internet e Tecnologia Anônimos) - permitiu que ela tivesse contato com outros dependentes.

No tratamento, Luísa frequenta as reuniões do grupo e possui uma “lista de linhas” classificadas como vermelhas, amarelas e verdes, de acordo com os impactos das atitudes na sua recuperação.

— Para mim, séries e vídeos são linhas vermelhas, porque se faço uso, não consigo parar. As amarelas são comportamentos que podem levar para a vermelha. No meu caso, são as redes sociais. E as verdes são ações positivas, como exercício físico e prestação de serviços na irmandade — explica.

Luísa teve uma recaída após um mês de programa e, desde então, encontra-se sóbria. Ela abriu uma empresa quando estava em recuperação e relata ter resultados no trabalho que antes não imaginava que conseguiria. “Eu não dava nem conta das tarefas de um funcionário e agora sou empresária”, celebra.

Cinco anos após ter percebido que o uso de tecnologia não traria mais prazer, mas sim sofrimento, Luísa segue os princípios do programa de recuperação diariamente. O tratamento requer que ela relembre que continua uma adicta e precisa de ajuda.

— É impossível viver sem internet e tecnologia na sociedade atual. As minhas decisões em relação a isso se resumem a uma pergunta: o uso dessa tecnologia é circunstancial ou necessário? Qualquer pessoa que queira se recuperar da dependência consegue, basta ter a vontade de mudar — diz.

Uma pesquisa encomendada pela Digital Turbine, em 2021, constatou que 20% dos brasileiros não ficam mais de 30 minutos longe do celular. O estudo também detectou que cerca de 40% da população aumentou o uso de seus smartphones durante o pico da pandemia.

Mestre em psiquiatria pela UFRJ, Leonardo Palmeira acredita que as mídias digitais inauguraram um novo momento da história moderna: a sociedade da informação.

Para o especialista, os novos meios de comunicação permitem que os sujeitos deixam de ser meros passivos receptores de conteúdo, como ocorria com as tecnologias de massa (Televisão e rádio), para se tornarem produtores e consumidores.

— As mídias digitais nos pegam num nível pré-consciente e emotivo. Somos incentivados a produzir cada vez mais. Essa forma de comunicação pode se tornar compulsiva, deixando a pessoa refém da rede e dos algoritmos. Ela fica submissa e sujeita a afetos que podem ir da euforia à depressão e desespero — explica.

Palmeira diz ser necessário construir mecanismos para combater os malefícios dessa tendência. O psiquiatra elenca como pontos a serem trabalhados: a convivência coletiva e a troca de experiências. Além disso, destaca ser essencial a produção de conhecimento e consciência capazes de fazer frente a essa realidade.

— São inúmeros os riscos não só para a vida privada, mas para a democracia. As pessoas são facilmente influenciadas pela informação - muitas vezes falsas - e vivem num entretenimento desenfreado, na função de entreter a si próprias e às outras. Elas não tem noção das consequências que o sistema pode trazer para suas vidas, tanto do ponto de vista psíquico, como social — conclui.

Fonte: O Globo (reportagem de Luis Felipe Azevedo)


Compradora compulsiva lembra 'gatilho' de cartão de crédito e desejo de morte: 'fui salva por Fábio Porchat'

Ao mudar de cargo no hospital em que trabalha, em setembro do ano passado, a fisioterapeuta Bruna Almeida, de 52 anos, recebeu um novo cartão de débito, que poderia ser revertido em crédito, e chorou apavorada. As possibilidades oferecidas pelo objeto remetiam a “uma liberdade pela qual não poderia mais pagar”. Ela levou o cartão imediatamente ao psiquiatra que a atende desde quando foi diagnosticada como uma compradora compulsiva, em 2021.

— O médico me deu duas opções. Eu poderia retirar o cartão da carteira para não me incomodar ou deixar lá e aprender a conviver com isso. Eu decidi mantê-lo para descobrir como lidar com essa luta pela sobrevivência — diz.

Bruna (nome fictício empregado para manter o anonimato pedido pela entrevistada) gastava em média de R$ 8 mil a 10 mil mensais no cartão de crédito da mãe, em compras definidas por ela como “supérfluas e egoístas". Os valores eram sempre divididos em muitas parcelas. Além disso, a fisioterapeuta tinha um outro cartão, com limite de R$2.500, que era usado para comprar presentes para si.

Moradora de Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro, Bruna conta que precisou ser interditada por conta de problemas financeiros na pandemia, após o médico achar que ela sofria um infarto.

— Eu passei por um momento difícil na vida. Minha filha estava saindo de casa, aos 19 anos, para morar em outro estado e a Covid-19 fez com que muitos dos meus clientes particulares, que eram idosos, morressem. Nesse meio tempo, eu aumentei o valor dos presentes que me dava e não tinha mais como pagar as parcelas — afirma.

Mestre em psiquiatria pela UFRJ, Leonardo Palmeira explica que casos como o de Bruna existem pelo fato do cérebro humano ter um centro de prazer e recompensa, que uma vez estimulado pode provocar a dependência. No caso das compras, o compulsivo não consegue frear os impulsos pelo consumo e o excesso de estímulo provoca prejuízos na vida.

— O dependente tende a comprar cada vez mais. Ele sente prazer no momento do ato, mas muitas vezes se arrepende logo em seguida e não usufrui do produto. É assim que as pessoas vão desenvolvendo também uma relação de culpa, por questões de endividamento — aponta.

Bruna admite que “comprava mais do que devia” quando visitava uma loja. Ela alega que não buscava saber o preço dos produtos e sentia mais prazer quando gastava com “futilidades” e peças de alto padrão.

— Uma vez entrei em uma loja de marca para comprar uma calça jeans. Saí de lá com oito bolsas cheias e paguei R$ 3.500. Também cheguei a gastar R$ 1.200 em uma loja de biquíni. Hoje, com a limitação dos gastos, tenho dificuldade de sair de casa. A minha motivação é o dinheiro — conta.

Como aponta Palmeira, o dependente desenvolve uma relação pautada pela compra com determinados lugares. Isso explica a dificuldade de um compulsivo em passar pela vitrine de lojas ou supermercados e não consumir. Por outro lado, o psiquiatra ressalta que, com a tomada de consciência da doença, o dependente desenvolve uma fobia desses locais.

— É uma relação conflituosa de culpa. A pessoa sabe que perde o controle nesses ambientes, mas ela também precisa satisfazer aquele prazer instantâneo da compra — explica.

Após a descoberta do transtorno, a família recorreu a empréstimos, e o marido — que até então não sabia quanto ela ganhava ou gastava — precisou intervir. Segundo Bruna, ele estabeleceu “punições” para mostrar que ela não pode ter tudo o que quer.

O salário recebido pelo seu trabalho no hospital passou a ser encaminhado diretamente para a conta do marido, que pagava as despesas da casa e demais dívidas. Ela diz se sentir “humilhada” por precisar pedir dinheiro a ele, mas entende a necessidade do controle.

A dependente revelou ter enfrentado momentos de muita tristeza no período em que foi interditada, e diz que chegou a sentir vontade de tirar a própria vida.

— Naquela época, eu preferia morrer do que não poder comprar. Eu só me sentia segura trancada no quarto. O que me salvou foi o programa de conversas do Fábio Porchat ("Que história é essa Porchat?", do GNT). Aquilo me fazia rir e impediu que eu me jogasse da janela — conta, emocionada.

A fisioterapeuta passou a realizar compras apenas por PIX ou débito, e sua conta bancária é mantida com uma quantidade baixa de dinheiro. Ela pediu aos amigos do trabalho que a impedissem de pedir cartões de crédito emprestados para consumir.

Bruna define a luta contra a doença como diária. Além de acompanhamento com psiquiatra, ela também usa medicamentos controlados e faz terapia. Atualmente, a fisioterapeuta diz estar feliz e orgulhosa da mudança conquistada, mas não nega ainda ter problemas quando quer muito algo que não pode comprar.

— Eu não me arrependo de nada que comprei e não me sinto mais culpada pelo que aconteceu. Não tenho pretensão de repetir os meus erros. Tenho noção da minha doença e quero continuar me tratando — fala.

Palmeira afirma que o tratamento da compulsão por compras deve ser multidisciplinar. O trabalho deve envolver acompanhamento médico, psicoterapia e grupo de ajuda-mútua. O psiquiatra também ressalta a importância do apoio profissional aos parentes dos pacientes, por existirem traços familiares que podem reforçar o comportamento compulsivo.

Fonte: O Globo (reportagem de Luis Felipe Azevedo)


Apresentação do Grupo de Estudos sobre Recovery do Programa Entrelaços

Um grupo de usuários ligados ao Programa Entrelaços do IPUB/UFRJ e ao grupo 15 de Nós decidiu se reunir para estudar o tema do Recovery, debruçando-se sobre o capítulo da dissertação do Dr. Leonardo Palmeira (disponível em https://leonardopalmeira.com.br/dissertacao-de-mestrado-dr-leonardo-palmeira/). Essa apresentação traz um resumo sobre recovery feito por eles e um debate ao final com o autor.

https://youtu.be/-VpCRpdVQWo


Idosa é internada de maneira criminosa por filha em clínica psiquiátrica

Idosa é sequestrada pela filha na Zona Sul do Rio e internada em clínica psiquiátrica na Região Serrana.

O que precisa ser investigado na conduta médica e das equipes de saúde por trás deste caso?

Antes da Lei da Reforma Psiquiátrica (10.216/2001) não havia regulamentação para internações psiquiátricas e pessoas eram internadas involuntariamente à pedido da família com critérios frouxos que podiam violar os direitos humanos e civis delas.

A Lei determina dentre outros direitos do paciente que o Ministério Público seja comunicado pela clínica em até 72h sobre a internação involuntária e possa investigar se houve abuso dos direitos civis do paciente.

Os critérios para internação são mais rígidos e só se aplicam quando esgotadas as possibilidades de tratamento do paciente na comunidade em dispositivos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), como os CAPS.

Basicamente o médico psiquiatra que faz o primeiro atendimento precisa responder a três perguntas:

1) o paciente oferece risco à vida ou à integridade física dele que justifique uma internação involuntária?

2) a mesma pergunta em relação à vida ou à integridade de terceiros.

3) o paciente não tem condições clínicas de fazer o tratamento em comunidade nos recursos da RAPS ou, no caso da saúde suplementar, em ambulatórios ou consultórios médicos/hospitais dia?

Somente no caso de resposta afirmativa a uma dessas perguntas fica o médico respaldado na decisão da internação involuntária, ainda que sua decisão se contraponha à demanda da família. Não é, portanto, a vontade ou decisão da família que determina a internação.

A decisão do médico psiquiatra é delicada e a linha entre respeitar ou ferir direitos humanos e civis da pessoa em sofrimento mental pode ser tênue, razão pela qual as razões para a internação precisam ser bem fundamentadas para o médico não ser responsabilizado por violações.

Na dúvida desses critérios, a decisão deve respeitar a vontade e a liberdade do paciente, oferecendo dispositivos alternativos de cuidado, em que o paciente possa ser tratado em sua comunidade com avaliações continuadas para verificar seu estado de saúde em diferentes momentos.

Este caso chama atenção para possíveis negligências das equipes de saúde responsáveis pela primeira abordagem na rua (equipe de remoção) e pela internação na clínica, que podem configurar sequestro e cárcere privado.

Uma situação gravíssima e inadmissível depois da Reforma Psiquiátrica Brasileira, mas que antes da Lei era uma prática comum em clínicas e hospitais do país. Que a punição sirva de exemplo para possíveis práticas semelhantes que ainda possam ocorrer nos dias de hoje!

Veja a matéria do O Globo de 25/02/23.

Policiais da 9ª DP (Catete) prenderam em flagrante a filha e o genro de uma idosa por sequestrarem a vítima na Zona Sul do Rio e a internarem à força em uma clínica psiquiátrica na Região Serrana do estado. De acordo com as investigações, a idosa, de 65 anos, não tinha nenhuma doença nem necessidade terapêutica. Ela foi mantida na unidade particular de saúde para ser coagida a se retratar de uma notícia-crime que havia feito, denunciando maus-tratos sofridos pelos dois netos, de 2 e 9 anos, na Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (Dcav), dias antes.

Segundo o delegado Felipe Santoro, titular da 9ª DP, ao sair de uma agência bancária, no início da tarde de 6 de fevereiro a aposentada foi abordada na Rua do Catete por dois homens, que a colocaram em uma ambulância. Na ocasião, a idosa acreditou se tratar de uma “saidinha de banco” ou um sequestro relâmpago, mas logo percebeu que a violência acontecia a mando de sua filha, já que um dos criminosos disse que “era coisa de família”. 

Dentro da ambulância, a idosa narra ter chorado durante todo o trajeto até Petrópolis e, ao chegar à clínica, teve a bolsa e o celular retirados pelos funcionários, sendo colocada em um quarto sem janela nem ventilação por três dias. No local, ela disse ter sofrido com fome e sede e gritado diversas vezes por socorro. Depois, a idosa contou ter sido levada para um espaço coletivo, onde passou a ser obrigada a ingerir medicações.

Em depoimento, a vítima disse ainda que indagava os médicos por sua alta, mas eles passavam por ela sem a responder. Durante o carnaval, ela contou ter recebido a visita de sua filha, Patrícia de Paiva Reis, e do companheiro dela, Raphael Machado Costa Neves. O casal teria relatado à idosa que tentariam desqualificar o registro feito por ela na Dcav demonstrando que ela sofria de “desequilíbrio mental”.

Aos policiais, a aposentada narrou ainda que os dois netos, um deles com deficiência mental, sofrem maus-tratos. Ela relatou que as crianças não recebem alimentação nem asseio adequados. Depois de alguns dias internada, a idosa afirmou ter sido novamente colocada à força em uma ambulância e levada para outra unidade psiquiátrica. No local, ela narrou a uma médica o desejo de sua filha em ficar com a integralidade da pensão que ambas dividem.

Na tarde da última quinta-feira, após descobrirem o paradeiro da idosa a partir de sua própria filha, agentes da 9ª DP estiveram na clínica e a libertaram. Ao delegado, ela contou ter escrito diversas cartas no período de internação para “desabafar sua tristeza e seu medo” por estar ali sem sua anuência nem necessidade médica.

Patrícia e Raphael foram presos em flagrante e indiciados pelos crimes de sequestro triplamente qualificado e coação no curso do processo. Eles não quiseram prestar depoimento.

— Iniciamos as diligências tão logo recebemos a informação de que uma idosa lúcida e sem nenhuma doença física nem mental estava sendo mantida em privação de liberdade em uma clínica. Após a prisão dos parentes que haviam determinado a internação, iremos investigar a conduta de médicos, enfermeiros e demais funcionários desses estabelecimentos, a fim de entender a responsabilidade de cada um nesses crimes — explicou o delegado Felipe Santoro.

Família ajudou a levar caso à polícia

A advogada Carina Penna, tia do menino de 9 anos vítima de maus-tratos, foi quem registrou o caso do desaparecimento da idosa na 9ª DP, junto ao zelador e o síndico do prédio onde mora a avó das crianças. Após a idosa constatar que os dois netos sofriam maus-tratos, ela procurou o pai do mais velho para pedir ajuda. Em seguida, registrou o caso de forma anônima na Dcav. Patrícia, segundo a família, descobriu a denúncia por parte da mãe quando foi juntada a uma ação que o pai do menino, que mora nos Estados Unidos, move pela guarda do filho.

— Ela passou a ameaçar a própria mãe, foi quando ela me pediu ajuda, por saber que sou advogada. Ela disse "não me abandona", e fez uma troca de contatos, passou o meu para uma amiga dela e o dessa amiga para mim. Essa amiga sabia todos os passos dela, justamente por ela ter medo da filha. Quando ela parou de atender as ligações, essa amiga já desconfiou e me ligou — conta.

Veja a íntegra da nota da clínica

No dia 17/02, a Clínica Revitalis foi procurada pela sra. Patrícia de Paiva Reis, que solicitou a internação de sua mãe de 65 anos, com “histórico de depressão com episódios de confusão mental”. A paciente chegou a Revitalis transferida de outra clínica psiquiátrica.

Após avaliação médica e entrevista com familiar foi identificada a necessidade de observação para conclusão diagnóstica mais precisa. Em 5 dias na clínica, com abordagem multidisciplinar da equipe, foi constatado que a paciente não mais apresentava indicação de internação.
Vale ressaltar que em nenhum momento houve resistência ou recusa por parte da paciente em permanecer sob tratamento. Nossa equipe conta com psiquiatras, psicólogos e profissionais de enfermagem qualificados, e todos os protocolos foram seguidos, sem nada que fugisse à normalidade. A Revitalis atua com profissionalismo e sem nenhuma ligação pessoal com familiares de pacientes sobre qualquer outro interesse que não seja a prestação de serviços assistenciais de saúde.

A Clínica Revitalis em seus 10 anos de prestação de serviço preza pela ética e pela qualidade no tratamento em saúde mental, com uma equipe de profissionais gabaritados que possuem competência técnica e zelam pelo bem estar do paciente acima de tudo, visando oferecer o tratamento mais adequado e eficaz para cada caso.

A Clínica fica à disposição para prestar quaisquer esclarecimentos adicionais.


Janeiro Branco reúne integrantes do Entrelaços no Palácio do Catete

No último sábado (28/01) os grupos de ajuda-mútua ligados ao Programa Entrelaços, do Instituto de Psiquiatria da UFRJ/IPUB, reuniram-se no Palácio do Catete para a campanha Janeiro Branco de 2023, mês escolhido nacionalmente para reforçar a importância da saúde mental. Com o mote “Converse com alguém” a campanha deste ano, organizada pelo Grupo 15 de Nós, composto por usuários da saúde mental, procurou enfatizar o protagonismo dos usuários da saúde mental e a importância das narrativas pessoais de recuperação (recovery) como instrumentos de inclusão social. A importância da ocupação do território através de espaços públicos como o Museu da República reforça que a verdadeira recuperação ocorre na comunidade com as conquistas sociais e de cidadania dos usuários.

Assista ao vídeo do evento!

https://youtu.be/ML2Dqw9n-mk


Sono ruim de adolescentes pode prejudicar a saúde emocional e cognitiva.

Em entrevista ao GLOBO, especialista sugere o adiamento em ao menos uma hora do horário escolar e explica que jovens sofrem de uma tendência natural a atrasar o momento de dormir.

Em julho do ano passado, entrou em vigor no estado da Califórnia, nos Estados Unidos, a primeira lei do país que obriga as escolas a começarem apenas a partir das 8h30 para os estudantes do Ensino Médio. A mudança foi embasada em um estudo que mostra como as mudanças biológicas da puberdade afetam o sono e, consequentemente, o desempenho escolar.

A adaptação dos horários escolares para adolescentes, especialmente em lugares como o Brasil, cujas aulas podem começar até 7h, é uma discussão que cresce no mundo, impulsionada pelo apelo de cientistas. Um dos nomes brasileiros que fazem coro ao discurso é o neurocientista Fernando Louzada.

Doutor em Neurociências e Comportamento pela Universidade de São Paulo (USP), o pesquisador atualmente coordena o Laboratório de Cronobiologia Humana da Universidade Federal do Paraná (UFPR), de onde também é professor, e participa da Rede Nacional de Ciência para Educação (Rede CpE) e do Núcleo Ciência pela Infância (NCPI).

Em entrevista ao GLOBO, Louzada cita experiências nacionais que mostram os benefícios de se adiar em ao menos uma hora o começo das aulas, explica que adolescentes sofrem de uma tendência natural a atrasar o momento de dormir e esclarece que a faixa etária demanda uma quantidade maior de horas de sono, que não é alcançada com o modelo de ensino atual.

Quanto de sono os adolescentes precisam e de que forma o horário das aulas escolares no Ensino Médio brasileiro, que começam geralmente às 7h, interferem nessa dinâmica?

Os adolescentes precisam de mais sono do que os adultos, em média de nove horas. Só que existe um fenômeno nessa idade chamado de atraso de fase do sono, que é uma tendência natural e universal a atrasar os horários de dormir e, consequentemente, de acordar também. Por isso, verificamos que a maioria dos adolescentes, principalmente nos grandes centros urbanos, dormem bem menos que isso durante os dias letivos.

A equação é bem simples. Se as aulas começam às 7h, e muitos precisam acordar às 6h para chegar a tempo, seria necessário dormir às 21h. Mas é muito difícil pensar em adolescentes, com a tendência ao atraso do sono, dormirem nesse horário. Por isso, não há como um horário de início das aulas às 7h preservar o sono necessário dos adolescentes, o que levou muitos países a implementarem um horário mais tarde, e temos discutido muito isso aqui no Brasil.

Como saber que o atraso de fase do sono é algo inerente ao adolescente, e não resultado de hábitos que prejudicam o descanso, como excesso de telas?

Sempre recebemos essa pergunta, se o fenômeno é biológico, ou seja, está mais incorporado à espécie humana, ou se é cultural, influenciado pelos hábitos e pela cultura. Nós temos estudado isso de diversas maneiras. Uma delas, foi estudando comunidades rurais, populações sem acesso a energia elétrica, no Brasil e em outros países, e observamos que essa tendência é universal, presente em todos os adolescentes avaliados independentemente do local. Mas é claro que o ambiente urbano, o acesso às tecnologias, televisão, videogame, computador, tudo isso exacerba o atraso, porque só o estímulo luminoso sozinho já é capaz de aumentar a tendência a adiar o sono.

E por que conseguir um sono adequado é tão importante, especialmente durante essa fase da vida?

O sono é muito importante para vários aspectos da saúde, como manter a integridade do sistema imunológico, atuar no controle do metabolismo energético, preservar a cognição e o funcionamento cerebral. Por isso, ficar longos tempos privados de sono favorecem o ganho de peso, o desenvolvimento de doenças metabólicas, como diabetes tipo 2, além de problemas cardiovasculares e neurodegenerativos.

Além disso, mexe muito com a regulação emocional. Quando não dormimos, ficamos com maior impulsividade, maior irritabilidade, menor resiliência para enfrentar as situações difíceis. E se pensarmos que a adolescência já é uma faixa etária muito exposta a transtornos psiquiátricos, essa preocupação com sono deve ser ainda maior, pois o cérebro ainda está em formação.

E o que temos de mais recente é o papel do sono para a consolidação das nossas experiências depois do aprendizado. Ao dormir, o cérebro permanece ativo e essa atividade está a serviço dessa formação de memórias, o que impacta diretamente no desempenho escolar.

Você explica que o horário das aulas às 7h reduz o sono dos jovens, mas se as aulas começassem mais tarde, não seria o caso de apenas adiarem o sono também?

Existe toda essa discussão, mas diversos estudos já mostraram que não é bem assim. Mesmo que o adolescente atrase um pouquinho o horário de dormir, não supera o ganho do horário de acordar, o saldo é na maioria das vezes positivo. Mas claro que essa medida não pode ocorrer de forma isolada, precisa vir junto com medidas de educação sobre o sono, como para as pessoas evitarem estímulos à noite. Mas sem o atraso dos horários escolares não é possível atingir essa meta, que é possibilitar aos alunos que durmam o que precisam.

No ano passado, você fez parte de um estudo da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), que chegou a repercutir no exterior, em que avaliou uma turma de Ensino Médio com o horário alterado. Quais foram os principais resultados?

Já tínhamos uma série de evidências comparando por exemplo estudantes de horários matutinos e vespertinos, mas esse avaliou os alunos antes, durante e depois de uma alteração no horário. Foi o primeiro trabalho de intervenção do horário realizado no Brasil, temos poucos trabalhos do tipo porque é muito difícil devido à disponibilidade das escolas. Os resultados confirmaram um benefício na duração do sono e, consequentemente, dos impactos em medidas de sonolência diurna e de humor.

Em uma escola de Palotina, no Paraná, definimos o atraso de uma hora no início das aulas durante uma semana, no meio do período letivo, começando às 8h30. Durante três semanas – antes, durante e depois da alteração –, acompanhamos os 48 estudantes com um acelerômetro, uma espécie de relógio de punho que monitorava os horários de dormir e acordar.

Junto, avaliamos medidas como a sonolência em sala de aula, o humor dos estudantes, com fatores como estresse e sintomas de depressão. A mudança de horário levou a um aumento na duração de em média 38 minutos no sono e na redução da sonolência nas aulas e das queixas de humor.

Qual a dificuldade de levantar esse debate no Brasil? E qual seria, na sua visão, a melhor solução?

Muitos dos procedimentos das escolas são cristalizados, consolidados há décadas, por isso é muito difícil mudarmos. Tanto que uma série de coisas foram alteradas na pandemia e, quando voltaram as aulas presenciais, nada foi aproveitado, nenhum dos benefícios que poderiam ter sido incorporados no cotidiano escolar. Voltamos a funcionar exatamente como as escolas funcionavam antes da Covid-19.

E a pandemia mostrou também como os adolescentes dormem mais se puderem. Nós fizemos um estudo que mostrou isso, como com as aulas online e a flexibilidade com elas levou os estudantes a acordarem mais tarde e terem mais horas de sono. Essa flexibilidade, que é possibilitada com a pandemia, para mim é um dos caminhos.

O que defendemos não é uma medida imediata obrigando as escolas a começarem às 8h30 como solução. Antes disso, precisamos de conscientização, convencer as pessoas, os gestores, os familiares e os próprios estudantes sobre a importância do sono e dos benefícios de eventuais mudanças. É um processo, porque isso tem um impacto na vida dos pais, dos professores, da dinâmica nas escolas. Mas quando as pessoas estão sensibilizadas sobre o tema, fica mais fácil discutirmos essas medidas e as melhores maneiras de ajustarmos todos os fatores envolvidos.

Particularmente, acho que a flexibilidade de horários é o melhor. Possivelmente ter escolas em que turmas diferentes começam em horários diferentes, que utilizem a tecnologia como uma aliada nesse processo, são opções que podem ser discutidas.

Para compensar a falta de sono à noite, muitos alunos têm o hábito de cochilar à tarde. Essa prática é positiva? Consegue diminuir o impacto da privação?

Nós diríamos que sim, que é benéfico, que pode de alguma maneira começar a compensar a restrição do sono à noite, mas há duas preocupações. A primeira é que as evidências mostram que cochilos muito longos, com mais de 90 minutos, começam a repercutir no sono noturno, então você terá mais dificuldade para dormir à noite. Por isso, o recomendado é que dure no máximo 1h e meia.

A outra preocupação é o fenômeno chamado inércia do sono, que é a tendência de continuar dormindo mesmo após ter acordado. É quando você levanta, mas seu cérebro ainda não está pronto para a vigília. Em algumas pessoas, ele é curtíssimo, em outras ele é mais longo e podem ter uma dificuldade maior em produzir, em estudar após o cochilo. Para essas pessoas, pode não valer a pena a soneca por comprometer o resto do dia, mas deve ser uma avaliação individual.

Diversos estudos têm mostrado um aumento nos distúrbios do sono entre jovens. Como você vê esse crescimento e o que pode ser feito para melhorá-lo?

É difícil separar o quanto isso é um fenômeno crescente ou um impacto isolado emocional da pandemia. Mas é surpreendente, nós estamos desaprendendo a dormir, isso não poderia acontecer. Há uma desvalorização do sono. Às vezes pelo trabalho, mas às vezes para sair, ir a uma festa, ou seja, modificamos o sono devido à dinâmica social e isso gera uma repercussão na saúde das pessoas.

E para os jovens, nove horas de sono não são suficientes se a qualidade dele não for boa, se o adolescente acorda o tempo inteiro por exemplo. Então é muito importante olhar para a vigília, se ele anda muito sonolento, dorme em situações em que não deveria, está mais irritadiço, com mais dificuldade em manter o diálogo em situações estressantes, se o humor está mais deprimido, com falta de motivação.

Para ajudar, há uma série de medidas da chamada higiene do sono. Elas vão desde as condições do ambiente, como garantir que ele esteja o mais silencioso, escuro e confortável possível, até hábitos como atividade física regular, alimentação adequada, evitar estimulantes, como cafeína, nas horas que antecedem o sono e reduzir a estimulação luminosa de telas nesse período. Tudo isso contribui para um sono melhor.

Fonte: Jornal O Globo


O protagonismo e um novo tempo para a saúde mental

O ano de 2022 chega ao fim de uma forma inusitada. O Brasil viveu um processo eleitoral atribulado em que esteve em jogo sua democracia como nunca antes desde a sua redemocratização, manifestações golpistas e de questionamento do resultado das eleições tumultuaram o ambiente pós-eleitoral e de transição de governo, a camisa canarinho, antes cooptada politicamente, precisou ser aposentada precocemente numa Copa do Mundo extemporânea em que o Brasil foi eliminado precocemente, aproximamos do Natal e do Revéillon e ainda pairam incertezas sobre a posse do novo governo eleito, enfim, um final de ano em que pela primeira vez desde o início da pandemia da COVID-19 respiramos um pouco mais aliviadamente, embora os casos da doença voltem a aumentar, mas nada comparável ao último pico de janeiro deste ano.

Mas nem todas as notícias são assim desanimadoras e podemos ser otimistas em relação ao futuro da saúde mental no Brasil com as novas perspectivas, que não vêm somente dos compromissos do novo governo que assumirá em 01 de janeiro de 2023 e que traz novos ares, mas sobretudo do movimento social de usuários e familiares por mais protagonismo, que traz mais esperança.

Há alguns anos o movimento dos usuários da saúde mental por mais protagonismo vem ganhando maior visibilidade, formando um consenso que para alcançar a recuperação de um transtorno mental são essenciais a liberdade, a decisão apoiada, o tratamento e o relacionamento não-hierarquizado e a contratualidade do indivíduo com sua casa, família, trabalho e rede social, ou seja, o exercício pleno de sua cidadania em todas as esferas de sua vida. E para o alcance dessa recuperação, que vem sendo chamada de recovery (termo em inglês utilizado para diferenciá-la da recuperação clínica), uma tecnologia fundamental é o suporte de pares e as narrativas em primeira pessoa que permitem as trocas de experiência entre os usuários e seu fortalecimento.

Nós do Programa Entrelaços, do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, estamos trabalhando dentro desta filosofia desde os primeiros grupos de ajuda-mútua criados em 2011, contudo, a cada ano assistimos entusiasmados o crescimento desse protagonismo com o número crescente de usuários participando de todas as etapas da construção deste projeto. Os exemplos deste protagonismo estão em nossos encontros ao final de cada ano e nas campanhas que eles organizam pela saúde mental (Janeiro Branco) e pelo Dia da Consciêntização da Esquizofrenia (24 de Maio), além de intercâmbios com outros movimentos da luta antimanicomial e da reforma psiquiátrica brasileira.

No dia 03 de dezembro deste ano realizamos no Instituto de Psiquiatria da UFRJ/IPUB o evento de encerramento de 2022 após dois anos de evento on-line pela pandemia da COVID-19. Pela primeira vez em dez anos de história do Programa Entrelaços o evento foi exclusivamente realizado por seus usuários e familiares, sem participação direta dos técnicos, que se limitaram a coordenar e apresentar as mesas. Testemunhamos depoimentos inspiradores e enriquecedores de pessoas narrando sua própria história de superação, revelando seu empoderamento e sua resiliência no enfrentamento de suas dificuldades, o maior exemplo de que o protagonismo na saúde mental é importante nas trajetórias de recuperação de cada um, seja usuário ou familiar. O protagonismo não é somente possível como desejável para quem deseja recuperar sua auto-estima e sua cidadania, conforme prevê o conceito mais moderno de recuperação, o recovery. Protagonismo implica autonomia e liberdade, com as pessoas livres para fazerem suas escolhas e tomarem as decisões sobre suas vidas, garantindo-lhes uma atitude de respeito e legitimidade da comunidade e da sociedade.

Nós do Programa Entrelaços acreditamos na força deste movimento partindo de sua base, com vetores que emanam de dentro do movimento social para fora, com efeitos transformadores na cultura que a sociedade tem sobre a loucura e a deficiência. Essa é a melhor forma de combatermos o preconceito e o estigma, como também reivindicar direitos e melhores condições de trabalho, moradia e integração social, num resgate de cidadania plena para as pessoas usuárias da saúde mental. Esse é o novo momento da Reforma Psiquiátrica Brasileira que encontra ressonância nas políticas públicas anunciadas pelo novo governo que se avizinha (figura 1).


Figura 1- Trecho retirado do Programa de Governo Lula/Alckmin 2022 para a política de saúde mental.

A primeira mesa (foto 1) do evento apresentou o projeto Comunidade de Fala, idealizado pelo ativista norte-americano Richard Weingarten, que conta com iniciativas em quatro municípios brasileiros, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Santa Maria. Usuários da saúde mental apresentam suas vivências do adoecimento à recuperação, com narrativas que revelam à plateia o empoderamento e o protagonismo dos usuários nas diferentes etapas. O projeto tem a supervisão do professor Eduardo Vasconcelos, importante referência na luta antimanicomial do país.


Foto 1 - Luiz Eduardo, Orlando Baptista e Elizabeth Sabino, do projeto Comunidade de Fala.

A segunda mesa (foto 2) trouxe a proposta de construção de uma associação de usuários e familiares como desdobramento da experiência com o Programa Entrelaços para apoiar e fomentar iniciativas de combate ao estigma, de formação educacional de pares especialistas em grupos de suporte mútuo e de geração de renda para pessoas em vulnerabilidade psicossocial.


Foto 2 - Gustavo Meano, Cristina Leal e Luisa Lins debatem o projeto associativo.

A terceira e última mesa (foto 3) contou com a apresentação de três integrantes do Grupo 15 de Nós, grupo do Programa Entrelaços formado por pessoas usuárias da saúde mental, que trouxeram suas vivências em relatos emocionantes de como superaram barreiras como a desinformação, o preconceito, o auto-estigma, a resistência ao tratamento e as dificuldades sociais e acadêmicas. Os relatos são um exemplo de como a informação, a educação e a troca de experiências entre eles são capazes de produzir profundas transformações de como as pessoas enxergam a si próprias com o transtorno mental e como mobilizam seus potenciais para recuperarem sua auto-estima e sua auto-confiança na busca de empoderar-se a si próprias e promover o recovery em suas vidas.


Foto 3 - Isabela Paixão, Pedro Henrique e Mariah das Neves do Grupo 15 de Nós falam das vivências.

O desafio que se coloca à nossa frente é como replicar esses modelos de empoderamento e recovery que transformam pessoas que vivenciam passivamente suas condições de saúde em protagonistas de sua própria história e de sua vida para um alcance mais abrangente na Rede de Atenção Psicossocial neste novo tempo para a saúde mental que está em curso e que deve beneficiar um número cada vez maior de usuários.

Assista ao vídeo!

https://youtu.be/KrUWO5rbezg


Transição propõe departamento e rede de saúde mental para novo governo Lula

Proposta pela equipe de transição do governo eleito de Luiz Inácio Lula da Silva, o departamento de saúde mental, a ser criado na estrutura do Ministério da Saúde, deve ter como foco o fortalecimento de Centros de Atenção Psicossocial (Caps), além de coordenar e articular políticas de combate ao consumo abusivo de álcool e drogas. Caso a sugestão do grupo seja aceita por Lula, será a primeira vez que a pasta terá um departamento exclusivo para o tema.

Atualmente, não há nenhuma área dentro do Ministério da Saúde que cuide especificamente de saúde mental. Iniciativas que tratam do tema estão espalhadas em diferentes pastas. Nas outras gestões petistas, o tema era tratado em coordenação vinculada à Secretaria de Atenção à Saúde. Agora, a ideia é criar uma estrutura maior, com mais capacidade para desenvolver políticas públicas que ajudem a população que sofre com transtornos psiquiátricos.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil já liderava o ranking global de casos de ansiedade antes da pandemia de Covid-19 — e também ganhava nos números de incidência de depressão entre os países da América Latina. Após mais de dois anos marcados por perdas, isolamento, medo e insegurança, a avaliação de especialistas é que o novo governo enfrentará índices ainda mais preocupantes de transtornos mentais.

— Nosso entendimento hoje é que houve um gigantesco retrocesso nessa área. Isso precisa ser recuperado. É preciso reforçar a rede de atenção psicossocial. É preciso ter uma atenção especial às pessoas que direta ou indiretamente começaram a apresentar transtornos por causa da pandemia. É preciso pensar uma estratégia específica para isso — afirmou ao GLOBO o senador Humberto Costa (PT), que é médico e integra a coordenação do grupo de trabalho em Saúde na transição.

Cortes de recursos

O aumento na procura por ajuda profissional no país — de até 25% nas consultas psiquiátricas em 2021, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) — vai na contramão da instabilidade de políticas de saúde mental e dos sucessivos cortes de recursos da Rede de Atenção Psicossocial (Raps), que abrange os Caps. No governo de Jair Bolsonaro, houve uma prioridade para as chamadas comunidades terapêuticas, geralmente ligadas a igrejas, que têm como foco principal o tratamento de dependentes químicos. Os Caps, por sua vez, contam com uma equipe multiprofissional — psiquiatras, psicólogos e outros profissionais de saúde.

— Vamos retomar essa política, e os Caps têm papel fundamental, principalmente aqueles que funcionam 24 horas. Se você não tem uma rede de Caps, não consegue tratar as pessoas na própria comunidade, acompanhar suas famílias. Com isso acaba restando como alternativa o isolamento, internação em uma outra cidade, permanência em hospital. A proposta agora é retomar o papel dos Caps com centralidade e o cuidado da saúde mental na atenção primária — afirmou o ex-ministro da Saúde Arthur Chioro, que também integra a equipe da transição para a área.

O grupo se reuniu nos últimos dias com setores ligados à saúde mental, como funcionários do SUS e de clínicas especializadas, para tratar da criação do departamento. A proposta de criar a estrutura no novo governo constará no relatório final que será entregue ao vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, ainda neste mês, junto com o alerta da necessidade de fortalecimento das políticas do SUS, incluindo os Caps. Entre as sugestões estruturais estará a de levar de volta para o Ministério da Saúde áreas e ações que hoje estão pulverizadas pela Esplanada e que são diretamente ligadas às questões de saúde.

Em paralelo, o departamento também trabalhará com outras secretarias e ministérios que esbarram no tema pela sua transversalidade. O objetivo é ter uma alternativa que seja capaz de conduzir a rede de atenção e que volte a ter centralidade na produção e armazenamento de estudos, pesquisas, análises e monitoramento.

Segundo Chioro, a demanda represada no tratamento e acompanhamento na área da saúde mental é hoje um dos principais problemas dentro do SUS, superando até mesmo as filas de atendimento para acompanhamento de doenças crônicas e cirurgias eletivas. Atualmente, boa parte dessa demanda represada teve origem nos impactos deixados pela pandemia.

— Há, por exemplo, um grave problema de fila envolvendo hipertensos, diabéticos, pessoas que precisam de cirurgia eletivas, aquelas que tem câncer. Mas todo mundo diz que uma das áreas que está mais grave é a saúde mental. É onde há mais filas. As pessoas não vão a uma consulta e resolvem o problema. É um tratamento contínuo. Então o acúmulo é muito grande e será uma das áreas que o governo vai priorizar — afirmou o ex-ministro.

O oncologista Drauzio Varella, que integra o time de médicos escalado por Lula para colaborar com sugestões para a transição, ressaltou em entrevista ao GLOBO a importância do fortalecimento dos Caps para lidar com o nível de complexidade da saúde mental atualmente.

— O SUS tem os Caps, que fazem esse atendimento. Mas são insuficientes para lidar com o nível de complexidade que é a saúde mental hoje, especialmente depois da pandemia. O número de casos de ansiedade, depressão, aumentou, mas já vinham de antes. Em 2015, A OMS já tinha estimado que a partir da década de 20 teríamos a depressão como a principal causa da falta do trabalho. Aí veio a pandemia, com as pessoas trancadas em casa, medo, insegurança, insegurança financeira, que agravou isso. Agora, a pequena estrutura que o SUS estava começando a montar ficou insignificante frente às necessidades da população.

Alta de suicídios

Médico psiquiatra da rede de hospitais Santa Lúcia, em Brasília, Fábio Aurélio Leite alerta para os indicadores de suicídio no Brasil, que crescem ano a ano e destoam da queda na taxa mundial — enquanto os outros países registraram diminuição de 36% nos casos de suicídio em 2019, dados do DataSUS de 2020 apontaram para aumento de 35% em um período de nove anos no país.

— A escalada de números de suicídio no Brasil já é motivo suficiente para que a saúde mental seja vista como prioridade pelo governo. Há, agora, sequelas da pandemia, que ampliou ainda mais os casos de transtornos mentais no mundo, em especial no Brasil, segundo país com mais mortes por Covid — aponta Leite.

Segundo o psiquiatra, após anos de negligência, o país está atrasado em estruturas e medidas para saúde mental:

— A pandemia trouxe à tona uma urgência l. É papel do próximo governo tratar a pauta com seriedade e implementar ações efetivas para frear os atuais indicadores. A criação de setores e departamentos especializados é vista com bons olhos pelos profissionais da área.

Para a médica psiquiatra Carolina Hanna de Aquino, do Sírio Libanês de São Paulo, a criação de um departamento ajudaria a centralizar e atualizar os indicadores do país.

— Temos, atualmente, dificuldade para medir a efetividade de políticas públicas de saúde mental. É diferente, por exemplo, de medidas para a saúde física. Um departamento seria extremamente útil para controlar e avaliar o impacto das ações realizadas, além de sistematizar as falhas — diz.

Fonte: O Globo


Intervenção Psiquiátrica Já?

Desde o segundo dia das manifestações antidemocráticas que procuram contestar o resultado das eleições presidenciais alguns apoiadores do presidente Bolsonaro protagonizaram cenas patéticas e esdrúxulas que subiram a hashtag "Intervenção Psiquiátrica Já!" nas mídias sociais, ironizando o clamor dos manifestantes por intervenção militar. Cenas como adultos vestidos com a camisa do Brasil e portando a bandeira nacional marchando em frente a quartéis do Exército, pessoas cantando o hino nacional em torno de um pneu, mulheres aos prantos ajoelhadas rezando no meio da rua, pessoas agredindo jornalistas que exerciam seu ofício, um manifestante que se agarrou na frente de um caminhão que percorria as estradas e até cenas horrorizantes, como um grupo de pessoas cantando o hino nacional e fazendo o gesto nazista e crianças marchando como soldados e bradando aos gritos "tem que matar, tem que sofrer, eu quero essa onça, como eu quero, como eu quero", percorreram as diferentes mídias sociais e foram motivo de chacotas e tratadas como "casos psiquiátricos". Mas o que há por trás dessas cenas e desses manifestantes que não souberam aceitar o resultado das eleições que elegeram Lula para um novo mandato no Planalto? Estamos falando mesmo de casos psiquiátricos que necessitam de uma intervenção médica?

Para Theodor Adorno, filósofo alemão e um dos expoentes da Escola de Frankfurt, o nacionalismo ressurgente é o clima mais favorável ao fascismo, principalmente num mundo globalizado e com blocos supranacionais. Ele pode ressurgir de maneira exagerada para convencer as pessoas do propósito e da substância de seus ideais, alimentando movimentos de "renovação nacional" contra o "sistema" e as práticas políticas consideradas por eles ultrapassadas. Ele sempre se contrapõe e vitimiza um grupo, que pode ser de intelectuais, apoiadores políticos, estudantes universitários, minorias ou mesmo um grupo com ideias divergentes, que passa a se sujeitar às suas práticas sádicas.

O sadismo é uma marca desses movimentos fascistas. Segundo Adorno, as pessoas mais engajadas nesses movimentos possuem traços sádicos reprimidos que têm origem muitas vezes na severidade da educação tradicional ou em coletivos que possuem na autoridade seu elemento central, ou seja, um processo de identificação cega com o coletivo e a manipulação das massas iniciando-se pela virilidade, a brutalidade e a resistência à dor. As pessoas são impelidas a ser fortes e premiadas pela dor e pela capacidade de suportá-la, uma fachada masoquista que se identifica facilmente com o sadismo, pois quem é severo consigo mesmo adquire o direito de ser severo com o outro. Portanto, é um processo que se fecha em um ciclo de retroalimentação e que provoca o que Adorno chamou de "caráter manipulador" e "consciência coisificada" nas pessoas, estruturas da personalidade próprias do fascismo.

Adorno e Horkheimer, outro filósofo da Escola de Frankfurt, descreveram a relação patogênica que as pessoas sádicas têm com seu corpo nas situações em que são confrontadas ou criticadas: sua linguagem verbal e corporal assumem uma violência quase incontrolável.

Elas passam a formar uma "massa solitária" acrítica que adquire um impulso grupal, um enturmar-se de pessoas sádicas (frias) que não suportam a própria frieza, mas nada podem fazer para alterá-la. E causa a estranheza a incapacidade da identificação deste estado de consciência em meio a pessoas mais ou menos civilizadas, que passam a obedecer e reproduzir o que as forças estabelecidas lhes determinam, ainda que em razão de ideias de pouca ou nenhuma credibilidade.

Cria-se um "véu ideológico" fetichizado que considera os meios para a autoconservação da espécie humana (uma vida humana digna) desconectados da consciência das pessoas, incapazes de amar e carentes de uma relação libidinal com outras pessoas. É a ausência da consciência moral e sua substituição por compromissos por autoridades exteriores que as tornam dependentes de mandamentos e normas que não são próprias da razão do indivíduo.

Apesar das características psicológicas, Adorno considera o fascismo mais uma questão social, portanto, mais do campo da sociologia. O fascismo nunca desapareceu, mesmo após o nazismo, e de certa forma suas tendências encontram raízes na própria civilização. Como os pressupostos sociais e políticos que geraram os genocídios naquela época não são mais possíveis hoje em dia, as forças para se contrapor ao fascismo foram repelidas para o campo subjetivo, sendo imprescindível buscar as raízes psicológicas nos perseguidores para identificar os mecanismos que levam as pessoas golpearem as outras sem refletirem sobre si próprias.

Segundo Freud, a civilização produz uma rede cada vez mais densamente socializada que enreda o sujeito de uma maneira que torna difícil ele escapar, ainda que ele assim deseje, aumentando sua raiva contra a civilização e produzindo muitas vezes uma rebelião violenta e irracional. Ao mesmo tempo em que ela integra, produz também tendências desagregadoras. Essa pressão tende a destruir o particular e o individual, bem como o potencial de resistência da pessoa, dificultando que ela se oponha ao que a seduz ao crime.

O único poder efetivo contra o fascismo é, para Adorno, a autonomia, o poder de reflexão, a auto-crítica, a auto-determinação e a não-participação. É necessário tornar esse mecanismo explícito e impor uma educação consciente que não premia a dor e a capacidade de suportá-la e não reprima o medo. Quando o medo é permitido, provavelmente os efeitos deletérios do medo insconsciente e reprimido desaparecem juntamente com o sadismo. Por isso a preocupação com a educação das crianças, justamente o mais espantoso desse movimento antidemocrático foi a utilização delas como escudos humanos ou soldados marchando.

Ainda que os mecanismos subjetivos não se dissolvam completamente, a educação pode despertar na pré-consciência elementos de resistência que podem criar um clima desfavorável ao extremismo, permitindo às pessoas alguma chance de evitá-lo. O mais difícil da educação contra o fascismo é justamente ir contra o "espírito do mundo" já que a sociedade repousa na persecução dos próprios interesses frente aos interesses dos demais e isso se sedimenta no caráter das pessoas, tornando a frieza um traço básico da antropologia.

Adorno chamava de "participação oportunista" a atitude de alemães durante o nazismo perceber antes de qualquer coisa sua própria vantagem e não dar com a língua nos dentes para não se prejudicarem, sendo o silêncio e o terror apenas consequência dessa atitude. A frieza como indiferença ao destino do outro faz com que poucas pessoas se mobilizem e os algozes possuem plena consciência disso. O centro da educação contra o fascismo deve ser, portanto, revelar os jogos de força e poder por trás das formas políticas, tratando de forma crítica o Estado que coloca os seus interesses acima do povo do qual deveria cuidar. Assassinos de gabinete e ideólogos continuarão existindo, mas as pessoas subordinadas devem combater tudo aquilo que perpetua sua própria servidão através do conhecimento e da educação e não se tornarem assassinas à medida em que assassinam os outros.

O filme "A Fita Branca" (foto), de Michael Haneke, 2010, ilustra bem todos esses aspectos do fascismo presentes em uma pequena aldeia no interior da Alemanha antes da Primeira Guerra e como o clima foi se formando para que anos mais tarde o nazismo se instalasse no país. Algumas cenas que presenciamos nessas manifestações golpistas são de extrema gravidade e preocupação, pois mostram como o fascismo está crescendo em nosso tecido social. Caso o Estado não se ocupe da educação, da cultura, da assistência social e da segurança/inteligência especializada para desmobilizar esses grupos e suas fontes de financiamento, teremos problemas muito mais sérios no futuro.

É mesmo muito preocupante e não é caso de intervenção psiquiátrica!

Fontes: Theodor Adorno, "A Educação após Auschwitz".
Freud, "O mal estar na cultura" e "Psicologia de massas e análise do eu".
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MPF interpela CFM sobre vedação à prescrição da cannabis medicinal

O Ministério Público Federal (MPF) instaurou procedimento preparatório (PP), nesta segunda-feira (17/10), para apurar a compatibilidade da Resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) nº 2.324/2022, de 11 de outubro de 2022, o qual restringe a prescrição de cannabis medicinal apenas para alguns casos de convulsões. O MPF baseia-se no direito social fundamental à saúde, nos termos da Constituição Federal. O documento autoriza uso do canabidiol apenas para o tratamento de epilepsias da criança e do adolescente refratárias às terapias convencionais na Síndrome de Dravet e Lennox-Gastaut e no Complexo de Esclerose Tuberosa.

De acordo com o procurador da República Ailton Benedito de Souza, responsável pelo procedimento, a efetivação do direito fundamental à saúde é fator indutor da cidadania e da dignidade humana. Ele destaca que resoluções da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também dispõem sobre o canabidiol (Resoluções RDC nº 327/2019 e RDC nº 335/2020), em especial sobre fabricação, importação, comercialização e prescrição de produtos de Cannabis para fins medicinais, autorizando os médicos a prescreverem a substância. Além disso, destaca que tais atos normativos podem ocasionar repercussões administrativas, financeiras e técnicas no Sistema Único de Saúde (SUS).

Providências

Como primeiras providências, o MPF requisitou à Anvisa documentos que consubstanciem as evidências científicas que sustentam a RDC nº 327, de 9 de dezembro de 2019, e a RDC nº 335, de 24 de janeiro de 2020. Igualmente, requisitou ao CFM documentos que traduzem as evidências científicas que sustentam a Resolução CFM nº 2.324/2022, de 14 de outubro de 2022. Por fim, requisitou ao Ministério da Saúde informações sobre as repercussões administrativas, financeiras e técnicas no SUS das resoluções da Anvisa e do CFM. O prazo para as respostas é de 15 dias.

Íntegra da Portaria nº 202/2022 que instaura o Procedimento Preparatório.

Protesto de médicos e pacientes no CREMERJ

Hoje aconteceu uma manifestação de médicos e pacientes contrários à Resolução nº 2.324 do CFM no Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro, CREMERJ.

Carlos Minc, deputado estadual, anunciou que a entidade não irá punir os médicos que prescrevem cannabis medicinal. A conselheira do CREMERJ Margareth Martins Portella garantiu que não haverá perseguição aos médicos e médicas que decidirem seguir prescrevendo a planta ou ministrar aulas sobre cannabis.

“Esta não deverá ser uma preocupação do Conselho hoje. Não faremos força-tarefa para procurar médicos que estão prescrevendo canabidiol ou dando aula. Não será esta a conduta do conselho. Não vamos sair caçando quem estiver infringindo a Resolução do CFM”, afirmou Margareth Martins Portella, médica e conselheira do CREMERJ.

O Conselho Federal de Medicina abrirá Consulta Pública à população para receber contribuições sobre a polêmica Resolução nº 2.324, que restringe prescrição de cannabis medicinal no Brasil.

Resolução do CFM vai na contra-mão de outras resoluções semelhantes

A Resolução nº 2.324 vai na contra-mão de outras resoluções do conselho, como a que permitiu que médicos prescrevessem medicamentos sem eficácia científica comprovada contra a COVID-19 durante a pandemia, como hidroxicloroquina e a ivermectina. Na época (2021) o CFM afirmou "o CFM delibera que é decisão do médico assistente realizar o tratamento que julgar adequado, desde que com a concordância do paciente infectado — elucidando que não existe benefício comprovado no tratamento farmacológico dessa doença e obtendo o consentimento livre e esclarecido. O ponto fundamental que embasa o posicionamento do CFM é o respeito absoluto à autonomia do médico na ponta de tratar, como julgar mais conveniente, seu paciente; assim como a autonomia do paciente de querer ou não ser tratado pela forma proposta pelo médico assistente".

Fonte: MPF, Porta Cannabis e Saúde e CFM


Cinco meses depois policiais são presos pela morte de Genivaldo

Na última quinta-feira (13/10) a 7a Vara da Justiça Federal de Sergipe determinou a prisão dos policiais da PRF responsáveis por torturar e matar asfixiado no porta-malas de uma viatura policial utilizando uma granada de gás lacrimogêneo Genivaldo Santos, de 38 anos, pessoa com esquizofrenia que foi abordada por eles por estar numa motocicleta sem capacete. O caso ganhou repercussão internacional e foi noticiado aqui num artigo que tratou do estado de exceção que vivemos nos tempos atuais. A demora da prisão e todas as tentativas em vão de abafar a morte de Genivaldo são exemplo de como autoridades lidam com a morte violenta de pessoas pobres em nosso país. Não fossem as filmagens e a repercussão do caso, possivelmente haveria mais um caso de impunidade, como tantos outros que ocorrem cotidianamente em comunidades pobres do Brasil por agentes do Estado que se acham no direito de decidir entre a vida e a morte de cidadãos comuns.

Os policiais rodoviários William de Barros Noia, Kleber Nascimento Freitas e Paulo Rodolpho Lima Nascimento foram presos e enviados ao Presídio Militar de Sergipe, em Aracaju. Eles foram denunciados por crime de tortura, homicídio qualificado e abuso de autoridade.

A viúva de Genivaldo, Fabiana Santos, disse ao G1 que “a justiça está sendo feita pela morte do meu marido. Eles começaram a pagar pelo crime que cometeram”.

Genivaldo ficou 11 minutos e 27 segundos exposto a gases no porta-malas transformado em câmara de gás de regime nazista. Os peritos encontraram no sangue de Genivaldo altas concentrações de ácido sulfídrico que pode ter causado convulsões e parada respiratória. Segundo eles o esforço físico intenso e o estresse causado pelos policiais provocaram um colapso no pulmão sob efeito dos gases tóxicos.

Em condições normais esses policiais deveriam ter sido presos em flagrante, mas foram afastados administrativamente e ficaram aguardando o julgamento em liberdade. Enfim, a justiça foi corrigida na quinta pela Justiça Federal.


Setembro Amarelo: Suicídio cresce mais entre adolescentes no Brasil.

No mês da conscientização sobre o suicídio, um alerta: o suicídio cresce no Brasil, principalmente em adolescentes. É urgente a necessidade de uma política pública voltada ao suicídio.

Suicídio no mundo

O número global de mortes por suicídio aumentou quase 20.000 nos últimos 30 anos, mostra uma pesquisa publicada em 2021.

O aumento ocorreu apesar de uma diminuição significativa nas taxas de suicídio específicas por idade de 1990 a 2019, de acordo com dados do Global Burden of Disease Study 2019.

O crescimento populacional, o envelhecimento da população e as mudanças na estrutura etária da população podem explicar o aumento no número de mortes por suicídio.

O Global Burden of Disease Study 2019 inclui informações de 204 países sobre 369 doenças e lesões por idade e sexo. O conjunto de dados também inclui estimativas populacionais para cada ano por localização, faixa etária e sexo.

O maior aumento de mortes ocorreu na região de renda média baixa, onde o número de mortes por suicídio aumentou em 72.550 (de 232.340 para 304.890).

O crescimento populacional (300.942; 1.512,5%) foi o principal contribuinte para o aumento geral do número total de mortes por suicídio. O segundo maior contribuinte foi a estrutura etária da população (189.512; 952,4%). A taxa de suicídio por habitantes, contudo, sofreu tendência global de queda.

Suicídio no Brasil

No Brasil a situação se inverte, com tendência de alta nas taxas de suicídio por habitante.

Um estudo de 2018 que analisou as taxas de suicídio em seis capitais entre 2006 e 2015, Porto Alegre, Recife, Salvador, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, concluiu que houve um aumento de 4% da taxa de suicídio ajustado para a idade.

Já o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde de 2021 mostra que entre 2010 e 2019 houve um aumento anual de 43% no número de suicídios no Brasil, bem acima da taxa de crescimento populacional no mesmo período (10,17%), com uma taxa de suicídio por 100 mil habitantes de 6,6. As maiores taxas foram encontradas nas regiões Sul e Centro-Oeste.

Homens apresentam um risco 3,8 vezes maior de suicídio do que mulheres (10,7 por 100 mil vs 2,9). Contudo, o aumento verificado no período foi similar entre homens e mulheres (29% e 26%).

Em relação à faixa etária, o maior aumento foi em adolescentes (81%), principalmente em menores de 14 anos (aumento de 113%).

Na América Latina, o Brasil aparece em sétimo lugar no ranking de suicídios em 2019 de acordo com o levantamento do Global Economy, em que Guiana, Suriname e Uruguai aparecem nos primeiros lugares com taxas bem superiores e Colombia, Peru e Venezuela com taxas bem inferiores ao Brasil (veja a figura).

Baixe o Manual Guia de Prevenção do Suicídio em Crianças e Adolescentes

Fontes: Ministério da Saúde, Medscape.com, Global Economy, Current Opinion in Psychiatry (https://doi.org/10.1097/YCO.0000000000000412)


Obrigado Jô!

Em 2009 tive a honra e o privilégio de ser entrevistado por você no Programa do Jô. Era um jovem psiquiatra e acabara de lançar o livro "Entendendo a Esquizofrenia", resultado de 8 anos de trabalho com pacientes com esquizofrenia e seus familiares. Na época não acreditei quando um de seus produtores me telefonou, convidando-me para participar do programa. Foi uma alegria e uma oportunidade incrível! Ter sido entrevistado por você Jô, além de uma experiência única, foi decisivo para que o meu trabalho e de minha equipe ganhasse visibilidade. Eu já era um grande fã seu desde a infância, assistindo ao "Viva o Gordo" e a um espetáculo seu numa grande casa de show do Rio de Janeiro. Também segurava o sono para conseguir assistir ao menos aos primeiros blocos do Programa do Jô, que cada vez começava mais tarde. A minha entrevista havia sido gravada e, acredite, foi ao ar no dia 22/06/2009, dia do meu aniversário, a 1:30h da madrugada. Logo após a exibição, comecei a receber milhares de e-mails de seus telespectadores e o website Entendendo a Esquizofrenia, recém-lançado à época e que hoje continua no ar, foi alçado à primeira página do Google logo no dia seguinte, tamanho o prestígio e o alcance de seu programa. Hoje, 13 anos depois, nosso trabalho amadureceu, estamos preparando a terceira edição do livro, formamos 9 grupos comunitários de ajuda-mútua para pessoas com esquizofrenia e outros transtornos mentais em diferentes bairros do Rio de Janeiro, concorremos a prêmios internacionais, sendo finalistas em um deles, e novos projetos se abrem na busca de uma saúde mental mais inclusiva e no combate ao preconceito e ao estigma na sociedade. Hoje acordei e a primeira notícia que li com muito pesar foi da sua partida. Gostaria que você soubesse dos desdobramentos desta entrevista e do quanto nos ajudou e que me orgulho muito de ter sido entrevistado por você, a quem só tenho a agradecer e admirar. Por sua sensibilidade com as pessoas com deficiência e pelas oportunidades que deu a tantas pessoas anônimas e humildes em seu programa, tenho certeza que ficaria feliz em ter conhecimento dos desdobramentos do nosso trabalho. Mais uma vez a minha gratidão! Descanse em paz, sua luz jamais se apagará entre nós!

https://vimeo.com/32211689


Entenda porque falta Venvanse nas farmácias de todo país.

Matéria de primeira capa do jornal O Globo de hoje alerta para o uso indiscriminado e sem receita do Venvanse, o que tem provocado a falta do medicamento em todo país. Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais já estão com os estoques esgotados e quem precisa para tratamento médico não está conseguindo acesso ao medicamento. Veja a matéria na íntegra!

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Um novo fenômeno de comportamento em São Paulo e no Rio vem assustando os médicos: o consumo de um remédio tarja preta por pessoas absolutamente saudáveis, com o objetivo de aumentar o foco nas tarefas do dia a dia. Trata-se do Venvanse, nome comercial do dimesilato de lisdexanfetamina, fabricado pelo laboratório Takeda, sem genérico. Seu uso foi liberado pela Anvisa para apenas duas situações: tratar pessoas com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), e pacientes diagnosticados com o transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP), distúrbio psiquiátrico que leva o paciente a comer de forma descontrolada, mesmo sem ter fome.

O perfil dos usuários, no entanto, tem sido outro. Vestibulandos, estudantes de concursos públicos, jovens empresários e profissionais da área da tecnologia que querem aumentar a capacidade de concentração. Em São Paulo já é praticamente impossível encontrar a medicação. No Rio a onda está crescendo e ela já começa a rarear no mercado. E olhe que seu preço não é barato: o medicamento sai em média entre R$ 450,00 e R$600,00.

O risco do mau uso do Venvance é brutal. Ele faz com que o sistema nervoso entre em um estado que os médicos chamam de “situação luta e fuga”, ou seja, faz com que o corpo fique permanentemente voltado e preparado para fugir de uma ameaça. O mecanismo por trás disso é um pico de produção de noradrenalina e cortisol, aumento da frequência cardíaca, crescimento da circulação do sangue para os músculos e contração das pupilas. O resultado, na prática, é que a pessoa fica mais atenta e focada no que acontece a sua volta, o raciocínio fica mais ágil, além do pico enérgico, que os usuários chamam de “ficar ligado”, ou “performar”.

— Eu me sinto a mulher maravilha. Depois de uns trinta minutos me dá uma euforia, alegria, vontade de fazer tudo. Minha autoconfiança melhora, consigo me concentrar nas atividades, tenho disposição e energia para os estudos. Meu rendimento e produtividade aumentam. Posso fazer várias coisas ao mesmo tempo e tenho o foco e a concentração como se estivesse fazendo apenas uma. Sou uma pessoa mais legal quando eu tomo também — explica a estudante Thaina Alves, de 25 anos.

Thaina passou dois anos tomando o remédio diariamente, sem pausas. Começou com uma dosagem menor de 30 miligramas e evoluiu para doses maiores de 50 e 70 miligramas. Recentemente, percebeu os efeitos colaterais do uso incorreto da droga – insônia, forte dor de cabeça e o vício.

Para os pacientes com TDAH, o uso faz sentido. Eles sofrem de uma disfunção em uma área do cérebro chamada de córtex pré-frontal, responsável pelo foco e pragmatismo. A noradrenalina é fundamental para o funcionamento adequado dessa região.

Entre os médicos é unanimidade: todos alertam que o uso sem indicação traz graves riscos.

— Este é um fármaco estimulador de noradrenalina, bem como cocaína. As pessoas estão tomando o medicamento para ter energia, ficar acordado a noite estudando, melhorar atenção, em alguns casos, como recreação e misturando com o álcool para potencializar o efeito, e sem um acompanhamento médico. Isso é sério e gravíssimo. A pessoa quer passar a noite em claro para estudar, seria muito melhor tomar um café ou algo do tipo, porque não traria tanto risco a saúde — afirma Cristiana Góes, médica de neurologia do Hospital Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A neurologista garante que a lista de malefícios de quem compra e usa o Venvanse sem indicação médica são muito maiores do que o lado positivo dos efeitos que o remédio garante por algumas horas.

— O medicamento pode causar hipertensão, arritmia e até mesmo ataque cardíaco. Um paciente com tendência de esquizofrenia ou transtorno bipolar, por exemplo, pode ter um surto maníaco e psicótico. O Venvanse não é um medicamento que se pode “brincar”. O uso prolongado pode levar ainda à depressão, pois você está estimulando um neurotransmissor a te dar energia, e quando há essa interrupção abrupta dá um reboot — explica Góes.

O remédio só é vendido com prescrição médica. Mas cresce o número de grupos ilegais de venda do produto nas redes sociais. A psiquiatra Camila Magalhães, fundadora do centro Caliandra Saúde Mental, em São Paulo, diz que já percebe o aumento de casos entre jovens e empresários há um tempo e de forma ilegal.

— É preocupante a forma como essas pessoas estão adquirindo o remédio pela internet, sem receita. Há famílias que me procuram dizendo que o filho está “imprestável”, porque não quer sair da cama, não tem energia, motivação para nada — reitera a psiquiatra.

A venda ilegal do remédio causou uma falta generalizada do medicamento nas prateleiras das principais redes de farmácia de São Paulo. Também não há previsão de quando o medicamento será reabastecido nas drogarias. A carência começa a ser sentida em outros estados do país também, como no Rio, onde já há algumas lojas de fármacos sem estoque para o Venvanse.

O Venvanse também começou a ser usado erroneamente para o emagrecimento. Isso porque ao estimular a noradrenalina, e o corpo entrar em estado de atenção pleno, o cérebro também emite uma resposta para a inibição do apetite. Ao tomar o comprimido pela manhã, por exemplo, a fome só irá surgir no final do dia, perto do horário do jantar. Há o depoimento de pessoas na internet que chegaram a perder mais de dez quilos usando o medicamento em poucos meses.

Como é o caso da gerente comercial Bruna Rodrigues, 40 anos, ela começou a usar o medicamento para perder os quilos que tanto a incomodavam. Foram três meses de uso e cinco quilos eliminados. Segundo Rodrigues, foi o único auxilio para conseguir manter a dieta em dia.

— Eu não conseguia fazer dieta intermitente, porque eu sentia muita fome pela manhã. Depois que passei a usá-lo, realmente tira o apetite. Eu me forçava a comer para não ficar fraca, porque eu não tinha fome nenhuma — diz.

Há estudos que comprovem o uso do venvanse para controlar a compulsão alimentar sendo seguro e com pouca rejeição no organismo dos usuários, porém não há pesquisas cientificas e nem indicações médicas para o uso do fármaco quando o assunto é emagrecimento. A gerente comercial afirma que sabia dos riscos, mas que ao ver os primeiros sinais dos resultados, o receio foi deixado de lado.

— Ao tomar o comprimido eu me sentia bastante produtiva também. Fazia várias coisas ao mesmo tempo como curso de inglês, academia, trabalhava mais de oito horas por dia e não me sentia cansada. É milagroso. Eu voltaria a tomar ele com certeza — afirma Rodrigues.

Fonte: O Globo (15/07/2022)


O Suicídio, por Emile Durkheim

Emile Durkheim (1858-1917) é considerados um dos pais da Sociologia e um dos mais destacados fundadores da escola francesa de Sociologia. Seu estudo sociológico sobre o suicídio foi publicado no ano de 1897 e é considerado uma obra que almeja a viabilidade da Sociologia enquanto uma ciência social numa época em que ela ainda não havia alcançado um status acadêmico. Seu propósito é demonstrar cientificamente que o suicídio pode ter uma determinação social externa ao indivíduo.

Durkheim destaca em sua obra três tipos de suicídio segundo suas causas:

1) suicídio egoísta: motivado por um isolamento exagerado do indivíduo da sociedade, o que o transforma num solitário, um marginalizado, que não possui laços suficientemente sólidos de solidariedade com o grupo social;

2) suicídio altruísta: é o outro extremo, em que o indivíduo está demasiadamente ligado à sociedade e acredita que seu suicídio o tornará herói ou mártir;

3) suicídio anômico: o mais significativo para os fins de sua obra. Anomia traz a noção de ausência de normas, uma pessoa que não soube aceitar os limites morais que a sociedade impõe, que aspira mais do que pode, que possui demandas acima de suas possibilidades reais e cai, portanto, no desespero. A anomia é atualmente, para Durkheim, um estado crônico do mundo econômico, ligado tanto a crises recessivas, mas principalmente a crises de prosperidade.

"A anomia é aceita como algo normal, sendo vista de fato como uma 'marca de distinção moral' e é permanentemente repetido que faz parte da natureza humana encontrar-se eternamente insatisfeita, de estar sempre avançando, sem descanso ou parada, em direção a uma indefinida meta".

A seguir destacamos alguns trechos de seu capítulo sobre o Suicídio Anômico que julgamos essenciais à reflexão sobre o tema do suicídio de uma forma que é pouco abordado nos tempos atuais.


"O poder governamental em vez de ser regulador da vida econômica, tornou-se instrumento e servidor - o guardião dos contratos individuais - cujo único e principal objetivo é prosperar, o dogma do materialismo econômico.

O mercado tornou-se o fim supremo dos indivíduos e da sociedade. Os apetites que ele põe em jogo viram-se livres de toda a autoridade que os limitasse. Essa apoteose do bem-estar colocou os apetites acima de toda a lei humana e retê-los transformou-se numa espécie de sacrilégio.

As cobiças se levantam sem saber onde pousar definitivamente. Nada é capaz de acalmá-las, uma vez que o objetivo para o qual se voltam está infinitamente além de tudo o que possam atingir. A realidade parece não ter valor em comparação com o que as imaginações febris vislumbram como possível; desligamo-nos dela, portanto, mas para nos desligar do possível quando, por sua vez, ele se torna realidade. Temos sede de coisas novas, de prazeres ignorados, de sensações inominadas, mas que perdem todo sabor assim que se tornam conhecidas. Então, ao sobrevir o menor revés, não temos força para suportá-lo.

A febre despenca e percebemos que o tumulto era estéril e que todas aquelas sensações novas, indefinidamente acumuladas, não conseguiram constituir um sólido capital de felicidade. O sábio, que sabe desfrutar os resultados obtidos sem sentir eternamente a necessidade de os substituir por outros, encontra razões para se apegar à vida quando soa a hora das contrariedades. Mas o homem que sempre esperou tudo do futuro, que viveu com os olhos fixos no futuro, nada tem no passado que o console dos amargores do presente, pois o passado foi para ele apenas uma série de etapas atravessadas com impaciência. O que lhe permitia não enxergar a si mesmo era o fato de sempre contar com encontrar mais adiante a felicidade que ainda não encontrara até então.

Mas eis que foi detido em sua caminhada; não tem mais nada, nem atrás nem à frente, em que repousar o olhar. O cansaço, aliás, é suficiente por si só para produzir o desencanto, pois é difícil não sentir, com o tempo, a inutilidade de uma perseguição interminável.

A impaciência febril em que se vive não inclina à resignação. Quando se tem como único objetivo ultrapassar constantemente o ponto a que se chegou, como é doloroso ser empurrado para trás!

Em suas características essenciais, a natureza humana é sensivelmente a mesma em todos os cidadãos. Não é ela, portanto, que pode atribuir às necessidades o limite variável que lhes seria obrigatório. Por conseguinte, na medida em que dependem apenas dos indivíduos, elas são ilimitadas. Em si mesma, abstraindo-se todo poder exterior que a regula, nossa sensibilidade é um abismo sem fundo que nada é capaz de preencher.

Desejos ilimitados são insaciáveis por definição e não é sem razão que se considera a insaciabilidade como sinal de morbidez. Perseguir um fim inacessível por hipótese é, portanto, condenar-se a um perpétuo estado de descontentamento. Sem dúvida, às vezes o homem tem esperança sem qualquer razão, e, mesmo sem razão, a esperança tem suas alegrias. Pode ser, portanto, que ela o sustente por algum tempo; mas não poderia sobreviver indefinidamente às decepções reiteradas da experiência. Ora, o que o futuro pode dar a mais do que o passado, uma vez que nunca é possível chegar a um estado em que possamos permanecer e que não podemos sequer nos aproximar do ideal vislumbrado? Assim, quanto mais tivermos, mas iremos querer ter, sendo que as satisfações recebidas só farão estimular as necessidades, em vez de as aplacar.

Para que o prazer seja sentido e venha atenuar e meio que encobrir a inquietude dolorosa que os acompanha, é preciso pelo menos que esse movimento sem fim se desenvolva sempre à vontade e sem que nada o tolha. Ora, seria um milagre nunca surgir algum obstáculo intransponível.

Quando esse prazer é entravado, a inquietação permanece só com o mal-estar que traz consigo. Nessas condições, estamos presos à vida apenas por um fio muito tênue e que a cada momento pode ser rompido.

É o despertar da consciência a força reguladora para que as necessidades morais do homem desempenhem o mesmo papel que o organismo para as necessidades físicas. Isso significa que essa força só pode ser moral. É o despertar da consciência que veio romper o estado de equilíbrio no qual o animal dormitava. A coerção material nesse caso não teria efeito; não é com forças físico-químicas que se pode modificar os corações. Na medida em que os apetites não são automaticamente contidos por mecanismos fisiológicos, eles só podem se deter diante de um limite que reconheçam como justo.

Só a sociedade, seja diretamente e em seu conjunto, seja por intermédio de um de seus órgãos, está em condições de desempenhar esse papel moderador, pois ela é o único poder moral superior ao indivíduo, e cuja superioridade este último aceita."

E como agir em uma sociedade que se tornou instrumento e servidor do individualismo e de um poder regulador que se curvou à obsessão pela prosperidade e o materialismo?

Fonte: trechos retirados do capítulo V p.303-354 do livro O Suicídio - Estudo de sociologia, de Emile Durkheim. Editora Martins Fontes. 3a ed. 2019.


Programa Entrelaços é citado em ampla revisão sobre iniciativas da família na saúde mental em países de baixa e média renda

Gostaria de dividir com vocês a alegria de termos sido citados por uma revisão internacional sobre iniciativas de família nos países de baixa e média renda. Foi a primeira revisão deste tipo e inclui todos os artigos publicados até 2021 de acordo com os critérios deles. É um reconhecimento por todo o trabalho que juntos estamos realizando e serve de estímulo para seguirmos adiante.

O artigo de revisão foi realizado por pesquisadores do King’s College, em Londres, considerado uma das 15 maiores faculdades de medicina do mundo, e publicado na Revista de Psiquiatria Social e Epidemiologia Psiquiátrica (veja a íntegra do artiqo aqui).

As autoras Hannah Morillo, Sophie Lowry e Claire Henderson, do Departamento de Higiene e Medicina Tropical do King’s College, selecionaram 27 de um total de 2815 artigos encontrados na literatura científica até 2021 que atenderam aos seguintes critérios da revisão: (1) intervenções precisavam ser baseadas na família; (2) direcionadas a pessoas com psicose; (3) ocorrer em países de renda baixa ou média. Foram incluídos os estudos que trataram de um amplo espectro de intervenções, como terapia de família, psicoeducação de família, workshops com famílias, intervenções de suporte à família em situações de crise, intervenções focadas na família, dentre outras modalidades. A situação econômica dos países seguiu a definição do Banco Mundial e da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), incluindo 109 países. As pesquisadoras fizeram uma busca sistemática em diferentes bases de dados, como Medline, Embase, Global Health, PsycInfo, Social Policy and Practice, CINAHL, Scopus, Google Scholar, além de bases de dados chinesas.

Os estudos variaram quanto à sua duração entre 1,5 e 24 meses e todos os desfechos foram considerados, categorizados em quatro domínios: (1) condição do paciente (sintomas, recaídas, adesão, hospitalização, recovery); (2) autogestão (autocuidado, conhecimento sobre psicose, funcionamento psicossocial, habilidade para buscar ajuda); (3) desfecho social (ambiente familiar, emoção-expressada, funcionamento social e ocupacional); (4) resultados de entrega (satisfação dos usuários, comparecimento e administração da intervenção).

Os estudos selecionados foram de países como China (11 estudos), India (4), Iran (2), Vietnam (2), Egito (2), África do Sul (1), Brazil (1), Indonesia (1), Tailândia (1), Nicarágua (1) e Paquistão (1). 69% das intervenções ocorreram em zonas rurais e 74% foram baseadas na comunidade. Vinte estudos incluíram pacientes com esquizofrenia, três com transtorno bipolar e esquizofrenia (inclusive o do Entrelaços), um com transtorno esquizoafetivo e esquizofrenia e outro somente com pessoas com transtorno bipolar.

Todos os estudos têm como objetivo fundamental implementar intervenções baseadas na família e são apoiados em dois pilares: componentes psicoterapêuticos e compartilhamento de experiências e aprendizados.

Entre os componentes psicoterapêuticos estão a abordagem dos sintomas da psicose através de conversas sobre sofrimento mental e emocional, sejam por meio de técnicas de psicoeducação (22 dos 27 estudos, incluindo o do Entrelaços), terapia de família ou abordagem sistêmica. O formato das sessões de psicoeducação variou de workshops a discussões interativas em um número de 3 a 14 sessões, de 15 minutos a 2 horas de duração cada. Os conteúdos foram de uma série de seminários sobre esquizofrenia a diferentes tratamentos e reabilitação, cuidados à família e aos pacientes, estratégias de enfrentamento, emoção expressada e padrões de comunicação e interação entre os membros da família.

Quando a psicoeducação é oferecida, aspectos negativos da emoção expressada, ou mais especificamente, o superenvolvimento crítico, hostil e emocional do ambiente familiar, são efetivamente reduzidos e o cuidado da pessoa com psicose é melhorado.

O compartilhamento de experiências e aprendizado visa criar uma rede de suporte social que contribua para o cuidado e suporte contínuos das famílias e para um networking comunitário.

Os estudos reportaram múltiplos desfechos, como impactos positivos na saúde dos pacientes (26 estudos, incluindo o do Entrelaços), maiores taxas de recovery, menores taxas de recaída, menor gravidade de sintomas (como os sintomas negativos), melhora da autogestão, maior conhecimento sobre a esquizofrenia e melhora das habilidades de autocuidado (esses dois últimos enfatizados pelo estudo do Entrelaços). Desfechos sociais, como melhora do funcionamento social e ocupacional, foram destacados por todos os estudos, exceto três que não reportaram nenhuma mudança social.

Entre as estratégias de administração das intervenções, 68% são conduzidos por profissionais de saúde, dentre eles psiquiatras, psicólogos e enfermeiros, enquanto os demais por assistentes sociais, pesquisadores e trabalhadores de ONG. Entre os fatores que ajudaram na implementação são citados pesquisas preliminares com o tema e a população alvo, a robustez do método, a importância do engajamento das famílias e a adaptação cultural. Entre as dificuldades estão o estigma por parte das famílias e da comunidade e o abatimento do envolvimento das famílias com o passar do tempo.

As autoras ressaltam que esta é a primeira revisão que sintetiza os achados sobre as intervenções familiares em países com baixa e média renda e que foi encorajador perceber o aumento do número de estudos – 60% deles entre 2011 e 2020. Elas argumentam que uma estratégia de intervenção culturalmente bem fundamentada na comunidade pode servir de base para a reabilitação das pessoas com transtorno mental nesses países e que esses estudos podem informar os formuladores de políticas públicas de saúde e os profissionais e acadêmicos do campo para criação de novas intervenções custo-efetivas que possam partilhar as tarefas de cuidado com a família. A ideia é aproveitar o capital social das famílias para compartilhar com elas o cuidado, seja através da psicoeducação, do aconselhamento/terapia familiar ou de um programa combinado com tratamento de reabilitação psicossocial.

Evidências na última década têm registrado resultados favoráveis à intervenção familiar, particularmente desfechos clínicos, funcionamento social, resultados positivos aos familiares e melhora da qualidade de vida. Além disso, análises econômicas apontam para resultados positivos na poupança das famílias e melhor relação custo-benefício.


A morte de Genivaldo escancara o ‘estado de exceção’ em que vivemos

Genivaldo talvez não soubesse os riscos que corria ao parar sua moto por ordem dos policiais rodoviários federais numa estrada de Sergipe. Certamente o fez por ser um homem de bem e que nada tinha a temer. Provavelmente não passou por sua cabeça furar o bloqueio policial, não por medo de ser alvejado ou perseguido. Simplesmente porque isso não passava mesmo por sua cabeça. Ele seria parado, revistado, teria seus documentos averiguados e então liberado. Talvez pudesse ser multado ou ter sua moto apreendida por estar sem capacete, mas esta seria, na sua concepção, a pior das consequências.

O que Genivaldo não sabia mesmo é que por ser preto, pobre e esquizofrênico (detesto utilizar esse adjetivo para designar alguém com um sofrimento mental, mas aqui se faz necessário), ele estava naquela condição numa posição de extrema vulnerabilidade e de extremo risco diante daqueles agentes do Estado.

Um Estado que pratica cotidianamente, um dia sim outro também, o extermínio de pessoas pobres e, na sua maioria, pretas, em nome da ordem e da lei através de suas polícias que se encarregam de uma limpeza étnica e que, na maioria das vezes, permanece impune. Impune, pois no ‘estado de exceção’ o extermínio não está ao alcance das leis e não depende de uma ameaça bélica, ele se desloca para situações sociais e econômicas para se converter em práticas habituais, do nosso cotidiano. Isso pode ser testemunhado nas operações policiais em comunidades das grandes cidades com mortes de pessoas inocentes, como ocorreu dias antes da morte de Genivaldo em uma favela do Rio de Janeiro.

Mas nunca isso esteve tão escancarado como neste trágico episódio de Genivaldo, que coincidentemente trazia Jesus ao seu lado no nome. Genivaldo de Jesus foi covardemente amarrado, com cordas nas mãos e nos pés, carregado até o porta-malas de um carro da PRF, onde foi torturado e morto asfixiado numa cena que revela a crueldade e a similitude com as câmaras de gás dos campos de concentração nazistas. Ele até tentou sua última cartada: mesmo com as mãos amarradas, tentou puxar de seu bolso uma receita de remédios psiquiátricos para provar sua inocência. Para afirmar que ainda lhe restava sua dignidade, que ali estava um cidadão, seu último fio de esperança antes de sucumbir diante do gás lacrimogêneo que um policial deflagrava no interior do veículo enquanto os outros seguravam fechada a porta da mala, ainda esmagando as pernas de Genivaldo.

Giorgio Agamben, filósofo italiano, é um dos que melhor define o ‘estado de exceção’, a zona de indistinção em que uma vida pode ser excluída pelo Estado e o campo (de concentração). No ‘estado de exceção’ o poder soberano, como por exemplo exercido por sua polícia, decide pôr fim a uma vida ainda que ela seja sagrada, revelando essa ambiguidade que, se por um lado não seja lícito sacrificá-la, por outro é um direito dispor dela sem cometer homicídio. A vida que se tira torna-se o objeto da relação política com o Estado, uma vida abandonada. O campo, definido por ele a partir dos seus estudos dos campos nazistas, é o lugar em que o ‘estado de exceção’ se materializa, ou seja, o lugar no qual a vida e a lei entram em um limiar de indistinção e aonde o Estado se sente “autorizado” a matar. É o dispositivo através do qual o poder soberano captura a vida, mas não qualquer uma. Para Agamben, o ‘estado de exceção’ é o paradigma da política contemporânea, um projeto biopolítico de produzir um povo sem fratura na obsessão pelo desenvolvimento. É um conceito polar, em que de um lado estão os sujeitos políticos e do outro a multiplicidade de corpos necessitados, os quais devem ser eliminados a favor dos primeiros.

O caso de Genivaldo não poderia ser mais emblemático. E tudo que ocorreu, da maneira como ocorreu e com as alegações posteriores da PRF, inclusive, só veem reafirmar a teoria de Agamben. Os policiais estavam imbuídos do propósito que lhes é transmitido pelos seus superiores e pelo Estado, que consideram natural essa política de extermínio e o ‘estado de exceção’. Agiram como num campo de concentração nazista, ignoraram uma vida humana e submeteram o corpo de Genivaldo, àquela altura um mero conjunto de carne e osso, a uma execução em câmara de gás improvisada. Depois tentaram forjar um atendimento em um pronto-socorro para dar ares de normalidade. A PRF se pronunciou através de uma nota, da qual destaco os seguintes trechos: “o homem de 38 anos resistiu ativamente a uma abordagem de uma equipe da PRF. Em razão da agressividade os agentes empregaram técnicas de imobilização e instrumentos de menor potencial ofensivo para sua contenção e o indivíduo foi conduzido à delegacia da polícia civil da cidade. Diante dos delitos de desobediência e resistência, após ter sido empregado com legitimidade o uso diferenciado da força, tem-se por ocorrida uma fatalidade, desvinculada da ação policial legítima.” Os policiais foram afastados depois da repercussão do caso na mídia. Repito, foram afastados do serviço.

Não fossem as testemunhas oculares no local e o vídeo feito a partir de um smartphone, Genivaldo de Jesus seria mais uma vítima oculta da barbárie. Hoje ele escancarou para o Brasil e o mundo o ‘estado de exceção’ em que vivemos. A sociedade precisa reagir ou assistiremos atônitos a tudo isso acontecendo diante dos nosso olhos e às custas de milhares de vidas inocentes.


Apresentação para obtenção de grau de Mestre em Psiquiatria pelo IPUB-UFRJ

Bom dia a todas e todos. Inicialmente gostaria de agradecer à minha orientadora, Professora Maria Tavares Cavalcanti, ao meu coorientador, Professor Alexandre Keusen, e aos professores da banca, Pedro Gabriel Delgado e Eduardo Vasconcelos. Esta dissertação de mestrado é motivo de muito orgulho e emoção para mim, pois representa um marco de um trabalho que desenvolvo com uma equipe muito comprometida e unida, da qual aqui presentes estão os meus amigos Elias Carim e Olga Leão, além das famílias e dos usuários que nos dão a honra de sua confiança e convivência. A eles eu dedico esta dissertação e esta defesa.

O objetivo da minha dissertação é analisar o processo de constituição do Programa Entrelaços enquanto uma rede comunitária de apoio e inclusão de pessoas com transtorno mental e de suas famílias na cidade do Rio de Janeiro, que, ao longo dos últimos dez anos, foi se desenvolvendo como resultado deste trabalho.

Apesar de eu mencionar 10 anos, não poderia ignorar todo o trabalho anterior que representa o começo e também o processo que desaguou no que hoje é conhecido como Entrelaços. A importância dos encontros que ocorreram – e que continuarão ocorrendo – é notável. Eles foram e são imprescindíveis para a coconstrução deste projeto, que, como veremos, é resultado da interação entre profissionais, familiares, usuários e outros colaboradores, inclusive os membros desta banca, que nos honraram com suas valiosas contribuições para o amadurecimento da experiência. Como costumo afirmar em outras apresentações sobre este projeto, é sempre um desafio discorrer sobre os componentes e mecanismos que tornaram essa experiência possível, pois nada no Entrelaços é desconectado. Como sugere o próprio nome do programa, tudo está entrelaçado. São como forças vetoriais que afetam suas partes, num constante devir, e que produzem um novo conjunto que jamais volta a ser o que era antes. Portanto, quem pôde vivenciar o programa Entrelaços, e fez parte dele, sabe bem o tamanho deste desafio que hoje eu enfrento. Saibam que eu dei o meu melhor para que este trabalho e esta apresentação pudessem ser apreciados pelos senhores.

Existem momentos que marcam nossas vidas. Eu poderia aqui citar vários: a minha formatura na UFRJ, a residência, meu casamento, o nascimento dos meus filhos. São marcos que funcionam como divisores de água, você sai diferente do que entrou, aquilo lhe ensinou algo diferente que tocou seu coração, mostrou um novo caminho e modificou profundamente, transformando sua prática. Por isso, eu reafirmo que escrever esta dissertação me emocionou em diversos momentos, porque ela foi um presente e uma oportunidade de reflexão sobre toda uma trajetória profissional até aqui, uma vez que o Programa Entrelaços e minha vida estão definitivamente entrelaçados.

Como aluno da UFRJ, fiz o meu internato eletivo aqui no IPUB e tive a Professora Maria como coordenadora. Durante o mestrado, eu fiquei refletindo como isso pôde ter me influenciado a escolher a residência do Pinel ao invés do IPUB, e confesso: não encontrei uma resposta. Mas acredito que a Professora Maria possa ter plantado, sem saber, uma semente da psiquiatria comunitária em mim com seus ensinamentos. O fato foi que fiz minha residência no Pinel, e que este foi um outro marco na minha vida.

Um período difícil, mas riquíssimo, de muitas reflexões e resistências. Sim, resisti ao questionamento de um modelo biomédico que, para um aluno recém-formado em Medicina, soava como um acinte. Tive contato com professores e verdadeiras autoridades na reforma psiquiátrica brasileira, de modo que aquela semente que havia sido plantada pela professora Maria começava a germinar e a incomodar.

Meu primeiro emprego como psiquiatra foi no Hospital-dia do Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro, na época dirigido pelo meu coorientador Alexandre Keusen. E, lá no Hospital-dia, então coordenado pelo meu amigo Elias Carim, comecei um grupo de medicação com os usuários. Este grupo logo se desdobrou em um pequeno grupo de psicoeducação com os familiares dos usuários, em que, juntamente com a psicopedagoga Ana Beatriz Bezerra, começamos a desenvolver algumas dinâmicas educativas sobre sintomas, problemas e tratamentos, utilizando cartolinas e pilot.

O professor Alexandre, ao tomar conhecimento do projeto, nos convidou a ampliar a psicoeducação para todos os setores do CPRJ, falando de sua experiência, de seu mestrado e doutorado, e me apresentando a experiência da escola de Pittsburgh, de Carol Anderson, e a de Manchester, de Nicholas Tarrier e Christine Barrowclough, em que eles realizavam seminários (workshops) com as famílias, seguidos de encontros em grupo. Resolvemos então adotar este modelo e a realizar anualmente os seminários no auditório do CPRJ e também grupos mistos, de familiares e pacientes, entre os ciclos de seminários de forma ininterrupta de 2002 a 2008.

Com a saída do professor Alexandre da direção do CPRJ para o Setor de Família do IPUB, fomos convidados por ele a desenvolver um programa de pesquisa e assistência às famílias de pessoas com transtorno mental severo no IPUB. Neste mesmo ano, 2009, lançamos o livro Entendendo a Esquizofrenia e inauguramos o portal de mesmo nome na internet com finalidade psicoeducacional. Ambos eram reivindicações antigas das famílias que atendíamos e traziam os conteúdos que eram ministrados nos seminários.

A vinda para uma instituição universitária representou uma guinada no projeto, com um mergulho mais profundo na literatura sobre os dois pilares que àquela altura já faziam parte, os conceitos de emoção-expressada e de vulnerabilidade ao estresse, e o aprofundamento nos estudos sobre recovery, que na época chegava com força ao Brasil, e o desenvolvimento de metodologias como a terapia de solução de problemas e a entrevista motivacional, através do método LEAP. Esses tornaram-se referenciais teóricos-chaves e também constituíram um conjunto de práticas que na nossa análise contribuíram para o desenvolvimento do Programa Entrelaços.

Uma questão causava-nos certa inquietação. Por que as famílias atendidas no CPRJ não deram continuidade aos encontros depois que deixamos a instituição? Onde falhamos ou o que deixamos de oferecer para que depois de todo o trabalho eles não dessem sequência aos encontros de forma espontânea ou autônoma? Quais as características mais importantes e quais técnicas poderiam ser desenvolvidas para que os grupos se tornassem autossustentáveis? Assim, fomos aos livros e artigos científicos buscar respostas.

Tínhamos clareza que nossa iniciativa, para ser bem-sucedida, precisava estar ancorada na reabilitação psiquiátrica/psicossocial e nas práticas da reforma psiquiátrica brasileira e do recovery. Era preciso desenvolver um método que fosse capaz de compreender a pessoa em sua integralidade, no seu contexto de vida e em seu ambiente, concentrando-se em seus pontos fortes e objetivos pessoais, tratando-a como a verdadeira especialista se nosso objetivo final fosse ampliar as conquistas sociais dessa população, possibilitando a ela uma maior participação da vida comunitária e, com isso, alcançando mudanças culturais na sociedade em relação ao transtorno mental.

Como afirma Benedetto Saraceno, a finalidade da reabilitação é aumentar o poder de contratualidade da pessoa com sua comunidade, com sua casa, com seu trabalho e com sua rede social. Esse é o objetivo maior da reforma psiquiátrica brasileira, a verdadeira transformação social, que os serviços não se tornem local central ou exclusivo das pessoas com transtorno mental.

Esse objetivo representa um enfrentamento da ideologia dominante da psiquiatria, da “terapêutica orientadora”, como nomeia Basaglia, que violenta e oprime a pessoa com transtorno mental por estabelecer a tutela em uma relação hierarquizada do cuidado, centralizada em uma visão biologicista que prioriza o diagnóstico, o sintoma e a medicação em detrimento do sujeito, muitas vezes tratado como cidadão de segunda classe, ao qual é negado o direito de tomar decisões sobre sua vida e de correr riscos. Ora, o que prega a reabilitação psiquiátrica – e é reforçado pelo movimento dos usuários da saúde mental que deu origem ao paradigma do recovery – é justamente a liberdade para tomar decisões, correr riscos e assumir o controle de sua vida, devendo os serviços criar ambientes que permitam à pessoa reconhecer seu próprio domínio e não ensinar modos prescritivos de viver a vida e formar pessoas especialistas em doenças. É crucial, portanto, que um programa de reabilitação seja capaz de desenvolver a prontidão do usuário para encarar o desafio de sua própria recuperação, o que não pode ser alcançado numa relação hierarquizada de poder e tutela.

Isso traz definitivamente para primeiro plano a relação que se estabelece entre os usuários e os serviços e os profissionais de saúde, com implicações profundas e transformadoras para a atitude desses últimos. Como enfatiza Basaglia, antes de qualquer ato terapêutico, precisamos nos conscientizar do nosso papel objetificado de excludentes, no qual somos o tempo todo investidos pela sociedade. A importância do vínculo entre profissional e usuário é central para que as transformações terapêuticas aconteçam, estabelecendo-se uma relação tautológica, ou seja, quanto mais um profissional utiliza estratégias de recovery com o usuário, mais ele desenvolve a prontidão e o senso de recovery em sua jornada de reabilitação.

Para que esta relação se torne possível, precisamos, enquanto profissionais, vivenciar os valores da reabilitação e do recovery, o que implica acreditar no potencial para aprendizado e crescimento de todos os usuários, cultivando a esperança e o otimismo. Não é possível criar uma atmosfera verdadeiramente terapêutica onde reina o “ferimento iatrogênico da desesperança”, na fala de Patricia Deegan, uma das maiores violências que a psiquiatria pode praticar a um ser humano. Para ela, essa atitude provoca “endurecimento de corações” e torna as pessoas desencorajadas a lutar por suas vidas. Portanto, se não é possível a reabilitação sem prontidão, não é possível prontidão sem o desmantelamento da hierarquia e a revolução do cuidado que parte da transformação da relação terapêutica. Como disseca Basaglia, a objetificação do paciente localiza-se no interior dessa relação, que, em última análise, é a relação do usuário com a sociedade que delega ao terapeuta a relação de cura e tutela.

Então, nosso método de trabalho precisava criar uma atmosfera que permitisse desenvolver a prontidão, sem a qual os demais objetivos deste trabalho não poderiam ser alcançados. Mas com o cuidado de não reproduzirmos um otimismo Pollyanna e afastarmos aqueles mais céticos ou mais dominados pela ideologia psiquiátrica vigente. O enquadramento teórico deveria ser capaz de deslocar a concepção organicista, centrada no modelo biomédico, que transmite uma visão fatalista do transtorno mental, para um modelo que priorizasse os aspectos ambientais e sociais, mostrando que a recuperação não é somente possível, mas provável, com a criação de ambientes mais tolerantes, participativos e com maior interação social. O modelo de vulnerabilidade ao estresse de Zubin e Spring já vinha sendo utilizado por nós no CPRJ, mas merecia nosso aprofundamento até mesmo para que a equipe compreendesse melhor e passasse a adotar o modelo como um substituto do modelo clínico kraepeliniano. O modelo de vulnerabilidade é um fio condutor para as demais discussões sobre a emoção-expressada e ambiente familiar, sobre a reabilitação psiquiátrica, sobre o recovery e sobre a reforma psiquiátrica.

Mais recentemente, pesquisadores renomados, como Laurence Kirmayer, professor de psiquiatria social e transcultural da Universidade de McGill, Quebec, Arthur Kleinman, professor de antropologia médica de Harvard, e Rose Birk, professor de sociologia do Kings College em Londres, publicaram livros e artigos que defendem um reengajamento teórico e científico capaz de desconstruir a distinção binária entre biologia e ambiente que possa compreender melhor os processos neurológicos, ecológicos e sociais que constituem a vida humana e as preocupações políticas centrais do nosso campo, como a iniquidade e a injustiça. Um sintoma psiquiátrico não pode ser compreendido como simples resultado de processo fisiopatológico porque ele não pode ser extirpado do ser vivente, que dá sentido ao seu sofrimento e se adapta a ele, e que, na maioria das vezes, é seu conhecimento experiencial e sua resposta pessoal a parte mais importante e a que ele mais valoriza. As intervenções de reabilitação devem contribuir para uma construção social da personalidade, ajudando a reformular as noções do self e as formas de existir a partir de suas próprias práticas e teorias institucionalizadas que formam o sujeito a priori.

A própria Patrícia Deegan, ao dar seu testemunho em primeira pessoa, enfatiza que o sintoma negativo, como o retraimento social e emocional, é reflexo de um sujeito traumatizado pelas consequências ambientais do adoecer e muitas vezes de suas experiências negativas com os serviços de saúde, amedrontado e desencorajado a se expor socialmente de novo. Brown e Wing, responsáveis pelo modelo socioambiental da esquizofrenia, consideravam que não era possível distinguir as “deficiências secundárias” provenientes das consequências sociais e médicas de estar doente, como a perda da autoconfiança, da autoestima, o estigma e o institucionalismo dos sintomas primários.

Esse é o nosso propósito com os referenciais que deslocam para o ambiente as perspectivas terapêuticas, quando reafirmamos que um ambiente mais tolerante, menos opressivo, crítico ou superestimulante, uma família menos intrusiva e mais flexível, capaz de compreender melhor o transtorno, enfrentar melhor os problemas e se comunicar de maneira mais efetiva, um sujeito mais empoderado e consciente de sua situação social e política e uma rede social e comunitária mais inclusiva são capazes de transformar a clínica, promover a recuperação e transformar a realidade social e cultural dominante.

A psiquiatria tornou-se um objeto de poder sobre as necessidades materiais e espirituais das pessoas, afastando-se do seu propósito primário para submeter as pessoas ao controle, à manipulação e à vontade da própria psiquiatria, negando sua essência. Se por um lado isso pode gerar um desconforto e uma insegurança aos que nos procuram – não oferecemos soluções prontas e nem verdades absolutas –, por outro lado, propomos substituir a certeza pela relatividade, o controle pelo empoderamento, a explicação generalizada pela compreensão local, a arrogância pela humildade, compreendendo que somente  a coconstrução coletiva de significados e definições a partir da experiência e a corresponsabilização por todas as etapas deste processo são capazes de levantar as pontes de entendimento as quais tanto precisamos, para estabelecer as correlações entre os mecanismos biossociais e as narrativas culturais e históricas para a construção de um movimento de base que consiga de fato as transformações sociais e culturais propostas.

Três técnicas foram desenvolvidas no programa para esse percurso: a entrevista motivacional; a construção de conhecimento; e a terapia de solução de problemas. Elas são utilizadas de forma imbricada, de maneira que todos as vivenciam, aprendem e utilizam com o objetivo de criar e garantir um espaço de fala igual para todos. Um espaço de geração de conhecimento, um espaço para solução de problemas e, finalmente, uma consciência social.

A entrevista motivacional parte de uma atitude inicial por parte da equipe de respeito, empatia, prioridade para a escuta e compreensão. Como uma dança em que você conduz o seu parceiro ou sua parceira pelo salão, sem dirigi-lo, porém amparando-o e guiando-o. Compreende ter uma atitude e um diálogo colaborativo, estabelecendo parcerias em um mesmo nível e tomando decisões conjuntas. Ter uma atitude evocativa, extraindo dos participantes as habilidades e recursos que eles já possuem, acreditando no potencial de realização de cada um, e honrando a autonomia do outro, reconhecendo que todos são capazes de tomar decisões e assumir responsabilidades. Essa forma de comunicação é utilizada desde o acolhimento e ao longo de todo o programa, e é uma adaptação da técnica desenvolvida pelo psicólogo americano Xavier Amador na convivência com seu irmão que foi diagnosticado com esquizofrenia. Também é apresentada aos usuários e seus familiares ao longo dos seminários.

Essa técnica e o exercício constante da escuta, em que todos têm o direito à palavra, permitem um lugar de fala para todos. O lugar de fala possui uma função estratégica primordial na constituição do programa. Como enfatiza Pierre Clastres, a fala demarca uma linha divisória entre as pessoas e o poder. Em sociedades com Estado, a fala aparece atrelada a relações de poder. Quem fala detém antes de tudo o poder de falar. Ela está associada ao direito – o governante tem o direito de falar e seus súditos a obrigação de ouvir. Em sociedades sem Estado, como as tribos ameríndias estudadas por Clastres, em que o poder encontra-se diluído na população, o pajé, considerado o chefe da tribo, tem a fala enquanto dever, pois dele se espera a palavra, porém ela não está atrelada ao direito, as pessoas não são obrigadas a parar para ouvir. E ele sabe que pode ser abandonado por sua tribo se passar ao extremo oposto, visto que a violência é a essência do poder e na tribo o eixo do poder recai sobre o corpo da sociedade, que, por sua vez, não permite o deslocamento de forças que perturbem a ordem social.

Além da igualdade de fala permitir a distribuição de poder entre os participantes e a equipe técnica, é através da fala que ocorre o processo de autoexpressão e autodescoberta, intensificando as relações dentro do grupo. Também é através das relações no grupo que o sujeito pode formar a sua subjetividade. Segundo Merleau-Ponty, a fala é o elemento existencial para a autoexpressão e é através dela que se pode explorar o pensamento dos outros e a habilidade de pensar com os outros, possibilitando uma linguagem nova a ser compartilhada, um senso de coletividade por meio do diálogo. Maturana, na mesma linha, defende que a comunicação através da linguagem produz um conhecimento que é sempre relacional, como se o mundo que enxergamos não fosse um mundo objetivo e estático, mas um mundo num constante devir pela interação e coconstrução com os outros. O nosso ponto de vista torna-se, portanto, resultado de um acoplamento com a experiência do outro, ampliando nossa perspectiva para que o outro tenha lugar, e, juntos, possamos construir um mundo.

Os seminários abordam os conceitos-chaves do programa, procurando desconstruir a lógica psiquiátrica centralizada no modelo médico para uma visão mais socioambiental e política, explorando caminhos de recuperação através da construção coletiva. O conhecimento não é produzido exclusivamente nesta etapa, mas ao longo de todo o percurso, inclusive na etapa de solução de problemas, em que se produz conhecimento experiencial. Como afirma Paulo Freire, “quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender”, e de fato cada ciclo de seminários do Entrelaços sofre transformações a partir das contribuições de seus participantes. O objetivo desta etapa é cultivar uma curiosidade crítica e uma disponibilidade para reconstruir, reformar o saber existente, ou, como afirma Paulo Freire, “superar a ingenuidade da experiência”, produzindo uma inquietação indagadora que possa provocar um comportamento voltado ao desvelamento, à descoberta de algo novo, que possa abrir portas antes nunca abertas, o que Freire denomina como o “fenômeno vital do aprendizado”. A intenção é que esta etapa produza uma abertura para o desenvolvimento de novas habilidades e de uma nova expertise nos usuários e familiares, convidando-os à etapa seguinte, de solução de problemas.

A terapia de solução de problemas utilizada na etapa de grupos foca na situação social da pessoa mais do que nela própria ou em seus sintomas e busca por soluções de vida real e que ocorram no ambiente natural. Essa compreensão dos problemas ou dos sintomas dentro de sua unidade social requer uma visão sistêmica e um olhar ampliado tanto a nível micro como macrossocial para unidades sociais mais amplas, incluindo o sujeito, sua família, os serviços, os profissionais e sua comunidade. Nesta etapa são debatidos os problemas do dia a dia das famílias, mas também as questões relacionadas aos serviços de saúde, à comunidade e sociedade como um todo, à cultura e à política. De acordo com Silvia Lane, psicóloga responsável pelo desenvolvimento da perspectiva sócio-histórica da psicologia social no Brasil, as transformações sociais requerem um deslocamento do sujeito alinhado, justaposto à sociedade, para que ele passe a se movimentar e a se conscientizar sobre as contradições do processo histórico e possa, portanto, combater e se contrapor às determinações sociais da ideologia dominante.

Segundo a filósofa Judith Butler, o sujeito vive uma ambivalência entre domínio e submissão com a lei e o Estado, que constitui a priori sua subjetividade, como se estivesse apaixonadamente apegado a eles, o que, em última análise, é o apego à sua própria existência. Como afirmou Michel Foucault, o biopoder exercido pelo Estado atua através da disciplina e da regulação criando normas que são internalizadas pelos sujeitos e servem de formas de poder sobre a vida e o corpo tanto na esfera individual como em grupos sociais, sendo um poder que opera a nível de nossas práticas cotidianas e estabelece uma rede de vigilância, não somente de cima para baixo, mas também de baixo para cima e lateralmente, enredando o sujeito como um ente complacente. Mas, como sugere o próprio Foucault, o mesmo sistema que oprime também oferece condições para subvertê-lo, sendo possível desenvolver um discurso reverso em que a normalidade possa ser questionada e reformulada. Da mesma forma que somos constringidos, também somos capacitados, sendo necessário desenvolver um pensamento crítico capaz de distinguir entre as situações de constrição e de capacitação para que seja possível reformar o sujeito e emancipá-lo.

A “arte de não ser governado” está no movimento do sujeito em “questionar a verdade quanto aos seus efeitos de poder e de questionar o poder quanto aos seus discursos de verdade”, cultivando uma atitude criticamente autorreflexiva. Como Butler define, citando Giorgio Agamben, o sujeito deve ter sua existência como potência que não se esgota por nenhuma interpelação particular, inaugurando a possibilidade de um ser mais aberto e mais ético no futuro.

É esse processo dialético, através das reflexões produzidas pelos encontros do Programa Entrelaços, que permitiu que os grupos se constituíssem como grupos autônomos na comunidade. A estrutura dos grupos pode ser compreendida pela microssociologia de Erving Goffman, pela análise do processo grupal proposto por Silvia Lane e pela teoria de habitus e campos de Pierre Bordieu. A estrutura de um grupo é a de um sistema frágil e que tende à dissolução pelas diferentes tensões entre seus integrantes, que possuem diferenças sociais, culturais, ideológicas e que podem formar distintas parcerias dentro do grupo. Contudo, existem elementos estruturais que trabalham a favor de sua manutenção: as personalidades que se formam pelos papéis sociais e pelo processo de identificação, a interação entre os diferentes atores, que se esforçam moralmente para sustentar as relações e seus papéis, e as propriedades do grupo em si, como seus objetivos e propósitos políticos. Quanto mais fortes os elementos estruturais se consolidarem, maiores as chances de sobrevivência do grupo. Os sujeitos interiorizam a experiência do outro e constituem suas identidades a partir desta interação, e, em um processo de “mediação ideológica”, de acordo com Lane, o grupo supera suas individualidades e se conscientiza das suas condições históricas comuns, levando-o a um processo crescente de identificação e atividades conjuntas. Lane chama esse processo de espiral, em que o grupo deixa de ser um grupo objeto, circular, para um grupo-sujeito, um movimento social, em que o próprio grupo se produz e adquire sua autonomia.

Portanto, o grupo perpassa as questões das identidades para questões sociais e políticas que dão corpo a uma ideologia. Neste sentido que Pierre Bordieu afirma existir uma relação dialética de mão dupla entre sujeito e sociedade, em que o habitus individual, representado por um sistema de esquemas estruturantes dos indivíduos pelas pressões e conjunturas sociais, e o campo social se constituem mutuamente. Para Butler, o habitus de Bordieu é o equivalente à ideologia, como ela mesmo afirma: “a reprodução das relações sociais, a reprodução das habilidades é a reprodução da sujeição”. É o que testemunhamos no Entrelaços: à medida em que os grupos evoluem enquanto movimento social, adquirem independência e autonomia institucional e passam a liderar iniciativas sociais, políticas e culturais, como no Trilhando Caminhos e na Locomotiva de Saúde Mental, além de intercâmbios com outros movimentos sociais da cidade, como o Loucura Suburbana.

Gostaria de finalizar esta apresentação com um texto de Ana Pitta que eu pincei de um capítulo de seu livro Reabilitação Psicossocial no Brasil, e que, para mim, merece destaque por sua leveza, sensibilidade poética e profundidade, e por isso quis destacar na abertura da discussão de minha dissertação.

Estou ciente de que esta é mais uma etapa deste caminhar e que ainda temos muito a conquistar. Ter desenvolvido esse conjunto de técnicas e conseguido formar grupos autônomos que hoje se constituem política e socialmente nos coloca um imperativo ético de ampliar essa experiência para um número maior de usuários e familiares, com a possibilidade de entrada no sistema de saúde através dos pares especialistas enquanto integrantes das equipes de saúde mental, podendo levar essa discussão para dentro dos serviços e alcançar um maior número de profissionais, o que verdadeiramente pode transformar a cultura psiquiátrica neste país. Isso implica em muitas conquistas, como redução de medidas coercitivas na psiquiatria e ampliação das garantias de direitos humanos dos usuários, difusão do recovery e maior participação dos usuários e familiares nos serviços e nas políticas públicas e maior participação social e inclusão dos usuários em suas comunidades.

Vou terminar citando o sociólogo Anthony Giddens. Em um mundo cada vez mais globalizado e impessoal, em que a esfera pública é excessivamente institucionalizada e a privada cada vez mais enfraquecida e amorfa, as localidades de relativa pequenez e informalidade que possibilitam novos laços pessoais através da autorrevelação mútua e da busca por reciprocidade e apoio oferecem pontos de acesso para o engajamento contestatório e para oportunidades para o ativismo. A recriação de espaços e a vida comunitária são importantes mecanismos para a subjetividade humana, capazes de formar sujeitos ressurgentes contra a institucionalização excessiva do Estado.

Muito obrigado!